20/11/2009
DIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA!
18/11/2009
Em defesa de Battisti
Luiz Inácio Lula da Silva.
Na qualidade de filha de Olga Benário Prestes, extraditada pelo Governo Vargas para a Alemanha nazista, para ser sacrificada numa câmera de gás, sinto-me no dever de subscrever a carta escrita pelo Sr. Carlos Lungarzo da Anistia Internacional (em anexo), na certeza de que seu compromisso com a defesa dos direitos humanos não permitirá que seja cometido pelo Brasil o crime de entregar Cesare Battisti a um destino semelhante ao vivido por minha mãe e minha família.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes
Carta aberta de Cesare Battisti a Lula e ao Povo Brasileiro
14 de Novembro de 2009
“CARTA ABERTA”
AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
SUPREMO MAGISTRADO DA NAÇÃO BRASILEIRA
AO POVO BRASILEIRO
Debate sobre reforma agrária na mtv
Obviamente não se chegou a nenhum consenso como ingenuamente propôs Lobão, clamando pelo entendimento de ambas as partes "sem picuinhas" e na "base do olho no olho", simplesmente porque a questão é uma disputa de espaços de poder e vai ganhar quem estiver mais organizado e quem conseguir expulsar, pelo voto e pelas armas das idéias, o outro, da arena de disputa.
O assunto ficou naquela repetição de bordões entre um lado que defendia o direito à terra e o outro lado, chamando o MST e seus aliados de arruaceiros que só querem implantar o comunismo no Brasil, com esse PT de vagabundos e... (bem, o nível de debate que já nos acostumamos, quando se fala de dividir as terras, no Brasil).
Algumas colocações da direita me parecem tão arcaicas, batidas e reacionárias que ou é preciso ser bastante imbecil para embarcar nesse papo de perigo comunista, ou malvado, de fato, com interesses flagrantes contra a grande maioria da população. Mas esses são, no máximo, 5.000 famílias, umas 30.000 pessoas. As que detém 45% da riqueza nacional. Para os outros 191.995.000 de pessoas restantes, não ha vantagem nenhuma em admitir que só os que são herdeiros possam se beneficiar de tudo o que o mercado oferece, enquanto a maioria do país, pobre, passa necessidade.
Mas a questão não é só essa. Isso o Dr Rosinha e os outros defenderam muito bem, lá no programa do Lobão. A questão é de que o conceito de terra improdutiva não é só o de terras que estão sem plantação, porque isso acaba gerando mais devastação, ainda, no pouco que ainda resta de floresta. O conceito de terra improdutiva deve ser levado - como observa o professor Ariovaldo Umbelino, calcado em leis - na consideração sobre o que o uso da terra produz socialmente e ambientamente. Ora, se a terra só serve para produzir grãos para exportação, não gerando riqueza social à sua volta, não será assim, com bois pastando entre cercas, que a paz há de chegar nem campo, nem tampouco à cidade, uma vez que a violência urbana é consequência direta do latifúndio e da monocultura extensiva concentrada nas mãos de poucos privilegiados.
No fim, ainda, o moleque da direita me sai dizendo que "o mercado é para todos" e eu, antes de desligar a TV, ainda pensei, mas por que é que o tema não foi "o latifúndio é legítimo no país?", ao invés da pergunta ser voltada, novamente e mais uma vez, pela imprensa, ao MST.
Depois de mais de 500 anos de senhores de engenho gananciosos pelas riquezas extrativistas, "os escravos venderão seus donos e criarão asas", como diz a frase final do filme "Cobra Verde", de Win Wenders. E é exatamente isso que estamos começando a aprender a fazer, hoje em dia. E quem prova do gosto do mel e do sangue jamais esquece o sabor.
