30 de abr de 2006

Veja

Sei que é chover no molhado. E que é preciso tentar entender quem defende quais interesses, sempre, antes de julgar e condenar. Mas uma passada por http://www.novae.inf.br/pensadores/veja_invencoes_elite.htm

vale a pena.
Até para saber quais os mecanismos a revista Veja usa para defender seus interesses!

Algumas frases encontradas lá no texto "Laboratório de invenções da elite". Por Anselmo Massad, da revista Fórum

Falando dos perseguidos pela revista:


A lista é extensa, mas as razões derivam de uma fórmula simples. “Veja faz um jornalismo de trás para a frente”, explica Cláudio Julio Tognolli, repórter do semanário na década de 1980 e hoje professor da USP. Segundo ele, se estabelece uma tese e a partir dela se parte para a rua, para a apuração. Ouvir lados diferentes da história e pesquisar sobre o tema são práticas que não alteram a “pensata”, jargão para definir a tese que a matéria deve comprovar. Dentro da redação, o melhor repórter é o que traz personagens e fontes para comprovar a tese. “Assim, Veja ensina à classe média bebedora de uísque o que pensar”, alfineta."

“As assinaturas das matérias são uma ficção”, sintetiza um ex-colaborador da revista que não quis se identificar. As matérias são reescritas diversas vezes. O repórter entrega o texto que é modificado pelos editores, depois refeito pelos editores executivos e, por fim, pelos diretores de redação. No final da “linha de montagem”, o repórter, que pacientemente aguardou a edição para uma eventual necessidade de verificação de dados, não tem acesso ao texto até ver um exemplar impresso. O processo é narrado no livro do ex-diretor de redação da revista Mário Sérgio Conti, que fez parte da cúpula da publicação até 1997, como chefe de redação e diretor. A opinião que prevalece é a da revista, ainda que todos os entrevistados tenham dito o oposto, mesmo que para isso seja preciso omiti-las do leitor.

A revista busca agradar a quem a compra: a classe média conservadora.
A tiragem semanal da revista é de 1,1 milhão de exemplares, sendo 800 mil assinantes e o restante vendido em banca. “A maioria dos que compram, gostam das opiniões, gostam do Diogo Mainardi”, lamenta Raimundo Pereira, um dos primeiros editores da revista na época em que lá ainda trabalhava o seu criador, Mino Carta.

Os preconceitos da elite são refletidos pela revista. Além dos movimentos sociais, há quem relate que um dos bordões de Tales Alvarenga, atual diretor de publicações, em sua fase à frente da revista era: “Não quero gente feia”. Por gente bonita, referia-se não apenas a padrões estéticos de magreza, mas também aqueles ligados à cor da pele. Segundo colaboradores próximos, fotografar negros seria quase certeza de material desperdiçado.

Chega de crltC/crltV, quem tem q.i. vai

http://www.novae.inf.br/pensadores/veja_invencoes_elite.htm

25 de abr de 2006

http://www.estultiferanave.blogspot.com/

Alguém vai ter que limpar essa sujeira
esse amor todo esporrado no chão
desço as escadas como se nada tivesse acontecido
com esse corte profundo no super cílio
mas se me salvarem hoje perecerei todas as noites
esperando que alguém venha recolher os pedaços
com um pá de plástico vagabundo
dessas que a gente compra em lojas de 1,99
furaram meu bote inflável
ou eu mesma me sabotei como de costume
agora vou batendo as têmporas no meio fio
espancando as noites
cerrando os punhos com força
e mastigando pétalas murchas do último buffet.

19 de abr de 2006

todo dia era dia de índio








Théodore de Bry (cerca de 1590 - 1596)








ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade, 1925

17 de abr de 2006
















A internet amplifica a idéia da colagem, do uso de materiais já criados, podendo recriá-los em plágio-combinação, ou, mesmo, usar na íntegra o que já foi mostrado por outros. De preferência remetendo ao seu autor.
O negócio é usar as armas: sejam a dos aliados ou dos inimigos.
A charge aí em cima foi capturada em http://www.kibeloko.com.br/ e tem tudo a ver com o BOCAQUENTE.
A cópia do mundo é nossa!

14 de abr de 2006

A solução pro nosso povo eu vou dar!




