4 de jun. de 2007

Desautorizando os papagaios

Clica aí quem quiser ir para o abaixo-assinado:
Desautorização e Pedido Formal de Desculpas à Venezuela

http://www.petitiononline.com/NOPLANB/petition.html

Situação na América Latina

Claro que:
Corre risco de que os movimentos sociais deixem de serem vistos como interlocutores e passem a existir somente como subordinados aos governos de massa. Ou seja, do outro - mais forte, maior - reivindicar o espaço do pequeno, do fraco, ao invés de, em uma situação estatizante, fortalecer a voz do pequeno como legítima, ao menos tentar ouví-lo, apoiar sua organização.
Ou seja, os parceiros de antes, que apostaram em candidaturas populares tornarem-se personas non gratas por tentarem estabelecer críticas independentes.
Corre o risco de não haver oposição: nem dentro, nem fora. E quem for contra ficar isolado. Ou ser perseguido.
E a tal autonomia e independência ser apenas um discurso para um outro tipo de imperialismo: um imperialismo de esquerda.

Claro, estamos falando de sutilezas.

E é bom pensar nisso como uma nuance de pensamentos que corre o risco de ficar ou NISSO, ou NAQUILO, sem compreender que sempre há a possibilidade da coalizão, do meio termo, da alternativa de uma ordem em que a própria sociedade assuma para si o controle dos seus próprios designios, sem depender de uma máquina estatal.

Mas, menos ainda, precisamos, queremos e estamos dispostos a aceitar a continuidade desse sistema selvagem de capitalismo neoliberal globalizado que nos torna dependendentes da lógica e do raciocínio econômico.

Portanto, é preciso um pouco de controle na hora de criticar os governos dos países vizinhos, para não darmos continuidade ao mesmo discurso que a direita vem pregando, incorformada de ter perdido o poder, na base dos votos. Logo ela, que acreditava tanta na democracia!

2 de jun. de 2007

né por nada

mas o havez chamar o Congresso brasileiro de "papagaios do imperialismo" faz mais que jus ao que els são, realmente.
Afinal, a tal da RCTV tinha uma concessão do Estado para operar umcanal de TV e o Estado não quer mais renovar o contrato com a empresa. Afinal , quem é que renovaria um contrato com um inimigo declarado que, inclusive, tentou dar um golpe baixíssimo, no governo Venezuelano? Contratar franco-atiradores, com a camiseta do Chavez, para atirar nos próprios companheiros deles, dizendo tratar-se de membros Chavistas, e repetir ad nauseaum na tv, condenando o crime, sendo que foram eles os contratantes e mandantes do crime, merecia, além da retirada daconcessão, cadeia, nó mínimo.
Aí vem o Congresso brasileiro, movido à campanha da Globo e da Folha de são Paulo, mandar cartinha para a Venezuela, condenando o fato, ora, meus amigos, isso não. Papagaios do Imperialismo.
Chavez está certíssimo!

29 de mai. de 2007

muito bom, muito bom





clica na imagem pra ver melhor....

28 de mai. de 2007

com todo respeito...



Com todo respeito aos noveleiros, mas para quem assistiu "A Revolução não será Televisionada", em que a RCTV da Venezuela manipula todas as informações para mandar Chavez para o inferno de Guantânamo, não haveria porque estender a concessão de mais 50 anos, à custa do Estado, aos antigos mandantes do poder nacional.

Textos sobre a questão da usp

pra quem quiser saber mais sobre a questão da usp:

http://ocupacaousp.noblogs.org/post/2007/05/28/estar-com-os-estudantes-ou-estar-com-a-pol-cia

carta de encaminhamento do pedido



publicado em: http://leonildoc.orgfree.com/cartap.htm

Carta do secretario pinotti para a reitoria da USP


23 de mai. de 2007

Invasão da reitoria da USP



25 anos depois, estudante leva a mãe para a invasão
Pregando o apartidarismo, grupo invasor desdenha das entidades tradicionais de estudantes e dos líderes carismáticosNovo movimento estudantil é bem diferente daquele da invasão da reitoria da USP de 82





Alimentos são distribuídos a estudantes na reitoria da USP, invadida há 20 dias; alunos poderão ser presos caso não deixem o local





LAURA CAPRIGLIONE


DA REPORTAGEM LOCAL





E de repente, de surpresa, um novo movimento estudantil surgiu na Universidade de São Paulo. Ele tem uma cara mulata como não se via nos anos de chumbo da Ditadura Militar. Ele dá as costas às entidades tradicionais de estudantes, como a UNE, a UEE e o DCE-Livre. Ele desdenha de líderes carismáticos (em vez disso, todo mundo manda, e ninguém manda). Ele cultiva a sério o apartidarismo, quebrando o monopólio político de partidos como o PT, PSOL e PSTU, que já foram manda-chuvas no pedaço. E, esquisitíssimo, ele faz questão de cuidar dos jardins com tanto esmero quanto da mobilização.
Esse novo movimento estudantil apareceu há 20 dias, quando 120 alunos dirigiram-se à reitoria da universidade para entregar um documento com reivindicações. Como não encontraram a reitora Suely Vilela, que estava viajando, resolveram invadir o local. E a coisa começou a crescer, sem controle, e sem interlocutores.
Ontem, o carro de som postado bem na frente da invasão tocava a trilha sonora do pessoal. "Eu sou a mosca que pousou na sua sopa" e "Pluct, plact, zuuum, não vai a lugar nenhum", de Raul Seixas, alternavam-se com todas as músicas antigas de Chico Buarque, com especial destaque para "Apesar de você", um hino da resistência democrática nos anos do regime militar. Túnel do tempo?
Quem, há 25 anos, em 1982, quando a reitoria da USP foi invadida pela primeira vez, imaginaria um estudante levando sua mãezinha para ver como os companheiros se comportavam bem na luta? Pois foi isso o que o aluno Luiz, do segundo ano de História, fez: levou a mãe, conflito geracional nenhum, para checar como tudo estava organizado na Reitoria, apesar da invasão. "Ela gostou muito do que viu", garante ele.
Ontem, em visita ao prédio ocupado, os estudantes que ciceroneavam a reportagem da Folha fizeram questão de mostrar os banheiros da reitoria. "Tudo limpinho, você está vendo." Estava mesmo. Os jardins internos do prédio, de tão bem cuidados, mereceram elogios do jardineiro responsável, que foi checar as perdas e danos da invasão. Em vez disso, fez questão de parabenizar quem o estava substituindo tão bem.
O pessoal faz cara de mau quando alguém da "imprensa burguesa" (como muitos consideram, por exemplo, a Folha) pede entrevista. Mas dura pouco. Foi só a comissão de mobilização avisar que mais uma assembléia ia começar e um grupo de estudantes músicos (duas flautas doces, uma clarineta, um violino, um cavaquinho e dois pandeiros) começou a tocar "Se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar". Foi a senha. Cinco grandes rodas concêntricas, formadas por adolescentes de mãos dadas, começaram a dançar. Então vieram um Caetano velho, ainda bucólico, "Asa Branca", de Luís Gonzaga, e o hit "Apesar de Você", sempre ele. Aquecida pela coreografia, a assembléia se iniciou.
Há muitos negros na invasão, como não se via na de 25 anos atrás. Se antes ingressavam na universidade 4.000 novos alunos por ano, hoje são 10.000. Cabelões black de todas as formas, os universitários do grupo "OcupAção Afirmativa", refletem a abertura pela qual passou a USP. Mas eles querem mais.O ultra politicamente correto domina a cena. No amplo saguão que antecede a sala do Conselho Universitário, onde estão distribuídos os colchões em que os invasores dormem, tudo é de todos. Alba explica a norma: "Chegou, encontrou o colchão vazio, qualquer um, então pode se deitar.
"Bebidas alcoólicas e drogas não entram no prédio. Quem quiser, que consuma fora. Cigarros só em locais abertos, como o saguão da reitoria, ao lado do busto de Nicolau Copérnico, em que foi afixado o cartaz: "Também apóio a ocupação".Todos comem a mesma comida, feita por uma outra comissão, a de alimentação. Ontem, o cardápio do almoço era arroz branco, batata cozida e lingüiça frita. Acompanhava um minicopinho (desses de café) de suco de caju. Ninguém reclamava.
Lá fora, a USP, naquele que é o seu centro geográfico de poder, o conjunto da reitoria, parece o centro comunitário de um pedaço da periferia: o prédio da reitoria em obras, o matagal crescendo nos canteiros do vizinho Conjunto Residencial da USP (onde moram alunos carentes), as lonas improvisadas, proteção para a chuva, como em um acampamento de sem-teto, os pneus empilhados à guisa de barricada, as muitas pixações ("Ocupe a Reitoria que Existe em Você" é uma delas). Uns tantos bêbados em volta. Um pequeno comércio de camelôs vendendo doces e camisetas.
Os estudantes em tempos de democracia não gostam de mostrar seus rostos nem de declinar seus nomes. Identificam-se por um prenome, às vezes confessando, antes que se pergunte, que é falso. Temem punições administrativas.
Há 25 anos, a Ditadura ainda existia no país -era o governo do general João Baptista Figueiredo (1918-1999)-, mas a confiança do movimento estudantil era tamanha, que todos queriam aparecer. Um grupo de alunos do Instituto de Física, então uma das escolas mais ativas da USP, fez questão de "tomar posse" da sala do Conselho Universitário, batizando-a de "Espaço Marcelão", em homenagem a um colega que até pelo tamanho não conseguia se manter incógnito.
Nesses dias de invasão, uma parte da turma de 25 anos atrás fez questão de ir ver como os meninos de hoje estão levando a coisa. Julio Cesar, ex-aluno do curso de Ciências Sociais e atualmente na Faculdade de Educação, ontem, ajudava o pessoal da comissão de alimentação. Outros levavam doações de mantimentos.
Fonte: Folha de São Paulo - Caderno Cotidiano
São Paulo, quarta-feira, 23 de maio de 2007

17 de mar. de 2007

Lobo vigia galinheiro

Presidente indicou para o ministério da agricultura:
um paranaense, tal de Odílio Balbinotti, mega latifundiário da soja...:


Membro da bancada ruralista, o parlamentar de 66 anos é considerado um dos maiores produtores individuais de soja do Brasil. Natural de Gaurama (RS), ingressou na política pela extinta Aliança Renovadora Nacional (Arena), adversária do MDB na ditadura. Desde então, foi duas vezes prefeito e uma vez vereador em Barbosa Ferraz, na microrregião de Campo Mourão. Há quatro mandatos é deputado federal.

O parlamentar também se destaca pela riqueza. Na declaração de bens apresentada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em 2006, listou nada menos que 224 bens, entre fazendas, aviões e caminhões.