16/11/2009
12/11/2009
INHOTIM e as ARTES nacionais
Fonte: http://www.novojornal.com/politica_noticia.php?codigo_ noticia=10499 Após desmonte do mensalão mineiro, sócio agora utiliza organização não governamental para prática criminosa Depois de mais de dois meses pesquisando, ouvindo e apurando denúncias de “especialistas de mercado” sobre uma nova lavanderia de dinheiro, Novojornal conclui reportagem que traz à tona um esquema com a participação de vários políticos, jornalistas, empresários de diversos setores da economia nacional e mineira, que absorveu todo esquema de corrupção e sonegação outrora executados pelas agências de publicidade SMP&B e DNA, desmontado após comprovação através da CPI dos Correios e investigação da Polícia Federal (PF), o que culminou com a denúncia apresentada pelo Procurador da República no explosivo mensalão, desdobrado posteriormente em mensalão mineiro. Integraram esta denúncia Marcos Valério e Cristiano Paz, proprietários da DNA e SMP&B. O primeiro, após cair em desgraça, tirou de cena o segundo, verdadeiro autor da engenharia contábil e financeira que, por décadas, serviu principalmente aos governos mineiro e federal, além de autarquias, empresas públicas e privadas. Segundo os “especialistas”, Valério entrara no “ramo” há pouco tempo, representando um “sócio oculto”. Cristiano Paz, diante da falta de condições em utilizar as agências de publicidade para servir seus tradicionais clientes, migrou para o Museu Inhotim, situado no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. Inhotim, até então, era apenas um hobby excêntrico pertencente a Bernardo Paz, irmão de Cristiano. Bernardo Paz é um “playboy” que passou sua vida gastando a enorme fortuna deixada por seu ex-sogro, o falecido banqueiro João do Nascimento Pires, proprietário do extinto Banco Mineiro do Oeste. Em 2002 foi fundado o Instituto Cultural Inhotim, entidade sem fins lucrativos, dessa forma, “isenta” de pagamento de impostos. Embora sujeito a fiscalização, ficou literalmente de fora das investigações do mensalão. Sua contabilidade no período das apurações do caso mensalão simplesmente evaporou, segundo informações de participantes das investigações. Após essa transformação, os investidores e patrocinadores dos projetos de Inhotim, coincidentemente passaram a ser os mesmos que anteriormente eram clientes da SMP&B e DNA. É inegável que nas últimas décadas todo esquema de corrupção, desvio e lavagem de dinheiro, principalmente público, executado no Brasil, nasceu em Minas Gerais. Até então tido como um Estado ético e exemplo de probidade, Minas passou a ser conhecido pela engenhosidade de contraventores, transvertidos de empresários, políticos e publicitários. Evidente que a impunidade estimulou o crescimento da contravenção. Agências de publicidade como SMP&B e DNA, junto com instituições financeiras como Banco Rural e BMG, desmontaram o patrimônio do Estado. Abertamente ofereciam especialização não nas atividades constantes de seus objetivos sociais e a disputa entre os Bancos e agência de propaganda passou a ser daquele que ofereceria maior competência na prática de contravenções. Diretores dos bancos ocupavam diretorias do Banco Central e, diretores de agências, altos cargos da administração pública, encarregados da gestão das verbas de publicidade, impedindo dessa forma a fiscalização ou a punição. Foi necessário que, em Brasília, após ser contrariado em seus interesses, o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciasse o esquema para que investigações fossem realizadas. Muitos acham que a mesma foi superficial e poupou diversos participantes. Agora entra em cena o novo esquema, através da ONG Inhotim. Os valores operados anualmente neste esquema ultrapassam R$ 150 milhões. Para dar “saída” ao dinheiro recebido, Inhotim passou a adquirir enormes áreas no município de Brumadinho. Compraram escandalosamente, por vultuosas somas, gigantescas áreas sem qualquer valor comercial ou de mercado, por serem pirambeiras e mata virgem, todas situadas em áreas de preservação ambiental. O preço alto pago era apenas para constar das escrituras. Na verdade, o valor pago era insignificante. Após esta operação, a diferença entre o valor pago e o valor da escritura estava “lavada”. Evidente que as operações convencionais de superfaturamento de promoções e simulação de patrocínio continuaram a acontecer. Hoje, no cartório de Imóveis de Brumadinho, comprovadamente, Inhotim é a maior proprietária do município. Se avaliado a preço de mercado dos imóveis adquiridos, não chega a 0,5% do valor declarado. A eficiência do novo modelo, assim como a esperteza e inteligência dos novos operadores tem que ser reconhecida. Diante da evidente simpatia da sociedade com os eventos da área ecológica de Inhotim, a instituição acabou “ficando bem na foto”, possibilitando a aproximação de diversos profissionais de credibilidade do “Projeto”. Depois da utilização das escrituras dos imóveis para lavar uma montanha de dinheiro e diante da obrigatoriedade de manutenção das áreas florestais sem qualquer valor comercial, agora querem ficar livres deste ônus, pretendendo “doar” os mesmos para a União Federal. Realmente os novos operadores são competentes. Porém, o velho ditado a seguir aplica-se como uma luva: “Se o malandro realmente fosse malandro deixaria de ser malandro por malandragem”, já que a ganância e a certeza de impunidade levaram os novos operadores a cometerem um erro fatal. Diante da influência de um dos grandes “investidores” no projeto Inhotim, deputado federal Narcio Rodrigues (PSDB-MG), para muitos sócio do governador mineiro e coincidentemente majoritário eleitoralmente no município, conseguiu-se que o DER/MG asfaltasse um acesso a BR 040, ou seja, a Inhotim. A justificativa utilizada novamente é criativa e perfeita: “Acesso a Inhotim”. Só que, anteriormente, o deputado Narcio Rodrigues e Bernardo Paz compraram todos os imóveis no trajeto da estrada que liga a BR 040 e, com o novo acesso asfaltado, alcançaram um preço estratosférico, pois estará próximo ao mega projeto imobiliário Lagoa dos Ingleses, onde encontra-se o metro quadrado mais caro da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para o Inhotim, os imóveis nada valem, representam apenas despesas. Como já foram úteis para lavar dinheiro, inclusive público, agora será entregue à União enquanto os que irão valorizar, devido ao asfaltamento com investimento público, ficarão com Bernardo e Narcio. O leitor neste momento certamente estará dizendo: chega. Isto já é demais. Infelizmente não! Os novos operadores, através de Bernardo, conseguirão indicar o secretário de Meio Ambiente de Brumadinho, “Dr. Quintino”, para facilitar o que na região é praticamente impossível às licenças ambientais. Bernardo e Narcio pretendem instalar em seus imóveis um aeroporto, um campo de golfe e um mega Resort. E pior, o terreno onde serão implantados estes empreendimentos pertencia ao atual secretário de Meio Ambiente. Segundo moradores da região, a venda foi aparente, o secretário e sócio de Bernardo e Narcio. É realmente inacreditável a certeza da impunidade, visto que o secretário “Dr. Quintino” concederá a licença ambiental para um empreendimento que será construído em um imóvel que anteriormente, no mínimo, era seu. Fontes da Procuradoria da República e Polícia Federal de Minas Gerais informam que já “observam” há algum tempo a nova Lavanderia Mineira e prometem ações em breve. Principais parcerias de Inhotim: Petrobras Distribuidora Cemig CSN Ferrous Fundo Estadual de Cultura VIVO Votorantim BMG
DE BONNER PARA HOMER
http://cartacapital.com.br/
O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional
Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional , na quarta-feira, 23 de novembro.
Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.
Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.
A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático "bom-dia", Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional . Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons , uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.
A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. "Essa o Homer não vai entender", diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.
Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos - atender ao Homer -, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.
Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas "praças" (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.
A primeira reportagem oferecida pela "praça" de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da "oferta" jornalística informa que a empresa venezuelana, "que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível" para serem "vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano". Uma notícia de impacto social e político.
O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.
Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela "praça" de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. "Esse juiz é um louco", chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.
Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês - matéria oferecida por São Paulo -, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. "Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS", ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.
De Brasília é oferecida uma reportagem sobre "a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública". Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.
Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.
E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.
Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac - o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá - os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.
* Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
05/11/2009
A lição de sabedoria das vacas loucas
Traduzido do francês por Nádia Farage
Para os ameríndios e para a maior parte dos povos que por longo tempo permaneceram sem escrita, o tempo dos mitos foi aquele em que homens e animais não eram realmente distintos uns dos outros e podiam se comunicar entre si. Tomar como início dos tempos históricos a Torre de Babel, quando os homens perderam o uso de uma língua comum e deixaram de se compreender, pareceria àqueles povos uma visão singularmente estreita. Do seu ponto de vista, o fim da harmonia primitiva se produziu num âmbito muito mais vasto: atingiu não apenas os humanos, mas todos os viventes.
Pode-se dizer que, ainda hoje, temos certa consciência daquela solidariedade primeira entre todas as formas de vida. Buscamos imprimir o sentimento dessa continuidade no espírito de nossas crianças desde cedo: nós as cercamos de simulacros de animais em borracha ou em pelúcia, e os primeiros livros de figuras que colocamos sob seus olhos lhes mostram o urso, o elefante, o cavalo, o asno, o cão, o gato, a galinha, o rato, o coelho etc muito antes que elas os deparem realmente, como se devêssemos dar-lhes, desde a mais tenra idade, a nostalgia de uma unidade que logo saberão rompida.
Não surpreende que o ato de matar seres vivos para se alimentar proponha aos humanos, conscientemente ou não, um problema filosófico — problema que todas as sociedades tentam resolver. O Antigo Testamento fez dele uma consequência direta da queda: no jardim do Éden, Adão e Eva se alimentavam apenas de ervas e frutos; foi a partir de Noé que o homem se tornou carnívoro (Gênesis, 1:29 e 9:3). É significativo que a ruptura entre o gênero humano e os outros animais preceda imediatamente a história da Torre de Babel — ou seja, a separação dos homens uns dos outros — como se esta fosse uma consequência ou um caso particular daquela.
Tal concepção fez da alimentação carnívora uma espécie de enriquecimento do regime vegetariano, ao passo que certos povos sem escrita vêem nela uma forma de canibalismo um pouco atenuada. Eles humanizam a relação entre o caçador (ou o pescador) e sua presa, concebendo-a sob o modelo de uma relação de parentesco: entre aliados por casamento ou, mais diretamente, entre cônjuges (assimilação facilitada por outra relação: aquela, feita em todas as línguas do mundo, entre o ato de comer e o ato de copular). A caça e a pesca se afiguram assim como uma espécie de endocanibalismo. Outros povos — talvez até os mesmos — julgam que a quantidade devida existente no universo deve estar sempre equilibrada. O caçador ou pescador que lhe desconte uma fração deverá, por assim dizer, reembolsá-la, a bem de sua própria esperança de vida. Essa é outra maneira de ver na alimentação carnívora uma forma de canibalismo — no caso, autocanibalismo, porque, nessa concepção, come-se a si mesmo na crença de se comer um outro.
Há alguns anos, por ocasião da epidemia da vaca louca, que ainda não era o que viria a se tornar, explanei aos leitores do La Repubblica ("Siamo tutti canibali", 10-11/10/1993) que as patologias afins de que vez por outra o homem é vítima — o kuru, distúrbio neurológico causado por ingestão de cérebros dos mortos em rituais na Nova Guiné, e a doença de Creutzfeldt-Jacob, resultante da administração de extratos de cérebro humano para curar distúrbios do crescimento – estão ligadas a práticas decorrentes do canibalismo, de modo que é preciso alargar a noção para poder incluir todas essas doenças.