Pois é, temos uma solução. Não, não é a Amazônia. Não é nada amazônico. É algo mais importante. Aliás, cinco elementos que os nossos maiores credores não têm: as estrelas do Penta.
Da mesma maneira que nós brasileiros desejamos um país mais sério, com distribuição de renda mais justa, os nossos maiores credores podem desejar as cinco estrelas do Penta, por quê não?
Como negociar? De três maneiras: aluguel, venda ou leilão. No caso do aluguel passaríamos as cinco estrelas para os Estados Unidos usarem nas Copas do Mundo durante 30 anos e eles nos pagariam 96 bilhões de dólares por copa do mundo. Em relação à venda, colocaríamos as estrelas no mercado a preços populares, coisa de 150 bilhões de dólares, cada.
Uma das sugestões seria a Nike intermediar a transação, já que esta importante empresa goza de bons relacionamentos com o Brasil. Também o leilão seria um sucesso, contando com o nosso Mestre de Cerimônias Galvão Bueno e o como Leiloeiro Oficial, Edson Pelé do Nascimento.
Dá até para imaginar as ofertas feitas pelas potências, como a Itália, Estados Unidos, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra. Dá até para ver as mãos de Joseph Blatter se esfregando enquanto o “Rei” bate o martelinho, encerrando o leilão após a oferta máxima de Silvio Berlusconi. Com Ricardo Teixeira e João Havelange tomando boas doses de uísque. Daria até para ganhar uns extras com a trilha sonora do leilão: “...o povo da FIFA mandou avisar”.
Oliver Kahn, o goleiro da Alemanha que “bateu roupa” em uma bola infantil, que ocasionou um dos gols da vitória na última final e ainda assim foi eleito o melhor jogador da Copa, poderá ganhar mais um título: o da Ordem do Cruzeiro do Sul. Nós, Pentagonaldos, somos muito respeitados e agora, mais ainda lá fora. Conseguindo negociar com eles, poderemos ser mais livres e até gritar mais alto: “A Amazônia é nossa!”.

Marcelo Eduardo Henrique – Olvidor-mor da Federação

11 de abr de 2006

SIGA O MESTRE!

IDENTIDADE PÚBLICA
















, ou conversas com o inominável

Quero ser a cópia da cópia da cópia. A puta, a cachaça barata, o mamonas assassinas, o assassino desta teoria que vê na diluição o fracasso da arte maior, a que se faz importante, imponente, espetacular.
Quero ser maneroso, estiloso, repetitivo, artesanal, fake, mentiroso. Ser o real pelo seu avesso, até o plágio se tornar um conceito original.
Quero estar na boca do povo, canção assoviada de Noel, bolerão, me deixem torcer pela seleção, eu nunca quis ser erudito, eu sou popular. Não tenho marcas, penduricalhos, grifes, nome a zelar. Sou cd pirata, vira-latas, mercado informal. “Baixa temperatura poética” é o meu ideal de vulgaridade.
Quero colocar carne-de-sol nesse banquete de intelectos e gênio raros. Eu quero levar uma parte do seu salário e gastá-lo em trocadilhos baratos. Como elma chips, big brother barraco, meter a cultura elitista em um saco de gatos e ver o circo incendiar. Idéias morro acima e cultura abismo abaixo ninguém há de segurar!
Sou o anônimo, o antônimo do heterônimo, o INOMINÁVEL: todo homem é um artista. Todo homem é um comunista. Todo homem é médium. Todo homem é bom. Arte é artifício. Linguagem é jogo. Tudo é ilusão!
Viva a manifestação do povo da periferia. Viva quem quiser viver, mas não me venham com esse papo de originalidade, alta cultura. Tiro um som da burrice nacional, do caldeirão das raças faço meu mingau. Sabedoria não depende de diploma. Quem quiser compreender é só olhar o céu. E nada mais se ensina. Deixe o desejo aceso e tudo se combina: fogo na gasolina!

1 de abr de 2006

paradoxos



Depois de ler, e me encantar, com o texto “Campanha contra o vício da leitura”, do colunista/ensaísta catarinense Fábio Brüggmann, no livro “Isto não é notícia”, onde, em prosa corajosa, se mostra extremamente lúcido, me vi pensando em coisas como essas, que seguem abaixo:


Diálogos

- Quem disse que um idiota não pode se transformar em filósofo?
- E quem disse que um filósofo não pode ser um idiota?