(fonte: Folha de São Paulo)

5 de mar. de 2007

Os rastros dos Cantos

NÔMADES E ANARQUISTAS

“Como regra geral da biologia, as espécies migratórias são menos ‘agressivas’ que as sedentárias. Há uma razão óbvia para que assim o seja. A própria migração, como a peregrinação, é a prova mais dura: uma prova ‘niveladora’, onde os mais ‘preparados’ sobrevivem e os desgarrados sucumbem pelo caminho. Assim, a viagem esvazia a priori a necessidade de hierarquias e demonstrações de dominação. Os ‘ditadores’ do reino animal são os que vivem em ambientes de abundância. Os anarquistas, como sempre, são os ‘cavalheiros da estrada’”.

Bruce Chatwin
No belíssimo livro Os Rastros dos Cantos, sobre povos nômades e aborígines australianos.


(No toque da Ana, do blog do Pinduca: http://zonabranca.blog.uol.com.br/)

3 de mar. de 2007

Rio/Jerusalém

A classe média está apavorada e indignada com a morte dos três franceses da Ong, mortos pelas mãos do próprio beneficiário do trabalho deles.
Para mim é um caso de Bispo Sardinha às avessas. Agora canibalisticamente. Não antropofagicamente. O que não muda nada pelo ponto de vista do morto, certo? Como é que deixam o cara dever 80 mil pratas primeiro, antes de dar uma prensa nele? Bom, não é isso que eu quero discutir.
Mataram o menino arrastado, também, esses dias. A direita quer instituir a pena de morte. E justificam a prisão de menores dizendo que não se trata mais de uma questão de idade, mas de tipo de crime.
Para dar ainda mais "peso" aos argumentos fascistas, apontam que, nos dois casos, não eram miseráveis roubando e matando, mas gente que tinha certa condição financeira. Que não precisavam fazer o que fizeram. Querem fazer crer, no fundo, que o mal está no ser humano. E não se trata de um problema de justiça social. Enfim, vivemos em uma sociedade que perdeu seus valores éticos e essas pessoas ainda pensam que o sucesso de um governo depende da quantidade de cadeia e do grau de punição que se aplica aos delinquentes. Até o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da USP, andou escrevendo que os assassinos dos franceses serão justiciados quando forem para a cadeia, pelos próprios presos, desconsiderando a justiça legal. Ou seja, Janine também é daqueles que acham que violência se combate com mais violência. Mas também não é esse o papo..
O servente de pedreiro que está quebrando um galho aqui na casa onde estou hospedado, no Rio de Janeiro, que mora no morro do Falete (n sei se escreve assim), perto do morro da Coroa, perto de Santa Tereza, disse que os trafica tão comprando pneu velho. Eles usam para queimar arquivos. Destruir a prova do crime. Carbonizar o cadáver de rapazes e moças e mais quem for - crianças e velhos - de seus inimigos na favela. Às vezes os tiroteios duram uma tarde inteira. Santa Tereza inteira ouve. Você sai para a rua depois e as pessoas dizem que o tiroteio da semana passada foi pior. E fica tudo por isso mesmo. Já seacostumaram. Afinal, quem morre é o pobre. Pobre matando pobre. Miserável matando miserável. A classe média não está nem aí. Para a maioria das pessoas pode até parecer um ato que faz diminuir o crime, ou o número de criminosos.
A morte dos franceses, assim como a do menino arrastado, deve ser lamentada. E seus autores, devem pagar por isso, sem dúvida. Mas é muita hipocrisia quando vemos que o lamento das pessoas está direcionado para a economia dos números e do dinheiro que se deixa de ganhar com o turismo, por exemplo. O que deve ser debatido é o lucro nas mãos dos mesmo mercadores de sempre - esses sim, criminosos maiorais - e a falta de ética que impera em uma cidade que beira ao colapso. Que tem no fundo de sua alma o lado contrário da alegria com que faz questão de se mostrar. Onde Opus Dei e grupos paramilitares estão de prontidão para defender a Tradição, A Família e a (principalmente) Propriedade.
Um amigo me pergunta porque escolhi o Rio e não Jerusalém. E acho que ele me pergunta seriamente sobre isso. Começo a desconfiar de minha escolha...

20 de fev. de 2007

Wang Hui - Democracia à Chinesa

(em meio a tanto reacionarismo, às vezes a VEJA prova um pouco de seu próprio veneno)


Wang Hui: Democracia à chinesa

Duda Teixeira
Veja num. 1988 24/12/2006

O historiador chinês diz que seu país está se democratizando, mas os controles vão existir ainda por muito tempo

O historiador Wang Hui foi um dos últimos estudantes a deixar a Praça da Paz Celestial depois do massacre de 1989. A persistência rendeu-lhe um período de exílio e "reeducação" na província rural de Shaanxi. Hoje, ele é o principal expoente da Nova Esquerda. Esse movimento de intelectuais defende uma dose maior de preocupação social no processo de crescimento econômico chinês. Diferentemente de outros grupos de oposição, a Nova Esquerda acredita que não é preciso derrubar o regime comunista – basta reformá-lo por dentro. Professor de literatura chinesa na Universidade Tsinghua, em Pequim, há dez anos Wang edita Dushu (Leitura, em chinês), a revista de maior repercussão no meio intelectual chinês. Seus artigos sobre a precariedade da vida no campo e contra a pena de morte nortearam o debate público e conseguiram o que parecia impossível: modificar políticas governamentais. Aos 47 anos, Wang concedeu a seguinte entrevista de sua casa em Pequim.

Veja – Como é defender a democracia dentro de um regime que censura a imprensa e viola os direitos humanos?
Wang – A censura não está em todos os setores da vida chinesa. Sempre publiquei o que quis na Dushu, que é uma revista voltada para um público intelectualizado. Já discorri sobre os mais variados temas sem ser incomodado. Nas livrarias, há obras de todo o espectro ideológico, da extrema esquerda à extrema direita, incluindo muitos títulos traduzidos. O mesmo ocorre na universidade, onde tenho total liberdade para discutir assuntos com meus alunos e não há nenhuma intervenção das autoridades políticas. A censura é mais presente e abrangente nos veículos de comunicação de maior tiragem e na internet.
A censura está longe de ser o que o Ocidente imagina, mas, enfim, em um período de rápida transição como o que estamos vivendo, é muito difícil saber qual é o limite. Eu não sei muito bem até onde posso ir, nem os governantes sabem.

Veja – O governo chinês está mais aberto a críticas?
Wang – Com certeza. O debate na mídia tem sido intenso e o próprio governo tem promovido eventos com especialistas, o que está influenciando suas tomadas de decisão. Um exemplo disso ocorreu em 2000, quando promovemos debates nas universidades e publicamos uma série de artigos na Dushu sobre a pobreza e a falta de assistência médica nas áreas rurais. É uma situação terrível. Cerca de 800 milhões de camponeses estão totalmente alheios ao progresso obtido nas cidades. Depois de tudo isso, o governo, que não reconhecia a existência de uma crise no campo, mudou de postura e destinou uma verba importante para reconstruir o interior do país.

Veja – É possível existir democracia na China?
Wang – Estamos vivendo o início de um processo lento de transição democrática que vai levar várias décadas para se completar. Há vários indícios de que ele já começou. Na China, há liberdade de expressão nas universidades e as pessoas estão muito conscientes dos seus direitos. Durante o processo de privatização das companhias estatais, vários operários que perderam o emprego processaram o governo. Eles acusavam o Estado de não ser capaz de cumprir seus deveres e proteger seus direitos, algo impensável anos antes. Alguns dias atrás, o Partido Comunista aceitou iniciar um programa de bônus sociais em empresas estatais. É uma idéia que já vinha sendo defendida por alguns intelectuais e especialistas havia vários anos e que agora passou a merecer a atenção do governo central.

Veja – O que é o bônus social?
Wang – Com o bônus social, os funcionários poderiam possuir ações da empresa em que trabalham, ter uma remuneração de acordo com o lucro e tomar parte nas decisões que afetam a companhia. Esse seria um primeiro passo absolutamente necessário em direção à democracia porque implica um equilíbrio de forças dentro da companhia. Para defender seus direitos, os trabalhadores se reuniriam em uma organização própria, em que manifestariam suas opiniões e defenderiam seus pontos de vista junto à diretoria. Nas empresas que possuem sindicatos, o caminho a ser trilhado para um sistema de bônus social é mais curto. E o governo central sempre estimulou isso, mesmo em companhias multinacionais. Em 2004, a rede de supermercados americana Wal-Mart foi forçada pelo governo chinês a instalar uma representação do sindicato dentro das lojas. O sindicato chinês dentro do Wal-Mart é a exceção em todas as filiais da rede no mundo.

Veja – Por que isso é importante?
Wang – Seria uma forma de promover a socialização do capital. No auge do governo socialista, falava-se que as estatais pertenciam ao povo. Na realidade, elas eram propriedade dos governantes e de seus diretores. Com as privatizações, tampouco podemos dizer que as companhias passaram a ser propriedade do povo. Em algumas delas, os antigos diretores se tornaram os donos. Em outras, as empresas passaram para as mãos de empresários estrangeiros, convidados a participar depois de tentativas fracassadas de vendê-las aos altos funcionários. Nos dois casos, ocorreram milhares de demissões e a população sofreu com o desemprego e o aumento na desigualdade entre \nricos e pobres. O bônus social seria uma forma de compensar os trabalhadores que ainda permanecem nos seus cargos fazendo com que, enfim, eles possam ser donos dessas empresas. Além disso, essa seria uma maneira viável de criar um sistema de bem-estar social na China sem onerar demais o Estado.

Veja – O senhor sonha com um Estado de bem-estar social na China?
Wang – Todos gostaríamos de ter um Estado de bem-estar social como existe na Europa. Mas a China jamais poderá usufruir isso. Somos um país muito grande, com uma população enorme. Se insistirmos nessa questão, teríamos de construir um Estado gigantesco para dar conta desse contingente. Encontrar uma alternativa é um grande desafio e uma necessidade, porque o sistema de bem-estar social está em crise mesmo na Europa Ocidental e nos países nórdicos. Não é possível repetir ou copiar esse modelo. Precisamos criar nosso próprio caminho.

Veja – Para haver democracia, não seria necessário respeito aos direitos humanos?
Wang – Sim, mas é preciso tomar cuidado para não cair nos estereótipos quando se fala desse assunto na China. Um dos casos que mais ganharam repercussão no exterior foi o de um estudante universitário preso por engano em Guangzhou, em 2003, como sendo um migrante camponês sem licença. Até então, para evitar que a população rural invadisse as cidades, era preciso ter uma licença do governo para migrar. Na prisão, o jovem foi espancado até a morte. A notícia foi parar na internet e, em seguida, nos jornais de grande circulação. Depois de uma longa discussão entre a opinião pública e as autoridades locais, o governo central modificou a lei que autorizava essas detenções de migrantes e o registro de residência tornou-se mais brando. Foi uma clara vitória da participação democrática.