E eis que agora nos informam que a doença da mesma família que afeta as vacas em vários países europeus (e que oferece risco mortal ao consumidor) é transmitida pelos farelos de origem bovina com que se alimentam os animais. Ela resultou, portanto, da ação humana de transformar estes em canibais, sob um modelo que de resto não é sem precedente na história. Segundo textos da época, durante as guerras religiosas que ensanguentaram a França no século XVI os parisienses esfaimados se viram constrangidos a se alimentar de pão à base de farinha de ossos humanos, retirados das catacumbas e moídos.
O vínculo entre alimentação carnívora e um canibalismo ampliado tem conotação talvez universal e, assim, raízes muito profundas no pensamento. Ele vem ao primeiro plano com a epidemia das vacas loucas, uma vez que ao pavor de contrair uma doença letal se soma o horror que tradicionalmente nos inspira o canibalismo, ora extensivo aos bovinos. Condicionados desde a primeira infância, decerto permanecemos carnívoros e buscamos carnes substitutivas. Não é de menos, portanto, que o consumo de carne tenha diminuído de forma espetacular: bem antes desses eventos, quantos de nós passaríamos diante de um açougue e experimentaríamos mal-estar ao vê-lo sob a ótica antecipada dos séculos vindouros? Pois dia virá em que a ideia de que os homens do passado criavam e massacravam seres vivos para se alimentar, e complacentemente expunham sua carne aos pedaços em vitrines, inspirará a mesma repulsa que os repastos canibais dos selvagens da América, da Oceania e da África despertavam nos viajantes dos séculos XVI e XVII.
A crescente voga de movimentos em defesa dos animais atesta que percebemos, cada vez mais nitidamente, a contradição que se encerra em nossos costumes entre a unidade da criação, tal como ainda se manifestava à entrada da arca de Noé, e a sua negação pelo próprio Criador, à saída.
Provavelmente, Auguste Comte está entre os filósofos que mais se ocuparam do problema das relações entre o homem e o animal. Ele o fez mediante uma concepção que os comentaristas preferiram desprezar, pondo-a na conta das extravagâncias a que frequentemente se entregava aquele grande gênio. Não obstante, merece que nela nos detenhamos.
Comte divide os animais em três categorias. Na primeira, inclui aqueles que de algum modo apresentam perigo ao homem e propõe simplesmente a sua aniquilação. Na segunda, ele reúne as espécies protegidas e criadas pelo homem para delas se alimentar: bovinos, suínos, ovinos etc. Após milênios transformando-os tão profundamente, de fato não poderíamos mais considerá-los animais: seriam antes "laboratórios nutritivos" onde se elaboram os compostos orgânicos necessários à nossa subsistência. Se Comte exclui da animalidade essa segunda categoria, integra à humanidade a terceira. Nesta agrupa as espécies sociáveis, em que encontramos nossos companheiros e nossos ativos auxiliares — animais cuja "inferioridade mental tem sido muito exagerada". Alguns, como o cão e o gato, são carnívoros. Outros, dada a sua natureza de herbívoros, não têm um nível intelectual que os faça utilizáveis. Comte preconiza torná-los carnívoros, coisa nada impossível a seus olhos, haja vista que na Noruega costumava-se alimentar o gado com peixe seco quando faltava forragem.
Assim, certos herbívoros seriam elevados ao mais alto grau da perfeição cabível à natureza animal. Tornados mais ativos e inteligentes por seu novo regime alimentar, seriam mais facilmente levados a se devotar a seus mestres como servidores da humanidade. Poderíamos confiar-lhes a vigilância das fontes de energia e das máquinas, de forma a deixar os homens disponíveis para tarefas mais importantes. Utopia, reconhece Comte, mas não mais do que a transmutação dos metais, que se encontra na origem da química moderna. Ao aplicar a ideia de transmutação aos animais, ele não faz mais do que estender a utopia da ordem material à ordem vital.
Antigos de século e meio, tais pontos de vista são proféticos sob vários aspectos, e sob outros manifestam um caráter paradoxal. É bem verdade que o homem provoca, direta ou indiretamente, a desaparição de inúmeras espécies, e que, por isso, outras tantas estão gravemente ameaçadas — que se pense nos ursos, lobos, tigres, rinocerontes, elefantes, baleias etc, bem como nas espécies de insetos e de outros invertebrados aniquilados a cada dia em consequência das degradações infligidas pelo homem ao meio ambiente.
Profética a um ponto que Comte não poderia imaginar é a sua visão daqueles animais que são impiedosamente reduzidos à condição de laboratórios nutritivos — visão da qual nos oferecem a mais horrível ilustração as atuais criações intensivas de vitelos, porcos e galinhas. Igualmente profética é a ideia de que os animais que formam a terceira categoria se tornarão ativos colaboradores do homem, como atestam as missões cada vez mais diversificadas que são confiadas aos cães-guia, o recurso a macacos especialmente treinados na assistência aos deficientes, as esperanças depositadas nos golfinhos.