- Você sabia que quanto mais lê, mais burra a pessoa fica, segundo Schopenhauer?
- Você sabia que idiota é quem se atreve a pensar por si, segundo Deleuze?

Latifúndio reclama fundos



SLOGAN:
A agricultura está morta. O latifúndio e a monocultura mataram a terra.
Ou, quando o filho mata a mãe e põe a culpa no pai.



1 – Um amigo aqui de Londrina, professor Marcos Barnabé, 2 anos atrás, convidou-me para assistir os clássicos do western, junto a seus alunos de arquitetura. Sua intenção era mostrar “como é que se fazia cinema” para a garotada, que “a direção é a alma de um filme” e, de quebra, em como o “spaguetti” italiano se apropria da linguagem dos filmes de farwest dos eua, misturano-os à linguagem de Glauber Rocha, para criar filmes populares de bang-bang.
E lá fui eu, em nome da amizade e, principalmente da curiosidade, assistir John Wayne em ação, dirigido pelo “genial” John Ford. O primeiro filme foi “O homem que matou o facínora” (The Man Who Shot Liberty Vance), de 1962. E é sobre esse filme que eu quero começar a traçar algum paralelo com a situação fundiária no Brasil.

2 – O filme em questão conta a história de um advogado recém-formado (James Stwart), que veio à cidade, querendo trazer civilidade ao lugar.
Defendendo interesses dos latifundiários, que atrasavam o progresso do lugar e zombavam da lei, o malvado capataz Liberty Vance (Lee Marvin) logo põe a vida do mocinho em risco, até que, depois de várias ameaças, o advogado aceita o desafio para um duelo na rua e o facínora, seu oponente, tomba, morto à bala.
O fato é narrado ao espectador pelo advogado que acaba se tornando senador e volta para a cidade, anos depois, para o enterro do vaqueiro Tom Doniphon (John Wayne). O fator surpresa do filme é saber que o disparo não saiu da arma do advogado, mas do “destemido vaqueiro”, que, mesmo perdendo a mocinha para o advogado bonitão (mas péssimo atirador), salva a vida do homem que representa a justiça.

3 – Mas não é comentar cinema o que interessa, aqui. Mas refletir em como a ideologia hollywoodiana foi vendida como “cultura americana” e de como ela pode sustentar seu poder, ao pregar os princípios da justiça, da ordem e da liberdade democrática como uma grande conquista para a humanidade.
Quem conhece um pouco da história do cinema, sabe que os produtores cinematográficos fugiram de New York para Hollywood para não se submeterem às leis que protegiam o trust e, porque os custos de produção eram menores no interior do que na capital.
E filmaram o “velho oeste” porque era o cenário que tinham para filmar. E faziam filmes contra os latifundiários porque era o assunto mais em evidência no lugar. Os pecuaristas viam com péssimos olhos aquela indústria de cultura e entretenimento, que ameaçava a estrutura social do lugar e seu domínio pelas terras, garantidas debaixo do derramamento de muito sangue indígena e carcaças de búfalos. Foi em cima desse ponto, a meu ver, que o cinema se tornou o grande porta-voz da imagem que temos dos E.U.A., até hoje.

4 – A Reforma Agrária nos EUA foi realizada em 1862, enquanto no Brasil o problema fundiário é o X da questão social. Em 1950 havia 50 milhões de pessoas morando no país. 70% lavradores. Hoje somos 170, 180 milhões e 90% da população vive nas cidades. Além disso, nosso país só perde para o Paraguai, em termos de concentração de terras nas mãos de menos gente, comparativamente. Mas a maioria das terras paraguaias pertence a... brasileiros. E isso não é filme de cinema americano!

5 – Foi manchete de capa do jornal Folha de Londrina, de sexta-feira, dia 31 de março de 2006, a notícia que dava conta que em Bela Vista do Paraíso – pequeno município situado ao norte do Estado do Paraná – houve um protesto de agricultores que interditaram um trecho de rodovia e passaram pela avenida da cidade, fazendo o comércio abaixar suas portas.
O motivo do protesto é que milhares de agricultores fizeram empréstimos no Banco do Brasil e agora não podem pagar. E o governo ameaça tomar judicialmente suas terras e maquinários. Afirmam que as colheitas das últimas safras ficaram aquém das expectativas, por conta da estiagem que vêm atacando a região há anos. Além da queda do preço do dólar, que fez o preço do saco de soja cair.
Por tudo isso, se declaram em luto, acusando o governo de não apoiá-los, em um momento difícil como esse que estão passando.