Veja – Como seria possível ampliar a participação democrática?
Wang – A democracia é bem-vinda e necessária. É uma ilusão pensar, no entanto, que com eleições livres poderemos facilmente resolver todas as questões. Não há, por certo, uma solução pronta. E é por esse motivo que os intelectuais chineses e toda a sociedade freqüentemente entram em debates infindáveis para tentar explicar ao resto do mundo a nossa realidade e a nossa história. A medida a respeito dos migrantes, por exemplo, também trouxe conseqüências negativas. Na seqüência, ocorreu um aumento radical da migração rural para áreas urbanas. Como não houve tempo hábil para a construção de escolas e hospitais nas regiões de destino, o êxodo elevou a criminalidade e os conflitos com moradores locais. Esse caso mostra bem como a situação é complicada.

Veja – O senhor liderou uma campanha contra a facilidade com que a China aplica a pena de morte. Quais foram as conseqüências?
Wang – Dois anos atrás, publiquei um ensaio pedindo a abolição da pena de morte. Em outubro, o Congresso Nacional do Povo decidiu reformar o sistema. A sentença de morte não será abolida, mas todas as sentenças decretadas pelas cortes locais deverão ser revistas pela corte suprema a partir de janeiro de 2007. Estão sendo treinados juízes especialmente para isso. A mudança na pena de morte só ocorreu porque há uma crescente interação entre a opinião pública e as autoridades. É um bom exemplo de como se deve evitar uma interpretação estereotipada da China. Os direitos humanos como um valor universal devem ser um objetivo a ser alcançado. Mas é preciso olhar esse assunto com cuidado. Os Estados Unidos publicam anualmente um relatório de direitos humanos que critica a China. Mas o tratamento que dão aos prisioneiros de guerra da base de Guantánamo e sua política de guerra no Oriente Médio os contradizem.

Veja – Por que o senhor acha que a transição chinesa para a democracia precisa ser lenta?
Wang – Temos de fazer uma transição gradual para evitar um caos generalizado. Ao mesmo tempo em que caminhamos em direção à democracia, precisamos tomar as medidas necessárias para evitar que o país seja controlado por uma grande oligarquia democrática. Muitas pessoas que ganharam posições no Partido Comunista são representantes das classes mais ricas, enquanto a maioria da população continua sem voz e sem representantes. O processo democrático chinês será árduo porque não existe um modelo que possa ser importado de um ou outro país sem importantes adaptações.

Veja – O primeiro passo não seria acabar com o regime de partido único existente na China
Wang – A China tem hoje oito partidos formais, embora o Partido Comunista seja de longe o mais forte. Embora não haja um intenso debate programático entre eles, acredito que isso seja uma semente de democracia. A questão principal, contudo, é saber como tornar esse sistema mais aberto. Os partidos políticos, que deveriam ser a base de sustentação do regime, estão vivendo uma crise em todo o mundo. No período pré-eleitoral, quando estão procurando votos, os políticos defendem interesses diversos, às vezes conflitantes. Uma vez inseridos na estrutura de poder, essas diferenças são anuladas. O resultado é uma grande confusão ideológica. Na Europa Ocidental, \algumas políticas que as pessoas imaginam de direita estão sendo adotadas pelo partido trabalhista ou pelos social-democratas.

Veja - a China cresce à taxa de 10% ao ano, enquanto o Brasil ficou perto dos 3% no ano passado. O senhor acha que seu país poderia ser um modelo para o Brasil?
Wang – Escutei muito essa idéia quando estive no Rio de Janeiro, meses atrás. O curioso é que, na China, se fala muito das lições que podemos tirar da América Latina. Em maio, alguns chineses viajaram ao Brasil para entender como funciona o sistema financeiro brasileiro, que é ágil e informatizado. Projetos sociais, como os que vi no Morro Santa Marta, no Rio, poderiam nos ensinar muitas coisas. Nas décadas de 70 e 80, o Brasil passou por um momento muito parecido com o que a China está vivendo hoje, com crescimento econômico acelerado e intensa migração interna para as áreas urbanas. O problema é que não há infra-estrutura para receber essas pessoas e, quando a economia reduz a marcha, a criminalidade explode entre os migrantes das cidades. No Santa Marta, fiquei comovido com os esforços da própria sociedade civil para levar luz elétrica às casas mais pobres, para promover o esporte e a educação. As soluções brasileiras inovadoras para lidar com a pobreza nas grandes cidades são úteis para a China porque precisamos saber o que fazer quando nosso crescimento econômico desacelerar. Ninguém pode nos garantir que ele vai se prolongar indefinidamente.

Veja – Que parte do milagre econômico chinês pode servir de lição para o Brasil?
Wang – A idéia de que o modelo da China pode ser copiado merece ressalvas. Não existe um modelo econômico único no meu país. As políticas públicas variam muito entre as regiões. Por fim, é preciso dizer que o crescimento do PIB não é uma boa referência. Muitos chineses estão apavorados porque a economia tem crescido rápido demais, o que aumentou a distância entre ricos e pobres e está ameaçando os recursos naturais. O PIB deveria subir mais devagar.

Veja – O desinteresse do governo chinês pelo meio ambiente choca a opinião pública mundial. Por que é assim?
Wang – Somos um país populoso, e isso exerce uma pressão forte sobre a área destinada às florestas. Muito se tem falado na China sobre a idéia de construir um PIB verde, que leve em conta a poluição e evite a liberação dos gases do efeito estufa. Isso aparentemente teve boa aceitação no governo central. Com a reforma econômica dos anos 90, no entanto, a economia planejada deu lugar à descentralização e os governos locais ficaram mais fortes. Atualmente, para que uma política de desenvolvimento sustentável seja bem-sucedida seria indispensável que as províncias estivessem dispostas a isso. O fato é que elas ainda estão muito deslumbradas com o crescimento econômico. Nosso objetivo tem sido transformar o governo econômico em um mais preocupado com questões sociais.

26 de jan. de 2007

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21 de jan. de 2007

Nudismo contra assassinato de animais


em Barcelona.

O serão vai virar mar


Aqui é mais uma Usina Hidroelétrica inundando tudo ao redor, em Santa Cruz do Rio Pardo. Logo tudo isso se tornará um deserto líquido e monótono, onde antes havia ao menos uma topografia deslizando por alto e baixo diante dos nossos olhos. E antes ainda, uma mata nativa cheia de vida.

depredação e extrativismo

Na Coréia do Sul as pessoas aguardam o Rio congelar para disputarem buraquinhos nele para ver quem pesca o peixe maior.
Como em Superaguy, no Pr, os peixes, a cada ano, diminuem de tamanho, tal a voracidade extrativista.

Em Pontal do Sul teve a festa do caranguejo, promovendo o abate de 60 mil crustáceos arrancados do mangue.

Com um sorriso orgulhoso, um mercador de camarões de Superagui me disse que manda tudo direto para São Paulo tudo o que pescam. Disse que o que mandar para lá é consumido. Claro, 11 milhões de bocas...

N.O.S. - Nova Ordem Sensorial

Sob as palavras de ordem SER IGUAL É LEGAL!, NÓS apresenta alguns ítens para serem implantados em nossa sociedade:

1- Resgate do movimento HIPPIE - N.O.S. se coloca como neo-hippie, abraçando a bandeira de paz & amor e outras, várias, daquele movimento dos anos 60;
2- Criação, desenvolvimento, fomento e estímulo às Comunidades Experimentais;
3- Amor Livre, no sentido proposto pelo anarquista histórico Giovanni Rossi, que implementou a Colonia Cecilia, em um lote de teras, no município de Palmeiras, Pr., praticando a poliandria - G.R. escreveu o livro "Um espisódio de amor livre na Colonia Cecilia";
4- Crianças são filhos de todos na comunidade - com responsabilidade;
5- Visão não progressista do mundo, no sentido de achar que os avanços da tecnologia, a construção de estradas e de edifícios vão "melhorar" a vida do ser humano no planeta. Mas o contrário, justamente, disso, pois não se pode levar em consideração nenhum "avanço", sem pensar profundamente nas consequências ambientais que isso irá gerar;
5- Visão não desenvolvimentista. Quem disse que o ser-humano é superior a uma abelha? Por que algumas pessoas pensam que são mais importantes suas vidas do que a vida de um pernilongo, de uma vaca, ou de um peixe?
6- Crescimento, além do biológico, é apenas retórica política neoliberal, portanto, é preciso ter cuidado no uso das palavras, para não confundir e enganar as pessoas;
7- Incentivo à permacultura;
8- Incentivo às Ecovilas, que geram energia e economia autônoma e sustentável, sem agressões ambientais;
9- Desenvolvimento de uma ideologia de Economia Solidária. Fim da mais-valia. A generosidade como tesouro do milênio;
10- Reciclagens e reaproveitamento não apenas como forma de achar um destino para os detritos e desejos industriais, mas como circularidade de energias (ver meu trabalho de arte "circular a energia circular"). Não ao consumismo;
11- Antropofagia Cultural ao estilo da pregação do Movimewnto Antropofágico, idealizado pelo poeta modernista Oswald de Andrade;
12- Comunalismo;
13- Respeito às diferenças, mas dentro da ideologia de que "ser igual é legal" (a esse respeito ler Norberto Bobbio);
14- Incentido ao desenvolvimento das Sabedorias Ancestrais, como tratamento através de ervas e o resgate de línguas arcaicas;
15- Medicina holística, fitoterápica, preventiva, homeopática e outras alternativas como acumpuntura;
16- Alimentação Natural tendendo ao Vegetarianismo, que é a forma superior de se alimentar;
17- Amor dedicado aos animais e às plantas, também;
18- Horizontalidade nas relações afetivas e decisórias;
19- Partilhamento das tecnologias;
20- Desenvolvimento das tecnologias e energias alternativas limpas, com o uso do sol e do vento. E fim das Usinas Hidreléticas;
21- Redistribuição das riquezas espirituais e materiais;
22- Trabalho como forma de prazer, não mecânico, robotizado, alienado, nem escravo (ver Dia do Nada).

15 de dez. de 2006

UTOPIOLÂNDIA

POR UM COMUNALISMO CÓSMICO
XAMÂNICO
SEXUALIZADO
CONTEMPLATIVO
E
COMBATIVO

27 de nov. de 2006

1 de nov. de 2006

NÓS

Em seu envolvimento libertário com o Fluxus, seu ensino militante na Universidade Livre,, a fundação do partido do Estudante alemão, na Academia de Dusseldorf, em 1967, e o estabelecimento de um escritório para a Organização pela democracia Direta, na Documenta de 1972, em Kassel, Beuys fez da criatividade humana e do princípio "Todos são artistas" as bases não só de sua arte, mas também de seu insistente proselitismo. Com ele, as versões espiritualistas e materialistas da utopia moderna interagiam com grande poder carismático e brilhante ideologia.