A transmutação de herbívoros em carnívoros também é profética – como o evidencia o drama das vacas loucas, embora nesse caso as coisas não tenham se passado do modo previsto por Comte. Primeiro, porque tal transformação talvez não seja tão original quanto se crê: pode-se sustentar que os ruminantes não são verdadeiramente herbívoros na medida em que se alimentam sobretudo de micro organismos que, estes sim, se alimentam de vegetais por meio da fermentação num estômago especialmente adaptado. Segundo, porque a transformação não foi obtida em benefício dos ativos auxiliares do homem, mas em detrimento dos animais qualificados por Comte como laboratórios nutritivos — erro fatal, já que, como ele próprio alertou, "o excesso de animalidade lhes será prejudicial". Prejudicial não apenas a eles, mas também a nós: ao lhes conferirmos um excesso de animalidade (convertendo-os antes em canibais que em carnívoros) não estaríamos involuntariamente transformando nossos "laboratórios nutritivos" em laboratórios mortíferos?
A doença da vaca louca ainda não atingiu todos os países. A Itália, creio, está indene até o momento e talvez assim permaneça, seja porque a epidemia se autoconterá, como predizem os especialistas britânicos, seja porque se descobrirão vacinas ou curas, seja ainda porque uma rigorosa política sanitária garantirá a saúde dos animais destinados ao abate. Entretanto, outros cenários são concebíveis.
Contrariamente às idéias correntes, suspeita-se que a doença possa transpor as fronteiras biológicas entre as espécies. Atingindo todos os animais de que nos alimentamos, ela se instalaria permanentemente entre os males nascidos da civilização industrial e que comprometem cada vez mais gravemente a satisfação das necessidades de todos os seres vivos. Já não respiramos um ar que não seja poluído. Igualmente poluída, a água não é mais aquele bem que se podia crer ilimitado: nós a sabemos contada, tanto para a agricultura quanto para o uso doméstico. Após o surgimento da aids, as relações sexuais comportam um risco fatal. Todos esses fenômenos transtornam e transtornarão profundamente as condições de vida da humanidade, anunciando uma nova era em que terá lugar, como simples decorrência, esse outro perigo mortal apresentado pela alimentação carnívora.
Mas esse não é o único fator que poderá constranger o homem a evitar tal alimentação: num mundo em que a população global provavelmente terá dobrado em menos de um século, o gado e outros animais de criação se tornarão temíveis concorrentes do homem. Calcula-se que nos Estados Unidos dois terços da produção de cereais se destinam a alimentá-los. E não nos esqueçamos de que esses animais, em forma de carne, nos fornecem um número de calorias bem inferior àquele que consumiram no curso de suas vidas (no caso da galinha, segundo me disseram, um quinto).
Uma população humana em expansão rapidamente necessitará de toda a quantidade atual da produção de grãos para sobreviver, de modo que nada restará para o gado e os animais de criação. Em consequência, todos os humanos deverão calcar seu regime alimentar naquele dos indianos e dos chineses, em que a carne animal cobre uma parte muito pequena da necessidade de proteínas e calorias. Será preciso talvez renunciar completamente a ela, porque à medida que a população aumenta há diminuição da superfície das terras cultiváveis (sob o efeito da erosão e da urbanização), das reservas de hidrocarbonetos e dos recursos hídricos.
Em contrapartida, os especialistas estimam que se a humanidade se tornasse integralmente vegetariana as superfícies hoje cultivadas poderiam alimentar uma população em dobro. É notório que nas sociedades ocidentais o consumo de carne vem diminuindo espontaneamente, como se o seu regime alimentar já começasse a mudar. Ao desviar os consumidores da carne, a epidemia da vaca louca não faz mais do que acelerar uma evolução já em curso. Ela apenas acrescenta um componente místico, gerado pelo sentimento difuso que nossa espécie expia por haver contrafeito a ordem natural.
Ainda que a encefalopatia esponjiforme (nome científico da doença da vaca louca e congêneres) se instale de forma duradoura, supomos que o apetite de carne não desaparecerá na mesma proporção. Mas sua satisfação se tornará uma ocasião rara, cara e cheia de riscos (o Japão experimenta algo parecido com o fugu, peixe tetraodontídeo de sabor delicado que se imperfeitamente limpo pode ser um veneno letal).
A carne figurará no cardápio em circunstâncias excepcionais, e será consumida com a mesma mistura de reverência piedosa e ansiedade que, segundo os antigos viajantes, impregnava o repasto canibal de alguns povos. Em ambos os casos, trata-se ao mesmo tempo da comunhão com os ancestrais e da arriscada e perigosa incorporação da substância de seres vivos que foram ou se tornam inimigos.
Os agrônomos serão encarregados de aumentar o teor de proteína das plantas alimentares, e os químicos de produzir proteínas sintéticas em quantidade industrial. Não mais lucrativa, a criação terá desaparecido completamente. Comprada em lojas de luxo, a carne provirá somente da caça. Nossos antigos rebanhos, abandonados, serão caça como outra qualquer em um campo entregue à selvageria.
Não se pode afirmar que a expansão de uma civilização que se pretende mundial uniformizará o planeta. Amontoando-se como hoje em megalópoles tão grandes quanto regiões inteiras, uma população terá evacuado outros espaços. Definitivamente abandonados por seus habitantes, tais espaços retornarão às suas condições arcaicas: aqui e ali surgirão as mais estranhas formas de vida. Em vez de caminhar em direção à uniformidade, a evolução da humanidade acentuará os contrastes, criando o novo e restabelecendo o reino da diversidade. Romper hábitos milenares — essa é talvez a lição de sabedoria que um dia haveremos de aprender com as vacas loucas.