6 – A terra por onde passaram os plantadores de soja, soltando rojões, com seus carros, caminhonetes e colheitadeiras, é a mesma terra onde já não há mais vestígios dos índios que habitavam o lugar, nem da flora, nem da fauna, devastadas. Não foi preservada, sequer, a mata ciliar. Já não há mais rios potáveis, nem peixes vivos. O agrotóxico destrói tudo à sua volta. E a terra, de tanta rotatividade, torna-se cada vez mais fina, mais poeirenta. O sol aquece o solo desnudo, que reflete o calor. A temperatura aumenta, o clima se desarmoniza. As estações perdem a definição: faz frio no verão, calor no inverno, seca na primavera.

7 – Antes da soja – cujo comércio é voltado quase que integramente às exportações – havia o café. Também era monocultura. Por pior que fosse, gerava alguma renda que era revertida para a cidade. E a propriedade das terras estava menos concentrada. Mas a cultura da soja prescinde do homem. Uma máquina e um tratorista para centenas de alqueires (aqui não se fala em hectares. Cada alqueire chega a custar 120 mil reais). O resultado disso é o inchaço e a violência na cidade grande. E o fim das cidades pequenas. Cidades Mortas!

8 – Generalizar é sempre perigoso. Mas o fato é que novos ricos que recebem dinheiro fácil gostam de se mostrar, gastando dinheiro das formas mais imbecis. Caipiras que de repente saiam do Banco do Brasil – no mesmo local onde fazem agora seus protestos contra a falta de ajuda do governo – cheios de crédito para investir na lavoura. Mas torravam o dinheiro fechando bordéis, comprando caminhonetes do ano, colares e pulseiras de ouro, em um arremedo de “Sinhozinho Malta”, personagem de Lima Duarte, na novela Roque Santeiro e tudo o mais que a ignorância pretensiosa, que os transformavam, também, em seres arrogantes, podia lhes dar.

9 – O presidente da república já se manifestou que está aberto ao diálogo com esses produtores. Afinal, não fazemos a Reforma Agrária, mas é preciso manter o comércio externo azeitado. Uma das dez economias do mundo não pode parar para pensar em seus cidadãos menos favorecidos – nosso IDH (índice de desenvolvimento humano) é vergonhoso – que nunca receberam um centavo do poder público. Mas do imposto gerado por esse comércio, não há como abrir mão. Todos sabem que manter o paternalismo é uma boa estratégia para garantir a reeleição.

10 – A agricultura está de luto. Algo está morto e é preciso deixar que agora apodreça, para que a terra volte a ter micro organismos que a torne viva, novamente. Não tenho intenção, com este texto, de me tornar candidato a nada. Isso também não é um discurso. Ou é. Ou sou candidato, não importa. Mas para que algo seja exato e esteja de acordo com a realidade dos fatos, sugiro não se pronunciar mais a palavra agricultor para se referir a essas pessoas que protestam contra o governo, quando, em nenhum momento pensaram na sobrevivência das próximas gerações. De seus próprios filhos e netos. Suponho chamá-los sojicultores, ou, quando muito, monoculturistas, já que é esse tipo de ação que empregam em seu trabalho. Agricultor seria aquele que cultiva a terra, com vistas a torná-la fértil. E a única agricultura que esses sojicultores praticam é a agricultura esgotante, aquela que – segundo o dicionário Houaiss – “esteriliza ou depaupera” o solo.
Por fim, já que a questão se voltou para o léxico das palavras, gostaria de mencionar que Americano são todos os que vivem na América, que vai do Alaska até o pólo sul. E que nem de Americanos do Norte os habitantes dos Estados Unidos da América podem ser chamados, já que o Canadá também pertence à América do Norte.
Ao apontar o governo por um crime que eles mesmos cometeram, os monoculturistas da região norte do Estado do Paraná parecem querer esconder a mão coberta do sangue vermelho, seco, sujo e endurecido da Mãe Terra que eles próprios mataram.
No cinema ainda sobravam mocinhos para contar a história no final, aqui, nem isso...