Thierry De Duve, in Revista Arte e Ensaio, n.5, 1998

17 de out. de 2006

vade retro!



Eu escrevi para um grupo na internet do qual eu faço parte, depois q eu soube q as pessoas estão sendo agredidas nas ruas por fazerem campanha do Lula e...

essa eu q escrevi:


só para não perder a chance de pensar na teoria da conspiração. Idéias esparsas:

Recentemente a exposição com trabalhos da artista Márcia X, falecida ano passado, no Centro Cultural Banco do Brasil, provocou uma reação por parte de setores reacionários, que se escandalizaram com os terços em forma de pênis que ela fazia.
Segundo sei, foram membros da Opus Dei que pressionaram o setor de marketing do Banco para retirarem de lá tais objetos, pois "manchava" a reputação da empresa aquele tipo de arte exposta em uma instituição pública.
Bem, todos sabem que o setor de marketing e vendas é dominado por pessoas treinadas para a venda de produtos e não preocupadas com a cultura ou o desenvolvimento da sensibilidade de ninguém. Marketing e propaganda são o sustentáculo do capitalismo.
Todos sabem, também, das ligações do Alkimin com a Opus Dei, eu acho. Aquele papo ... Alguns sabem que o Santander, de um grupo espanhol, comprou o Banespa, que era o Banco do Estado de São Paulo, à época do Alkimin. Mas nem todos sabem que os bancos espanhóis são dominados por pessoas da Opus Dei e... tão entendendo onde quero chegar? O velho compadrio de interesses escusos, dominando o setor nevrálgico da economia, os bancos.
Isso mesmo, a influência da Opus Dei agindo no Banco do Brasil como se esse já tivesse sido privatizado. Ou, como eles pensam q irão comprar o Banco do Brasil, de qualquer jeito, acreditam que podem, inclusive, dizer qual a política que o Centro Cultural Banco do Brasil deve adotar – o q a gente tá careca de saber – então já agem como se fossem os donos do pedaço. E, velho, se isso vier a acontecer de verdade, aí só vai dar exposição de arte sacra – e olhe lá! – no CCBB. Não que isso mude muito do que já é, mas em todo caso, até para tirar um sarro vai ficar ruim.
"E praquele que provar queu tou mentindo, eu tiro o meu chapéu!"


essa a resposta:
Já começou...Aleijadinho e seu tempo: Fé, engenho e Arte no CCBB-RJ até 11 de fevereiro de 2007!

30 de set. de 2006

é freud, rapaziada!

21 de set. de 2006

entrevista do augusto de campos

Entrevista do AUGUSTO DE CAMPOS para o MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, da F.S.P.

O q me incomoda nessa entrevista, da qual eu separei uma parte, é essa visão darwiniana de evolução da arte, principalmente essa idéia de q a tecnologia trouxe inovação da experiência estética e q ela pode ser uma espécie de redendora da humanidade. Isso por um lado.
Por outro lado, é esse discurso politicamente correto contra a exploração humana, q a humanidade precisa evoluir, etc. Como se as duas coisas fossem separadas.
Ora, o controle da tecnologia não está nas mãos dos pobres, em primeiro lugar. Depois q, toda a mudança, de fato, de apreciação e produção da arte aconteceu antes do advento do computador e dos aparelhos eletrônicos. O próprio silêncio preconizado pelo Cage, na música, inclusive.

O problema é q eu sou paranóico e sempre acho q o Bill Gates está por trás disso tudo, dando risadas por esse novo deus adorado chamado computador, q vai nos trazer - a todos sem exceção - a justiça e a felicidade via internet... Vai faltar silício no mercado...

O q vcs acham?




FOLHA - Pode-se dizer hoje que a previsão de que novos meios tecnológicos transformariam a poesia e a arte se concretizou em escala considerável. Música eletrônica, videoarte, trabalhos feitos em computador, uso da palavra em plataformas outras que não o papel, tudo isso se tornou quase "natural" para as novas gerações. Como você assiste a essas transformações? 
CAMPOS - Agrada-me pensar que a poesia concreta antecipou essas expansões interdisciplinares das artes. Como viu bem McLuhan, hoje tão injustamente desprestigiado, "the medium is the mass-age". Os novos artefatos agilizados para o consumo são portadores de informações transformadoras -ver a revolução do "sampler" nos processos de montagem sonora- e podem contribuir para alargar o horizonte da sensibilidade e subverter as regras do jogo. Cabe aos artistas arrancar, prometeicamente, o "fogo" da tecnologia de ponta dos veículos-gigantes da comunicação de massa, e desviá-lo para projetos menos imediatistas e mercadológicos, como pregava Timothy Leary em "Caos e Cibernética". 
Cada vez mais acessível ao nível doméstico, a tecnologia dá uma grande ajuda aos projetos pessoais e independentes e alimenta uma comunicação sem precedentes entre "guetos" poéticos.
FOLHA - Qual é o lugar da poesia no mundo atual? Ela continuará a ser praticada de diversas maneiras, das tradicionais às experimentais? Migrará para outras manifestações? Ou tudo isso ao mesmo tempo? 
CAMPOS - Acho que sempre haverá "um pequeno segmento da raça" (expressão de Pound) para responder ao desígnio mallarmaico de "dar um sentido mais puro às palavras da tribo". Mas a massificação cultural é um fato iniludível da "overpopulation", do baixo nível de escolaridade, da exaustão mental provocada pelos trabalhos forçados do ganha-pão acachapante. A poesia, se não resolve, consola o ser humano da sua miserabilidade, da sua incognoscência, das precariedades do seu "design" imperfeito. Dá-lhe, quem sabe, a ilusão de estar um pouco acima. E o seu desvalor econômico, o seu fracasso antipopulista, num mundo obcecado pelo lucro e pelo sucesso, lhe conferem uma força ética ímpar. Os livros estão de pé na estante. Muito pouco na TV, é verdade, mas cada vez mais nos desvãos e desvios da internet, que embute uma verdadeira revolução cultural nas suas reservas "interguêticas" e nos seus reservatórios enciclopédicos. Quem quiser buscar mais e melhor, que vá atrás.
FOLHA - O Brasil e o mundo em que vivemos é uma decepção para quem sonhou com um futuro de transformações? Há aspectos positivos a ressaltar na cena contemporânea? 
CAMPOS - Assistimos no século 20, depois de duas guerras deploráveis, ideologias transtornadas pelo totalitarismo e superbombas ameaçadoras, à queda das utopias, e começamos o 21 sob o signo de fanatismos, barbaridades bélicas, bombas-suicidas, egoísmo globalizado e desigualdade social.
A tecnologia chegou a ser uma esperança para otimistas-natos como Buckminster Fuller e John Cage, cujo anarquismo tecno-zen rimava com o bárbaro tecnizado de Oswald. Estamos longe de chegar perto desses formosos ideais. Mas olhamos para os olhos de uma criança e temos de acreditar que um dia (que não verão os septuagenários como eu) a "humanimaldade" será mais sensível e menos insensata.
Quem sabe se a tecnologia, multiplicando o acesso à informação e aos recursos materiais, não pode dar uma boa mão a um maior solidarismo social, se os gigaglutões econômicos do Primeiro Mundo não continuarem a querer tudo só para eles.
Mesmo porque, se não tomarem juízo, o bumerangue da pobreza ainda poderá recair sobre as suas cabeças.



14 de set. de 2006

xerox é resistência!

Fabiano Alves Paes e Henrique Xavier são dois bródis aqui de Londrina que fazem uns trampos muito manêro em xerox.
O primeiro escreve contos. O outro faz tipo um zine de humor.
A linguagem tosca combina com o formato em xerox. O Fabiano ainda faz umas colagens, escreve à maquina e usa os erros gramaticais como estilo. O Henrique nem. São desenhos toscos e frases infames que, por isso mesmo, divertem. Tem quem se irrite, também. Quem é mais politicamente incorreto dos dois é dificil de dizer. Mas nada como se divertir às custas de quem se fóde!
O Fabiano já fez dois. O Henrique já tem uns cinco.
Quem quiser comprar dá um toque q eu faço um corre atrás deles. O Fabiano vende seus livrinhos de contos por R 2,50. O do Henrique é R 1,00.

De A ARTE DE MATAR, do Fabiano:

No bar

- Nossa, como você é linda!
- São seus olhos.
- Que nada... Tou bêbado mesmo!

De A BUFA, do Henrique:

Quer dar um nome a seu filho mas não consegue escolher? Não esquente sua crica que a gente dá a letra.
1 - Dou um Peido 1º (nome de antigo imperador brasileiro)
2 - Dai-lhe Lama (líder espiritual indiano, bom nome para brasileiro)
3 - Infiel(?) Castro(!) (ditador cubano)
4 - Elvis Prestes (músico e compositor de rock político)
5 - Mau Bucetung (ex ditador japonês)
6 - Bart Simpson (guerrilheiro da FARC)
7 - Luiz Inácio (ex Lula da Silva)
8 - Zica (a galinha de Quintino)

Claro que tudo isso fica muito melhor escrito à mão, mas o que eu posso fazer se o meio não dá conta da linguagem?

angeli é um gênio



http://www2.uol.com.br/angeli/

13 de set. de 2006

nem tudo está perdido



Quem se lembra daquele ditador filipino, o Ferndinando Marcos? Isso, esse mesmo, o marido da Imelda, que tinha uma imensa coleção de sapatos. Bom, ele foi deposto em 86. Se manteve e foi tirado do poder graças aos E.U.A. - q, como sempre, cria monstros e depois justifica invasões em nome da democarcia. Depois disso sumiu, desapareceu, morreu.
20 anos depois, quem diria, as netas do cara fazendo política, mas dessa vez a BOA política. Não saberia dizer a ideologia delas, mas, como se vê pela foto, ninguémn ousaria perguntar. dá para ver q elas estão MAIS do que certinhas!

no flagra



uma imagem q faz jus ao nosso imperador

12 de set. de 2006

renée gumiel



Com uma entrevista ainda inédita, gravada em duas fitas cassetes, a bailarina, coreógrafa, atriz e mulher de cultura Renée Gumiel me recebeu uma tarde em seu apartamento, em 2001, para uma conversa.

Bebemos uma garrafa de uísque inteira, juntos. Fumava um cigarro após o outro e gesticulava largo.