Nádia Farage é antropóloga e diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
Notas
Este artigo foi publicado originalmente em Études Rurales, nº 157-58, 2001, pp. 9- 14. A tradução para o português foi originalmente publicada na revista Novos Estudos, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, edição 70, de novembro de 2004.
lançamento da Global e Lugar Comum
03/11/2009
Deu é amor
Faltando, se preenche
Começa assim. Melhor, começa com. Começa pelo meio, já é.
É o olhar, melhor, é a percepção que vai sendo educada para tirar – cada vez mais e com mais sutileza – do cotidiano, aquilo que se torna raro, aquilo que se torna caro e que, devolvido ao cotidiano, faz-se inaugurar uma brecha, uma fissura, encarnando uma infiltração com a qual, depois desse gesto, não se poderá voltar a ser o mesmo[1].
A queda de uma letra no meio de uma frase e pronto, aquilo ressignifica todo um discurso religioso, modifica toda uma possibilidade de apreensão dos fatos, desvelando algo que potencialmente estava inscrito lá, mas que ninguém tinha percebido ainda: Deu, é amor! Um S descolado de um letreiro de igreja, pendurado por um último parafuso que ainda resiste, mas in-utilizando a frase, tornando-a mais do que é, dobrando sua significação[2].
No contexto do real
Narrativas das façanhas cotidianas exigem contexto para que a idéia se multiplique em sensações, mesmo que nada se transforme em termos materiais, mesmo que nenhum objeto seja colocado no lugar, gritando por uma significação[3].
No centro de São Paulo, na rua São Bento, homens à paisana gritam “ótica, ótica, ótica”. Repetem tanto a frase que a cacofonia é explícita. No conturbado cotidiano das ruas centrais de São Paulo impera o caos dos objetos sendo vendidos no grito, pessoas correndo, passando, camelôs, homens-sanduíches, enfim, no centro de uma cidade óti-caótica-ótica alguém usa uma informação redundante, como se aquilo fosse um ponto cego de visão.

“Ponto Cego”, de 2007, de Rubens Pileggi Sá, disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=wM5MIvbuqBM
Roubar do cotidiano que nos rouba – exigindo respostas concretas a um mundo de informações, mensagens, prestações de serviços e tudo aquilo que seria para melhorar a nossa vida, mas só nos põe em pânico, neuroticamente, como em uma fila de dominós caindo uns sobre os outros, se autoperpetuando em necessidades efêmeras, em planos de saúde, segurança, conforto, gastos, prioridades inventadas – é quase um milagre[4]. E milagres é o que fazemos, quando, por exemplo, suspendemos nosso olhar objetivo e, com tanta objetividade quanto, compreendemos que a lixeira suspensa na calçada defronte as casas é o altar de oferendas do catador de lixo, atrás de seu precioso tesouro. É no tecido da realidade que tiramos nosso sustento, coletando e colecionando façanhas em nosso carrinho de textos, muitas vezes lixo para quem não sabe ver o valor extraordinário das coisas comuns[5].
Vivemos na maioria das vezes como maquininhas padronizadas em um sistema complexo que não abre brechas para a poesia. Aí está nosso alvo, então. De tanto ligar para a empresa de telefonia pedindo para suspenderem as ligações telefônicas durante a temporada que estaria viajando para fora do país, Edson Barrus começou a gravar as conversas com as atendentes da empresa, que sempre pediam para que ele ligasse “daqui uma hora” e isso foi ficando cada vez mais longo e constrangedor e é irresistível, menos do que ficar indignado, ficar com vergonha de algo que a gente não sabe bem o por quê. Não foi o gesto do artista que proporcionou um trabalho criativo, mas a ação do cidadão, revelando uma situação limite que foi parar na internet acessível a quem quiser ver aquilo que ele faz, misturando arte e vida.

“NET Central de Relacionamento: 4044-7777”, de 2008. Trabalho de Edson Barrus, que pode ser consultado em: http://br.youtube.com/watch?v=ae1kX8LR2E4&feature=channel_page
A síntese da análise
Em nossa época, o conceito de temporalidade é assumido como característica da obra e do processo de arte[6]. Isso quer dizer que partes diferentes de um mesmo conjunto podem ou não formar um só corpo e ser chamado de obra, modificando a relação entre a percepção analítica e sintética[7]. Contar uma história sobre uma pesquisa em processo, sem chegar a resultado nenhum pode ser tão “artístico” quanto uma escultura em bronze exposta no museu. Muitas vezes, o receptor, o “antigo” público, o espectador que agora passa à categoria de participador é quem deve ser mais criativo até, do que o próprio artista, criador de charadas.
Mas a linha clara, que aceita o trabalho de arte como uma resposta imediata a uma situação, também é merecedora, ainda, de nossa inteligência sensível. Aquela sacada direta, que vai ao ponto onde é preciso ser tocado. O chute de primeira, do sem pulo que faz a massa levantar na vibração do gol. Não é essa a impressão que dá a arte quando parece que tudo deveria ter sido da forma como foi feito, nem mais nem menos?