Ela me falou de sua vida na França; de Mussolini, que patrocinava as artes, na Itália; da fuga dela e do marido do nazismo; do jantar que teve com Artaud; da música do compositor Stockhausen; de sua primeira apresentação no Brasil; da sua amizade com Klaus Vianna. E estava feliz com o novo espaço de dança que havia conseguido para dar aulas.

Esquecemos da entrevista e começamos a conversar de amor. Ela estava bem alegre e eu tentando me segurar.

Ganhei uma foto. E me fui, sob o olhar de Artaud, que me esperava dentro de um quadro, no corredor de seu apartamento.

Agora ela se foi, aos 92 anos. E atuou até o último momento, ao lado de José Celso, do Oficina

Me espere lá em cima, Renée. Iremos beber outra garrafa juntos e falar de amor, para sempre.

6 de set. de 2006

DIA DO BARBEIRO



BARBERIA É O MELHOR LOCAL PARA DISCUTIR SOBRE FUTEBOL, FALAR DE MULHER E METER A LÍNGUA NOS POLÍTICOS.

ALÉM DE CORTAR O CABELO E FAZER A BARBA, CLARO.

SALVE OS BARBEIROS!

reprodução da foto: folha de londrina

5 de set. de 2006

LONDRINA PROGRESSISTA

(complicado, meu véio!)

Encarte veiculado recentemente em jornal da cidade, com os seguintes dizeres:
A prefeitura constrói nosso futuro!





Lei de Incentivo Cultural

Sobre o edital que acabou de sair de patrocínio cultural promovido pela secretaria de cultura, penso da seguinte forma:
A secretaria deveria assumir que tem interesses estratégicos em certos projetos e bancá-los, porque colocam um valor x em jogo, mas parte deste dinheiro tem ido, desde os primeiros editais, para os mesmo projetos.
Isso faz parecer engodo para quem não recebe o incentivo. E, para quem continua recebendo, é até um desrespeito, porque corre riscos de não ter seu projeto aprovado, em todo caso. Assim, não podem pensar a longo prazo suas estratégias. Tendo de re-escrever, mais ou menos, o mesmo texto toda vez, fazendo suas previsões orçamentárias para o tempo em que o projeto estiver sendo patrocinado, que é um período sazonal. E não como parte de uma política de investimento sólido, estruturada.
Outra coisa. A secretaria deveria chamar os autores dos projetos não aprovados – pelo menos os que considerassem mais importantes para a política deles – e criar parcerias de instrumentalização e apoio para encontrar meios de executá-los, seja em sua forma total, parcial, ou adequada à realidade contextual. Devolver, simplesmente, o projeto, só com o parecer da Comissão de Análises de Projetos gera um clima de disputa e um sentimento de exclusão que não deveria existir em se tratando da área de cultura.
Quanto ao resultado prático dos projetos chamados de “cultura popular”, me assusta quando eu vou ao teatro e sou obrigado a ouvir na fila de entrada um rapper oficial cantando, desafiador, ao microfone que “com a nokia não tem patifaria”. Ou que a moral de um livro patrocinado pela lei municipal, contando as experiências de vida de um garoto que viveu na periferia e foi salvo pelo hip-hop e pelos projetos sociais do pt, é de que agora ele passou a “ver o mundo sem muito preconceito contra a elite”, que “se eles tinham era porque lutaram”. Humpft!

3 de set. de 2006

SAIBA MAIS SOBRE COLETIVOS...

Diz que a CASA TRIÂNGULO, que é uma gleria moderninha de são paulo está expondo um coletivo estranja, acho q dos eua. E como foi comentado em um blog, eu deixei minha resposta lá (http://zonabranca.blog.uol.com.br/) e vai ela aqui, também


SAIBA MAIS SOBRE COLETIVOS...
(Notas sobre o coletivismo artístico no Brasil - Ricardo Rosas
http://p.php.uol.com.br/tropico/textos/2578,1.shl)

...para não confundir mercado de arte, com atitude ideológica. conformismo com estratégias. habilidade técnica com arte.O fato de uma galeria comercial se utilizar do nome "coletivos" para mostrar uma exposição de desenhos e pinturas (?) não quer dizer que é isso o que vem potencializando as discussões e transformando o cenário artístico, que ganha caráter de ação política, mais do que apresentação pública de "belos desenhos".Claro q se pode usar o nome que quiser para vender um produto - até colocar o che guevara na estampa da camiseta e vendê-la como algo fashion - mas o fato desses coletivos serem auto-geridos e não necessitar mais das figuras parternalistas tradicionais do circuito de arte, muda, inclusive, a maneira de se pensar a arte.

30 de ago. de 2006

liberem essa droga!

1 - não sei ela faz mal à saúde física, se, com o tempo, o usuário passa a ter sintomas de algum tipo de doença, mas que a maconha deixa a pessoa imbecil, deixa.
2 - caretas que se acham "loucos" porque fumam maconha são os chatos de hoje e os evangélicos de amanhã.
3 - tanto quanto o álcool é uma droga a maconha também o é.
4 - a lei seca nos E.U.A. só fez prosperar a ilegalidade e a força da máfia.
5 - Se uma pessoa pode comprar uma bebida que pode lhe matar, porque ela não pode comprar uma maconha, também?
6 - mesmo legalizada, quantas pessoas dependem do sistema de saúde para combater os efeitos do álcool? Se estivesse na ilegalidade, o álcool mataria menos?
7 - Se estivesse na ilegalidade, como estão hoje as drogas, de forma geral, não haveria mortes de adolescentes que fazem avião na favela? Não haveria corrupção na polícia? Bandidos não iriam ter controle sobre sua produção? Não haveria guerra civil? Claro que haveria. Mais mortes, enfim, do que a simples estatísca do ministério da saúde, que calculam a influência direta causada pela droga e não suas derivações.
8 - todo mundo deveria ter o direito de se matar, se quisesse. Mas, porra, dá pra acender seu baseado pra lá! Agora não tou a fim.
9 - a função das drogas, nas chamadas civilizações primitivas, era ritual. Perdemos o sentido de religião (re-ligare) e agora queremos proibir as pessoas de serem livres para fazer o que quiserem?
10 - legalizada a droga - maconha e cocaína - o tráfico de drogas perderia seu sentido. E o Estado recolheria impostos desses produtos. Como na Holanda.
11 - e teríamos à disposição produtos de qualidade. Não droga malhada. Palha. Pó de mármore.
12 - e ela seria tratada como é tratado o cigarro. Ou até mais com mais severidade: fiscalização pesada, controle de plantio, manipulação, distribuição e vendas.
13 - Ih, cara, esqueci...
14 - Hein?
15 - Aberto ao debate. Comentem.

liberou o beck


Lei de tóxicos

Posse de droga para consumo pessoal deixa de ser crime

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 11.343/06 — a novaLei de Tóxicos.

A lei cria o Sisnad — Sistema Nacional de Políticas sobreDrogas. O objetivo é “prescrever medidas para prevenção do uso indevido,atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecernormas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito dedrogas”.

O texto revoga as leis 6.368/76 e 10.409/02, ambas sobre o mesmo assunto. A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa.
Também há alteração no procedimento penal adotado pela Lei 10.409/02. Agora os delitos que não estiverem ligados ao tráfico são de menor potencial ofensivo, processados conforme a Lei 9.099/95; o prazo de conclusão de inquérito de réu preso passa para 30 dias; a infiltração policial em grupo criminoso e o retardamento do flagrante estão autorizados e poderá haver denúncia com o complemento das investigações.

Continua vigorando a defesa preliminar (antes do recebimento da denúncia), o que já havia na Lei 10.409/02. Porém, somente há interrogatório após o recebimento da denúncia. Com isso, fica garantido o contraditório no interrogatório, podendo as partes fazer perguntas e reperguntas.
O tráfico internacional continua a ser da competência da Justiça Federal.
Pelas leis antigas, quando uma comarca não tivesse instalado a vara, a Justiça Estadual julgaria o crime. Pela nova lei, será da vara federal mais próxima a competência para o julgamento dos delitos dessa natureza.


na íntegra:
http://conjur.estadao.com.br/static/text/47674,1

22 de ago. de 2006

hip hop e eu (final)

Mais frases extraídas do livro “Hip Hop e Eu”, de Sérgio Ezequiel de Souza. Agora do Quarto Capítulo em diante:

“Minha irmã começou a namorar um cara com o nome de Sidnei. (...) Ele começou a ir em casa direto e num desses dias...
...
Fumávamos um baseado e trocávamos idéias sobre o crime, quando ele falou... (...) E eu chamei-o para fazer outros comigo no Centro.”

“... e tirei toda a gaveta do caixa para fora.
...
Fui catando e colocando no bolso e o Sidnei já foi indo para a porta da perfumaria, que tinha vários espelhos. Peguei todo o dinheiro e saímos.”

“Quando você é um ladrão que não dá vacilo com ninguém você é considerado em qualquer quebrada.”

“Fomos atrás do Marquinhos Gambá onde ele trabalhava de mecânico, e trocamos umas idéias sobre armas para o assalto.
...
E começamos a discutir como iríamos enquadrar (assaltar) o mercado.
...
Chegamos ao local do assalto. O mercado ficava numa avenida bem movimentada...
...
Quando o Sidnei fingiu passar pelo caixa, eu dei voz de assalto, já com o revólver na mão. O Gustavo já arrancou a 12 e ficou na porta para ninguém sair. O Sidnei abriu a maleta e foi pegando o dinheiro que estava nos caixas.
...
Corremos para o carro. O Marquinhos já foi ligando rapidamente o carro e saiu cantando pneu.”

“Começamos a repartir as notas maiores quando o Marquinhos percebeu vários carros parando em frente à casa e pediu para o Gustavo ir ver o que estava acontecendo. Quando o Gustavo estava se aproximando, os policiais arrombaram o portão e foram entrando. (...) Eu corri até um quarto quando dei de cara com um policial encapuzado dizendo para que eu soltasse a arma. Eu soltei. Ele mandou que eu deitasse no chão. Deitei. Um outro policial já veio me algemando.”

“Chegamos na Décima. Tinha muitos policiais e a imprensa e a televisão já estavam lá.”

“Sidnei, Marquinhos e o Gustavo, que eram maiores de idade, foram para o Terceiro Distrito e eu fui para o Segundo Distrito que chamavam de CETREM (Centro de Triagem e Recepção de Menores).”

“Chegou minha vez de entrar. Pedi licença. A promotora olhou na minha cara e disse: ‘Sérgio Ezequiel de Souza, você pediu licença quando entrou para assaltar o supermercado?’ Respondi que não. Ela falou ‘157, né?’ Balancei a cabeça afirmativamente. Então ela falou ‘tira esse moleque da minha frente!’ Minha mãe começou a chorar.”

Bom, daí em diante nosso personagem passa 44 dia no X, começa estudar, fazer terapia, mas ao mesmo tempo, a traficar. E a coisa realmente vai ficando pesada – mais pesada ainda. E foi em uma dessas que, tendo de pagar pela maconha que lhe foi roubada, voltou a assaltar. A polícia o prendeu novamente, só que desta fez ele já tinha completado 18 anos e foi parar no presídio comum. E passar pelo sistema prisional no país é traumático. E de lá não se sai incólume.
Sérgio teve a sorte de ter sido assistido pelo marido da psicóloga que o acompanhava na escola. E prometeu não mais voltar à prisão.
Já fazia algumas apresentações de Hip Hop no colégio em que estudava, começou a ensaiar, se apresentar e isso coincidiu com a campanha e a vitória do PT na cidade, que começou a dar ênfase na inclusão social e na cultura Hip Hop, apoiando shows, encontros e gravação de cds.
Sérgio montou seu grupo, teve projetos aprovados. Foi convidado a ser professor do mesmo lugar onde já estivera uma vez, como menor infrator. Viajou bastante por conta do Hip Hop, etc.
Dessa autobiografia, sem dúvida, as páginas mais tocantes são aquelas que expõem a situação dos meninos de periferia, de forma geral. E, por mais que se condene a violência e o uso de drogas, não há como condenar essas crianças, que são frutos da desigualdade social. Em um país em que – infelizmente – a miséria é tratada como produto de manipulação de políticos e mercadores que se servem dela para se manterem no poder.
Por fim, sem ter outro modelo para se espelhar, ou porque, ao se afastar da miséria, do crime e das drogas, o novo status social lhe foi suficiente para satisfação de seus anseios, Sérgio, ao final do texto, mostra sua ideologia:

“..., pois depois que deixei as drogas e comecei a cantar e fazer esses trabalhos sociais comecei a ver o mundo com outros olhos sem muito preconceito contra a elite.”

“Não só através do Rap mas também com as oficinas de Break eu consigo alcançar meu objetivo que é fazer com que essas pessoas procurem pensar mais na vida, procurarem uma escola para estudarem, largarem o mundo do crime e começarem uma nova vida como eu comecei...”

Nessas alturas, o leitor que conseguiu chegar até aqui já estará curioso por ler o livro, mesmo sabendo que há erros crassos de gramática e que há, afinal, uma moral da história. Mas que nem uma coisa nem outra impedem a fruição de sua leitura, que é uma história comum entre a massa de excluídos, hoje em dia. E que nós, que nos sentimos tão ameaçados, não temos a mínima idéia como é que ela se desenrola.

hip hop e eu (continuação)

13 de ago. de 2006

Theodore de Bry (cerca de 1540)


INDIOS: UM PENSAMENTO SELVAGEM.

INDIOS: UM PENSAMENTO SELVAGEM.

Infelizmente não tenho como dar agora a referência de onde eu aprendi isso que vou lhes contar. Falta de método acadêmico para anotar os referenciais ocasiona de perda de memória. Muitas coisas acontecem assim comigo. São logo incorporadas, passam a ser minhas. Algumas realmente são. Mas o que eu vou escrever agora trata de um fato de interpretação histórica. E eu só posso conjecturar que se trata da verdade, pois em nenhum momento nega – ao contrário, reforça – aquilo que sou em relação ao mundo que vivo, contribuindo com aquilo que faço.

De qualquer forma, a idéia de um “pensamento selvagem” está ligada às questões antropológicas do francês Claude Lévi-Strauss (1983/1975) e quem tiver interesse de pesquisar é só procurar na internet que vai achar um monte de links ligados ao tema. Um deles é o http://hemi.nyu.edu/archive/studentwork/conquest/pens1.html

Peço a quem souber quem “botou o ovo em pé”, originalmente, falando sobre isso, que me passe as referências, para que possamos ampliar esse debate. Aliás, até porque ele saiu de uma discussão com um marxista e eu não queria ficar mal com o marxismo só porque eu não penso que tudo está atrelado à lógica da produção, do sistema de classes e da mais-valia e do capital. Aliás, porque a nossa lógica cartesiana não dá conta desse tipo de pensamento que aqui eu chamo de “selvagem”. Sem desmerecer Marx, por favor!
Vamos lá:

A Antropofagia – ou seja, o ato ritual de comer carne humana praticado por algumas tribos indígenas que habitavam esse solo antes de se chamar Terra do Pau-brasil – como pensamento que marca a identidade cultural nacional e em torno da qual se reuniram os artistas e intelectuais à época da fundação do modernismo brasileiro (não para comer carne humana, mas para “deglutir” as experiências de outras culturas), é o começo dessa idéia. Mas ela se amplifica, na medida em que a finalidade da “antropofagia” não era vencer o inimigo, matando-o, mas de usá-lo como “banco de esperma” que garantisse a continuidade da espécie, ampliando as combinações genéticas da tribo.
Como todos sabem, um dos tabus encontrados em quase todas as nações e etnias, as mais distintas, no mundo todo, é o da procriação entre parentes de laços familiares muito íntimos, como pai com filha, filho com mãe, etc. Laços consangüíneos enfraquecem a espécie. E na natureza vencem os mais adaptados.

Os índios brasileiros não tinham, aparentemente, porque lutar entre si. Não precisavam disputar territórios, não precisavam disputar alimentos. Viviam da caça e da coleta. E eram nômades. Hoje, aqui, tem mandioca. Amanhã, lá, vai ter outro alimento que se pode tirar do pé. E quando voltavam aos lugares, tinham, de novo, a mandioca, ou o pinhão, ou o que fosse. Eram observadores. Sabiam o ciclo da natureza. Não precisavam se matar como agricultores. Acumular. Tinham o livro da natureza nos sentidos. Viviam em relação orgânica com a natureza. A idéia de trabalho, para eles, não fazia o menor sentido. Tanto que os portugueses tiveram de trazer os negros para cá, porque os índios só conheciam o tempo mágico dos mitos e não a realidade servil e classista, dos direitos trabalhistas, da resistência ao poderio europeu, etc.
Para o índio não havia diferença entre arte e vida. Tudo era parte de um mesmo processo ritual. Pintar o corpo, dançar, caçar, pescar, comer, cantar, tudo isso era indistinto, não havia categorias dessa espécie que nos acostumamos a conviver.
E por que lutavam entre si, então? Para ver quem era o mais forte. Para que o mais valente de uma tribo capturasse um valente de outra tribo, vivo, e o trouxesse à sua tribo, deixando-o livre para ir embora, se quisesse. Mas isso seria uma desonra para o índio capturado. E na outra vida iam cobrar isso dele. Foi por isso que o aventureiro mercenário alemão Hans Staden (c. 1525-1579 ou 1510-1557) conseguiu fugir dos Tupinambás e escrever seu relato: ele cagou nas calças! E um índio jamais iria comer um covarde!
Uma vez na tribo inimiga, tratavam o índio capturado da forma mais gentil possível. Davam-lhe a melhor comida, o melhor espaço na maloca e as mulheres aptas à procriação. Para que tomasse gosto pela vida. E tivesse vontade de escapar.
Quando, enfim, chegava o dia de sua morte, o índio que o havia capturado amarrava em uma de suas mãos a mão do inimigo. E dava a outra mão para seu melhor amigo, que a amarrava à sua mão, ficando, assim, o índio capturado preso pelas duas mãos dos oponentes. Na mão que sobrava de cada índio, portava-se bordunas para arrebentar o índio preso. Segundo Montaigne (1533-1592), em seu célebre ensaio “Dos canibais” – onde defende os índios, dizendo que os horrores cometidos pelos europeus eram muito piores do que a acusação que lhes pesava, como a de andarem nus, não trabalharem e a de comerem carne humana – havia uma espécie de canto/diálogo entre os oponentes relatado no texto. Retomado mais tarde pelo escritor Goethe (1749-1532), que era mais ou menos assim:
- Gostou da nossa comida?
- Muito ruim.
- Gostou das nossas mulheres?
- Muito Feias.
E então batiam nele com a borduna até o derrubarem. Antes, porém, de o matarem, ele dizia (aqui, sim, Goethe via Montaigne):
- Comam, comam da minha carne. Nela vocês sentirão o gosto da carne do pai de vocês. Comam, comam minha carne, para que o meu filho sinta na carne de vocês o gosto da minha carne.

Nem vou entrar aqui na questão da hóstia sagrada e tudo o mais. Nem vou continuar a falar sobre o significado da palavra Tupã, para os índios, que tem a ver com a reverberação que o som do trovão faz no corpo de cada pessoa, como se esta fosse um instrumento que se afinasse, como uma flauta. Mas gostaria de deixar o meu pensamento no corpo desse texto para que fosse devorado, refletido e devolvido à vida, de forma antropofágica. Como filho amado de um inimigo.

trecho do livro "o hip-hop e eu

Eu tive um professor de história no cursinho, em 1999, que dizia, sobre a violência que chegou à cidade de Londrina depois, principalmente, de 1975, quando a mono-cultura de café foi substituida pela mono-cultura de soja, devido ao inchaço promovido pelo desemprego no campo, que "a primeira geração de miseráveis pede, a segunda geração rouba e a terceira geração mata".
Lendo o livro "O hip-hop e eu - uma biografia", de Ségio Ezequiel de Souza, "Sergin", patrocinado pelo PROMIC-Secretaria de Cultura de Londrina e editado pela Artito Art, a frase do professor acabou sendo recheada com as cenas narradas pelo personagem/autor, nascido em 1980, que viveu essa realidade na carne, na periferia de Londrina, tendo que mudar, constantemente, de um lugar a outro, com a mãe e irmãos, indo morar em lugares cada vez mais desumanos.
Ainda não terminei de ler o livro, mas vão aí algumas frases, tiradas aleatoriamente de dentro dele:

"...na falta de um pai ou de um padrasto e, na ausência de minha mãe, o 'homem' de casa era eu, que tinha apenas 6 anos."

"...chegávamos nas barracas da feira e espiantávamos os caixas dos comerciantes e até as carteiras das pessoas que estavam comprando...
furtávamos tudo o que podíamos levar. Tudo isso era para curtir o Flash Dance aos domingos à tarde."

"comecei a ficar desesperado vendo minha irmazinha mais nova - Andressa - chorando de fome, querendo leite."

"O policial encapuzado deu várias borrachadas nas minhas costas, enquanto dois me seguravam e o sargento Félix fazia uma pressão psicológica com a pistola."

"O pai do Paçoca via tudo aquilo e nem ligava. Tudo alí parecia normal: fumar um baseado na rua, a molecada cheirando cola, as meninas fazendo sexo com uma 'pá de caras' (sexo grupal). E eu e o Marciano alí no meio daquele furacão."