Paradoxal? Pode ser. Mas se estamos falando de arte, esperamos sempre uma virada de significado que nos prenda a respiração, que nos faça extasiar e depois nos coloque de volta ao planeta, embora nada mais esteja no lugar. Do contrário, é como achar que a prosa é poesia é ficar sem nenhuma das duas. E a poesia que é poesia, mesmo, não está para prosa[8], diga-se.

Tridente de Nova Iguaçu.
Cal sobre encosta do Morro do Cruzeiro, Nova Iguaçu. Alexandre Vogler, 2006.
foto: acervo do artista
Ca(u)sos
Quando Alexandre Vogler foi convidado pela prefeitura de uma cidade vizinha ao Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, para fazer um trabalho lá e o dinheiro prometido para o trabalho era menor do que o estimado, o que ele fez foi aceitar o novo orçamento, usar outro material e fazer outro desenho no lugar daquele planejado. O resultado foi um tridente pintado com cal branco em uma enorme pedra, cuja visibilidade era flagrante para quem passava naquela região. Do cemitério era possível ver, atrás, o enorme símbolo pintado.
Os evangélicos viram naquilo o símbolo do demônio. Os católicos se revoltaram. Jornais da imprensa marrom começaram a criar sucessivas matérias com aquela história. O jovem prefeito, um ex-líder de estudantes, do partido comunista, ao lado de padres e pastores, rezou uma missa para espantar o mal do local. Não podia perder seus fiéis, isto é, seus sagrados votos. Tudo isso sob o foco da imprensa.
Foram chamados os especialistas de várias áreas. Também os ecologistas, que alertaram para o perigo do pó branco poluindo o planeta. E resolveu-se que iriam fazer do local algo como um santuário. E iriam plantar flores no local. Mas veio uma chuva, limpou tudo e acabaram-se as especulações. Não sem antes ter tudo sido atribuído às rezas, que fizeram Deus lavar o chão conspurcado.
Vogler ainda reuniu todo esse material publicado e o re-publicou em uma revista de arte[9], transformando-o – agora sim – em uma estratégia de inserção de um processo de arte. Não foi o desenho, quer dizer, não foram as qualidade estéticas do traço do desenho que despertou tal interesse no público, mas a ação do artista trouxe questões para o mundo da arte que vieram de fora do mundo da arte, em princípio, alterando o cotidiano das pessoas e fazendo-as refletir sobre uma imagem[10].

“Ônibus Incendiado”, trabalho de 2003, de Guga Ferraz
Estratégias e táticas
A eficácia de uma ação é um dos componentes que ajuda a fazer com que um trabalho possa ser considerado ou não arte. Sua potência reside no fato de como mostrá-lo. Mas há aquelas que ganham, e muito, quando respondem a uma determinada situação que se faz presente, na urgência do instante. Táticas de guerrilha versus estratégias de guerra, como dizia o poeta Leminski[11]. Na guerrilha não há uma hierarquia, como na guerra, possuidora do rigor e da ordem militar, criando um sentido de vanguarda. Vanguarda esta que não se reivindica mais[12]. Nossa potência se insere mais no caráter das insurgências, das revoluções no cotidiano: mudança na rEtina, mudança na rOtina. No oco do buraco da letra O, como a olhar através de um binóculo, ampliar a leitura do mundo.
De fato, o que estamos tentando fazer é responder, pontuar e, muitas vezes, anteceder aos fatos, na urgência do instante que irrompe com velocidade e fúria. Romantismo? Tanto quanto o anagrama de Iracema dá América. A estratégia é dependente do estabelecimento de lugares, já com a tática muda-se de posição mesmo jogando com os mesmo dados, ou texto, ou letra[13].
Quando Guga Ferraz colou os adesivos representando labaredas sobre as placas indicando parada de ônibus, aquilo teve uma força incomensurável. O Rio de Janeiro vivia uma situação bizarra em que, todo dia, se queimavam ônibus na cidade. Ao amplificar um dado comum, Guga cria uma reverberação para aquilo que faz, tornando seu trabalho bastante político e crítico. Seu Bush impresso em serigrafia em pano de chão, no auge da invasão ao Iraque, é um exemplo disso. Conhecer o contexto e produzir a partir da realidade dada é a fonte criativa que temos encontrado para responder questões que, muitas vezes, antes de formulá-las, sentimos e precisamos expressá-las.

Ducha: “Tatuagem sobre homem mal remunerado”, Galeria Itaú Cultural, São Paulo, fevereiro de 2002.
Há outras possibilidades de criar tensão mesmo estando em uma situação institucional onde se espera ver “arte”. O trabalho em que Ducha paga um homem para tatuar na cabeça o símbolo de um banco e ir ao vernissage pela qual foi convidado a participar como artista, exibindo-o como trabalho seu, na galeria de arte deste mesmo banco, causou um sério desconforto nos patrocinadores e mecenas da arte, que preferem a arte domesticada, pendurada na parede, do que o uso, no limite da ética, de alguém como cobaia.