"Ele disse 'Eu vou chegar, abro o carro e você cai pra dentro. Você olha debaixo dos bancos enquanto eu arranco o toca-fita'. (...) O Piá arrancou o toca-fita e eu só achei uma faca."

"Quando o carro era mamão, era eu que cantava a micha (a micha 'canta' qundo faz um barulhinho característico, como um metal raspando em outro, ao abrir a porta)."

"E fomos então para o União da Vitória (morar com a família), o bairro tão falado na mídia pelo alto índice de criminalidade".

"O moleque então armou uma casinha (ou seja, uma emboscada) para que um outro cara, chamado Deílton, me catasse e me desse umas facadas."

"Com uma ano e meio, eu e minha família morando naquele cômodo... perdi todas as esperanças de alcançar algum objetivo na vida."

"Com toda a confusão, não se podia confiar em ninguém. Esta foi a primeira coisa que eu aprendi no união da Vitória. A segunda é que eu tinha que andar armado, ou com os caras que faziam as fitas erradas (as fitas são os roubos e furtos) para ser respeitado. E, terceiro, não se fica devendo droga para ninguém, especialmente aos traficantes. Ainda há uma quarta regra: não se deve envolver com qualquer mina, pois havia muitas mulheres de ladrão; ese envolver com qualquer uma delas era morte na certa. e assim ditavam as regras paraser um malandro esperto!"

"Então arranquei da cinta o que eu tinha achado na mansão.. Os caras cresceram os olhos e começou a discussão para saber quem ia ficar com a arma. Eu propus então que não queria nada dos objetos roubados. Só o 38."

"Nós roubávams todos os boyzinhos que encontrávamos pela frente. Ás vezes não precisava nem scar o revólver. Bastava mostrar o cabo erguendo a camiseta. Eles tremiam na base! E já tiravam o boné, o tênis e até trocavam de roupas com a gente, dependendo do local."

"Então dei a primeira bola e notei imediatamente que minha boca e minha garganta adormeceram. O coração disparou. Minhas mãos ficaqram tremendo. (...) Eu tinha a impressão de escutar tudo muito longe."

"E passei a furtar para manter o vício."

"Com alguns meses andando direto com os caras que fumavam mesclado, em vendi minha arma em troca de uma quantidade de pedra (nóia); e tive meu primeiro contato com a nóia pura, queimado no cachimbo ou em latas de refrigerante."

"Eu já estava tão acostumado a ver corpo caído no chão que, quando via um, era como se fosse um bicho. Aliás, para mim, não fazia a menor diferença entre matar uma pessoa ou um animal. só sentia quando era um colega; ou de fumo, ou de curtição nas noites."

"Só sei que no União, e em qualquer periferia, ninguém morre de graça. O preço varia: de um real até o respeito conquistado na marra."

"E por causa de brigas assim aconteciam outras brigas, geralmente mais violentas. Pois os caras matavam o irmão de um outro que não era florde ser cheirada; e que, por sua vez, matavam aqueles que matavam seu irmão ou seu amigo. (...) Todo final de semana tinha um ou dois - ou até mais! - mortos na região da Zona Sul."

"Eu precisavva de dinheiro para pagar um cara que passava maconha. (...)
O assalto foi numa farmácia. (...)
Na minha cintura tinha um 38 e na do parceiro uma garrucha 38. (...)
Eu ficava o tempo todo pensando "Vai chover polícia!"

"Aí o noiado começou a me contar que o traficante do Santa Joana, que se chamava Baco, estava invocado comigo. Perguntei o motivo. Ele respondeu que a polícia estava atrás de mim na vila, e que estava queimando o ponto de tráfico do Baco no Santa Joana, ..."

"Aconteceu algumas vezes eu trocar meu tênis, minhas bermudas e camiseta por nóia. (...)
Eu mesmo já vi pai de família fumar o dinheiro do leite das crianças e até o enxoval do neném; do bebê dormir em carrinho, em vez de ter um berço. Já vi meninas grávidas trocando roupas de neném por nóia. ..."

Bom, parei aí no terceiro capítulo. depois tem mais.

31 de jul. de 2006

ORGULHO D Q?

Orgulho de quê?

Exposto ao noticiário do Jornal de Londrina, que é atirado gratuitamente no quintal da casa onde moro, algumas vezes sinto-me ferido em minhas convicções sobre as opiniões e informações veiculadas, como foi o caso, no editorial de ontem, “Verticalização”, que faz apologia à construção civil na cidade.
O que aconteceu nessa cidade e região, desde meados da década de 70, foi o uso da construção civil como álibi para um dos maiores êxodos rurais da história da humanidade, favorecendo grupos com interesses econômicos e políticos os mais rasteiros, que se mantêm fortes no poder.
A verticalização da cidade – que pode parecer aos desavisados, sinais de civilidade – é acompanhada por uma horizontalidade caótica, tornando Londrina uma das mais violentas e excludentes do país, além do aprofundamento da degradação ambiental. Aliás, quem, em sã consciência, pode ainda se fazer valer da máxima que o emprego gerado pela construção civil – mão-de-obra escrava e barata – é capaz de reverter o caos social no qual estamos todos imersos? Se fosse assim, São Paulo, Cidade do México e as novas megalópoles que nascem na China não estariam mergulhadas na impossibilidade administrativa e estrutural geradas pelo lucro e pela especulação, principalmente a imobiliária. Mas seriam como algumas cidades e capitais existentes na Europa – menores, mas funcionais – onde as relações humanas e ambientais importam mais do que arrancar a barranca dos rios atrás de argila para fazer tijolos; destruir a natureza para tirar cimento; dragar o fundo dos rios para retirada de areia, etc.
Gostaria de concluir pedindo reflexão sobre esse tema e não ufanismo barato. Que não me sugiram mudar de cidade, se acaso eu não estiver satisfeito, nem que deixem de atirar o Jornal de Londrina na casa onde moro.
Agradecido.

Rubens Pileggi Sá

my punk size!













WE ARE ALL PROTITUTES

30 de jul. de 2006

27 de jul. de 2006

DASPU III - problematizando + a questão

rubens,

o que posso fazer é problematizar mais a questão do que dar uma opinião exata sobre o que penso.
mas o que acho é que tudo o que você fala é de onde gabriela parte e não o que ela nega.

Não há negação de que a pobreza obriga muitas pessoas à prostituição, que há crianças se prostituindo, que muitas não escolhem essa profissão, etc.

mas ela tenta partir não da negação da coisa toda, mas da afirmação da sua própria profissão, pois foi prostituta quase 30 anos.

- primeiro, a daspu é o estopim de uma luta que acontece desde os anos 80 e hoje gabriela é considerada uma das maiores líderes dos movimentos de prostitutas do mundo.

- segundo elas lutam sim para o reconhecimento da profissão, por isso apoiam o gabeira, que desde os anos 80 investe no reconhecimento da classe junto as instâncias federais. até estão fazendo uma campanha pra ele em formas de camisetas que diz: Gabeira! Puta deputado. Isso quer dizer que a puta poderá ser reconhecida como uma profissional das fantasias sexuais, como pede o projeto de lei.

- terceiro ela defende o não trabalho infantil e para ela vender bala no semáforo ou se prostituir aos 13 anos ofende diretamente um direito da criança e adolescente que em qualquer dos dois casos não está sendo respeitado.

- quarto, gabriela está investindo em uma quebra de paradigmas, o que ela chama de visão preconceituosa sobre o papel da sexualidade no mundo, ou seja, ela denuncia um tipo de recriminação contra a prostituição que é também a recriminação contra a sexualidade feminina. apostando nessa mudança de paradigma ela aposta também numa mudança de comportamento que na melhor das hipóteses seria a de que não só a sexualidade se tornaria menos problemática para a raça humana, como no cotidiano da puta isso resultará numa maior auto-estima, onde poderá com mais facilidade escolher os parceiros (as) com quem irá se relacionar e evitará de sofrer violências e explorações exatamente porque aumenta o respeito da puta por ela mesma e do usuário pela puta (por isso é guerrilha semiótica e de valores).

quinto, vejo esse movimento não de dentro pra fora, mas de fora pra fora e de fora pra dentro... introduzindo novas questões no fora cultural, a mudança começa ocorrer no fora mas também na postura das putas para dentro da prostituição. é complicado porque é complexo mesmo....

não sei se estas questões mais atrapalham do que ajudam, mas poderíamos discorrer mais e mais terços abstratos, como por exemplo:

se pensarmos o capitalismo como inimigo, negamos o próprio sistema humano, demasiado humano que o criou... quando o negamos, promovemos um discurso meio esquizofrênico, como se o capitalismo existisse fora de nós e como se nós não o sustentássemos cotidianamente seja em forma de pagamento, uso de serviços, fazendo faculddes, indo ao mercado, tendo computador e por aí vai...

o que ela propõe é um paradoxo e não uma solução:

ela enquanto líder do movimento e enquanto puta, se ofende com esses discursos anti-capitalistas que usam a imagem da prostituta para demonstrar a perversão do sistema (não vamos nos entregar, não vamos nos prostituir ao sistema, etc), ela então faz ao contrário, expande o conceito de prostituição e nos coloca a todos no mesmo barco, só que uns vendendo cérebro outros olho, outros buceta, etc... ou seja.... ou paremos com esse discurso preconceituoso contra a prostituta que como todo mundo vende parte do seu corpo, ou assumamos de uma vez que a raça humana nessas épocas de biopoder mudou o nome de homo sappiens para homo prostitutens....

o fato de promover essas discussões nas várias escalas (ainda não o suficiente) faz com que outras coisas venham à tona na discussão; por exemplo, o absurdo pensar que puta ou michê são escravos só do homem.... um moralismo pungente faz com que grande parte das putas inclusive, não se permitam fazer sexo com mulher, reduzindo o seu mercado só a homens, ou que as mulheres solitárias naõ disponham de serviços sexuais femininos e masculinos por também sofrerem desse preconceito contra a sexualidadade... no caso de uma mulher pedir serviços sexuais, ela fica ainda no papel da puta e a mercê de alguma violência. O não reconhecimento da profissão faz com que as mulheres tenham pouquíssimos acessos a saunas, massagens, casas de prostituição masculina etc.... primeiro por que são poucos os serviços que oferecem a garantia de um trampo bem feito, com contrato e sem violência e roubo,... saca?

exagerando o fato, penso que gabriela imagina um mundo em que a sexualidade seja livre e que não exista concentração de renda e poder, mas enquanto isso naõ acontece, ela imagina que os serviços sexuais devem expandir suas possibilidadades e que os profissionais do sexo se tornem profissionais do sexo por pura aptidão, cada vez mais, e que seus serviços sejam aplicados a toda a população, independente de ser homem ou mulher. por profissionais da fantasia sexual e da sedução.

bom, falei tudo muito rápido, tu me faz ter vontade de escrever um texto, talvez eu o faça....

continuamos....

beijo

DASPU II - fiquei pensando

Cassandra,
Fiquei pensando...

que esse negócio de classe, para as putas, é bem importante. Delas se organizarem, batalharem pelos seus direitos de mulheres trabalhadoras, das condições de saúde, que é preciso cuidar, filhos, família, etc.

Penso no papel da gueixa, no japão, que, por séculos, representou a nobreza de servir ao homem - principalemtne de castas superiores - e mexeu muito com o imaginário ocidental, quando aprendemos a admirar a cultura japonesa. Eram mulheres cultas que desenvolveram a arte do sexo a níveis requintados...
Mas pensei, também - quando você fala de sujeito desejante na condição da mulher que é levada para fora do país para se prostituir, por exemplo - naquela garota que é oferecida pelo próprio pai para turismo sexual. Nas situações onde a exclusão tirou tudo das pessoas e as mulheres são obrigadas a se prostituirem E, de que, na maioria dos casos, elas não estão nessa categoria porque querem, mas por necessidades de um país que trata mal a seus próprios filhos, canibalizando-os.
Me lembro do figurino rídiculo que os pais classe média colocam em seus filhos, principalmente os homens, de terninho, para que se pareçam adultos. E me questiono, se dentro dessa sociedade capitalista, o fio que separa uma posição radical de enfrentamento da ordem social, não é ele, ainda, controlado por uma ideologia machista. Quero dizer: a mulher conquistando espaços, mas agindo de maneira semelhante ao macho adulto branco. E, afirmando o poder do phalus, mesmo que a causa seja justíssima. Mais precisamente: de que o outro lado da moeda é a moeda, ainda.

Espero sua resposta.
Um beijo
Rubens

25 de jul. de 2006

DESFILE DA DASPU



desfile da Daspu - Dasputas RJ. no clube glória em são paulo... paralelo ao fashion week

http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/5_66_50672.shtml



as frases das camisetas DASPU, são, tipo:

- Valor de mulher é real
- Somos Más, Podemos Ser Piores.
- Aprecie-me sem moderação
-Sem vergonha garota, você tem profissão
e um monte de outras.....

o mais interessante é que essa moda semi-fashion faz vir à tona 20 anos de existência do movimento das putas, que até agora estavam meioinvisibilizados... e a escolha do nome ativou toda uma demanda publicitária que ao meu ver cumpriu um papel de guerrilha semiótica e ou intervenção signica no imaginário geral. (falar nisso é bom dizer, que o reconhecimento internacional tá sendo maior do que o daqui....) na onu, nos ministérios internacionais,,,,
a estilista da madona tbém veio aqui pra conhecer tudo isso e já tá agitando desfiles na frança (juntando putas de lá-e-cá) enquanto no fashion week elas foram ignoradas,,,,, claro... putas, algumas gordas, todas fora do peso, uma discussão forte em pauta... ehehe....difícil heim? que pobreza não entender tendências....
e o legal é que essa intervenção publicitária também ativa a proliferação de vários pequenos grupos de putas de cidades interioranas que agora~começam a serem incentivadas e estimuladas... Modelo e puta são dois signos fortes noimaginário sócio/cultural,.,,, e quando juntos, sabe-se lá que devires acionam...não, não há consenso... mas intento,
a gabriela, coordenadora da Davida, a ong que coordena a daspu, compra umas brigas fenomenais, altamente polêmicas, que não fecham a discussão sobre prostituição e capitalismo, mas a abrem infinitamente...
quando ela fala que: o que os financiadores protestantes americanos chamam de tráfico de mulheres, ela chama de nomadismo contemporâneo.
que a idéia de cafetão que fagocita a genitália alheia é machista porque não compreende as nuances produzidas pelo desejo feminino que é o que, no final das contas, sustenta o papel de cafetão, ela compra enorme briga, principalmente com as pastorais das mulheres marginalizadas e as ongs abolicionistas que tratam prostituição como doença.
e também diz: os intelectuais prostituem o cérebro a tanto tempo e se receiam de prostituir cu e buceta.... que estranha visão de corpo que eles tem!
Não, não, ela diz, não queremos abolicionismo, queremos a valorização do nosso papel de profissionais da fantasia sexual....
Chanel era prostituta
por aí vai... é um acontecimento contraditório e erótico que precisa se expandir... pra promover remexeduras.... em mim mexe... me traz de volta gestos roubados...o assunto é longuíssimo... fica aí o site Beijo da Rua DAVIDA se quiser se aprofundar: http://www.beijodarua.com.br/ e também o precioso livro de gabriela, ainda do início dos 90: Eu, Mulher da vida... que vai ser reeditado. ainda não disponível online... mas se alguémse dispôr, ela já autorizou....

Texto de Cassandra

24 de jul. de 2006

valentino, nunca mais!

Em Londrina rolou um bar que virou mito. Fundado em 79 pelo diretor de teatro e professor de história, o Teodoro, já falecido, o VALENTINO foi a grande experiência de liberdade sexual e etílica de muita gente, que pode viver, na prática, as delícias do hedonismo e da farra desmesurada. Principalmente para quem tem mais de 40 anos, como eu, e pegou uma época em que não se falava de AIDS ainda.
Muita coisa legal rolou nesse lugar; muito agito cultural; campanha das diretas Já!; peças de teatro; shows musicais etc. Ou seja, muito sexo, drogas e rock'n'roll.
Mas depois foi chegando o baixo astral, muita cocaina e violência e polícia e as pessoas já não eram as mesmas pessoas e, credo! a última vez que eu fui naquele bar, fui expulso porque entrei no banheiro feminino para mijar - o dos homens estava com fila e o das mulheres vazio! - e me senti extremamente ofendido, porque um bar que sempre foi considerado libertário, um bar onde os gays sempre frequentaram em peso, entrar no banheiro alheio tornou-se crime. Crime em um local que até assassinatos na porta de entrada ocorreram!
Vinte e tantos anos depois, o bar Valentino fechou suas portas, vendido para a mulher do Galvão Bueno, para virar academia de estética, estacionamento ou shopping center, qualquer bosta dessas.
Agora reabriu, com os mesmos últimos sócios e com o mesmo nome, travestido de boate, em outro lugar.
Fui lá com meus amigos para assistir ao show da banda Reles-pública e nunca fui tão maltrado assim na minha vida. Os garçons continuam arrogantes, os seguranças estúpidos e autoritários e, de quebra, tudo ficou extremamente burocrático. Cartão para estacionamento, fila de entrada para se cadastrar - dar nome, endereço e número do rg - e pegar cartão. E lá dentro o ar é denso e irrespirável de fumaça de cigarro.
Quis sair para respirar um pouco enquanto o show não começava e me proibiram a saída. Um disparate. Fiquei um pouco entre a porta de entrada e saída e então me arrancaram dali.
Lá dentro meu amigo foi enrolar um cigarro e os seguranças enquadraram ele, abruptamente, julgando tratar-se de um baseado. Quando ele foi enrolar seu segundo cigarro, o segurança simplesmente arrancou o cigarro da mão dele e disse que não podia fazer aquilo lá, e estamos conversados.
O show foi legal!
Na hora de ir embora, fila novamente. Como eu me encostei na parede esperando minha vez, o segurança que cuidava da porta me agarrou como se eu fosse um robozinho e me empurrou para dentro do meu lugar na fila, como se eu não soubesse qual era o meu lugar, me constrangendo.
A boate Valentino é um lugar caro e baixo astral. E as pessoas servem mal à beça. É o contrário do espírito que se espera de um lugar que se vai para gastar e curtir. É um lugar tenso.
Se bem que Londrina tem um histórico de lugares caretas pra caramba, mas lá eu não piso mais.

1 de jul. de 2006

ARACRUZ - credo cruz!

Famílias impedem Aracruz de derrubar Mata Atlântica
[30/6/2006] Por Marcelo Netto Rodrigues/Brasil deFato
Três dias depois que dez famílias ligadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) conseguiram impedir, com seus corpos, que sete tratores da transnacional Aracruz Celulose concluíssem a derrubada de uma Área de Proteção Permanente (APP), de Mata Atlântica, em Linhares, no Espírito Santo, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) determinou o embargo das operações da empresa na área.

[[ PS: Aracruz faz atualmente uma propaganda na TV onde aparecem Pelé, aquele astronauta, Bernadinho, a ginasta, o lutador de boxe e outros mais associando-se a imagem desta nefasta criadora de desertos de eucaliptos... definitivamente, estes nossos atletas sao tremendos cabeças de bagre...Viva o Brusil!]]

No dia 16, em meia hora, 7 tratores – dos 27 que seriam utilizados pela Aracruz para o desmatamento da cabeceira da nascente do Córrego Jacutinga – já haviam derrubado cerca de 8 hectares dos 50 hectares da APP quando mulheres camponesas – uma delas, no nono mês de gravidez –, suas crianças e maridos se posicionaram em frente às máquinas, relata Sérgio Conti, do MPA do Espírito Santo."A Mata Atlântica em restituição que a Aracruz estava derrubando é uma área de APP protegida por lei ambiental, que há 25 anos não era cortada. Algumas árvores nativas já alcançavam 6 metros", informa Conti. "Espécies raríssimas, como braúna, sapucaia, guaribú e gibatão foram destruídas", conta Elias Alves, outro coordenador do MPA.No Córrego Jacutinga, moram cerca de 30 famílias de pequenos agricultores e, na região do Córrego do Farias, cerca de 300 famílias resistem em meio aos plantios de eucalipto, pasto e cana-de-açúcar. A Aracruz retirou seus tratores da região, mas a milícia a serviço da empresa continua na área com duas viaturas e sete vigilantes. Se for comprovado o crime ambiental, a Aracruz será autuada e a área deverá ser reflorestada.RÉU REINCIDENTEMultas por crime ambiental não são uma novidade para a Aracruz Celulose. A empresa já foi multada este ano, na Bahia, pelo Ibama em R$ 600 mil, por plantio irregular de eucalipto em 200 hectares próximos à área do entorno do Parque Nacional do Descobrimento, no município de Prado, extremo sul do Estado. Em dezembro do ano passado, a Veracel – empresa da qual a Aracruz detém 50% das ações – também foi multada em quase R$ 400 mil por dificultar a regeneração natural de florestas de Mata Atlântica em 1.200 hectares ao sul da Bahia.A Aracruz é uma das maiores empresas do setor de madeira, celulose e papel do mundo. Detém mais de 260 mil hectares de áreas plantadas no Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia. É proprietária de cerca de 3% do território do Espírito Santo e já destruiu 50 mil hectares de Mata Atlântica só neste Estado.

http://www.revistaforum.com.br/vs3/artigo_busca.aspx