Arte até quando não se espera encontrá-la
Quando falamos em narrativas, estamos nos remetendo a isso mesmo, a uma literatura, ou melhor, a uma “contação” de histórias. Toda arte – mesmo um quadro modernista – está envolta em uma narrativa de histórias[14]. De façanhas mais ou menos heróicas. E a arte que prende, fascina, retira, mesmo que por um instante, o espectador de seu confortável lugar analítico e racional, suspendendo sua respiração, esta se torna épica.
Nesse caso, falamos em épica, aqui, no sentido de atravessar o mar, quer dizer, de passar de um lugar a outro, de um mundo a outro, refazendo o ciclo constante de vida e morte através de superações[15].
Ao mesmo tempo em que sabemos que não há autonomia do objeto artístico, sempre ansiamos, nesses casos, para que as relações entre narrativas – texto e contexto – atrapalhem o menos possível aquilo que possa tocar nossas sensações. Vale dizer, ansiamos pela imagem pura, pelo que nos toca de imediato sem a interferência da racionalidade. Antes do juízo crítico ou da dúvida ansiosa sobre o que queremos, de fato. Emborae saibamos que “a pureza é um mito”.
Ainda mais quando a relação é direta com o público, sem a intermediação de uma galeria ou de instituições artísticas, lugares onde, de fato, se espera encontrar ARTE e então nos decepcionamos, muitas vezes[16]. Do outro modo, quando a relação entre arte e vida se dá dentro do cotidiano das pessoas que nem sabem o que é ou não e arte, isso tem um outro tipo de potência[17]. É aí que se verifica a prova dos nove[18], pois diferentemente do jornalismo – e, ainda que se questione se a arte deve comunicar, também – a arte se qualifica por sua natureza não funcional e, menos ainda, como instrumento de poder. Como um gás extremamente volátil, ela sempre acaba encontrando vão e brechas para circular além da ordem racional imposta[19].

“A fonte”, intervenção de 1998. Rubens Pileggi Sá
Não é uma questão de “artistizar” a vida, conferindo-lhe uma artificialidade estranha, em nome de um estilo ou de uma forma pré-concebida. O grau de eficácia de uma ação nem sempre é o reconhecimento por parte da mídia de um novo herói das artes visuais. Isso quase nunca acontece. Nem mesmo o impacto de uma ação, causando polêmica, uma vez que a polêmica pela polêmica não leva a lugar algum.
É possível que ninguém fique sabendo daquela atitude de colocar as mudas de frutas na rua, que você teve o cuidado de plantá-las. Ou quando você urinou em um trecho da avenida e chamou aquilo de escultura, determinando um território de ocupação. Ou participar de uma bicicletada. Inventar um “dia do nada” e chamar outras pessoas para participarem. Mostrar a bunda para a polícia. Ser artista, ser ativista[20]. Estar no limite entre a arte e a traquinagem. Mas ninguém vai lhe roubar o fato de ter se atrevido a mudar a forma de ver as coisas por ângulos que transgridem a funcionalidade esperada e padronizada imposta pelos dirigismos do estado ou do mercado. Saltar e assaltar o cotidiano com a arma da poesia, com o milagre de encontrar em um jogo de palavras algo que está além do mero trocadilho barato, mas que, nem por isso deixa de satisfazer ao mero trocadilho barato, ainda que seja com responsabilidade sobre aquilo que é feito.
Obra Ob(r)a
Ninguém reivindica, nessas alturas do campeonato, novas formas, até porque isso iria contrariar a própria idéia de ação que estamos propondo.
O artista brasileiro Hélio Oiticica já se apropriava de eventos acontecendo na rua, chamando isso de “estado de arte”, como nos conta em “Aspiro ao Grande Labirinto”, em um texto escrito em 1966. Diz que entra em uma apresentação de uma banda, na rua, em um coreto e aquilo se torna arte, parte de seus propósitos de parangolé e arte ambiental[21].
Chegamos a um ponto, então, que tudo pode ser declarado com o nome de Arte. E se tudo é arte, então para que pensar sobre a arte ou sobre qualquer coisa? O fato é que o movimento e a mudança não deixam o processo se tornar estanque. Há leis interiores se refazendo constantemente. E, além disso, o artista plástico, artista visual, enfim, o artista trabalha – ainda que seja o pensamento e que o pensamento tenha a propriedade de criar conceitos – a matéria. E sendo o planeta todo feito de matéria, necessitamos compreender sobre aquilo que estamos fazendo[22]. Olho pela janela do quarto onde escrevo estas linhas e, antes que meu olho tome a paisagem, vejo no anteparo de madeira do basculante da janela um adesivo onde está escrito: “atenção: percepção requer envolvimento”. Somos livres para fazer o que quisermos, desde que estejamos comprometidos com o que queremos[23].
Um pequeno grande mo(nu)mento
Nesse sentido, o que está em jogo é a veiculação das possibilidades de circulação daquilo que o artista realiza, seja em que domínio for, uma vez que sua arte não está restrita a técnicas, suportes ou meios. Podemos fazer dela uma proposição para ser veiculada tanto na internet, quanto para outros meios de comunicação, como o rádio, o jornal, a tv ou o espaço urbano ou rural. Tanto para um quadro na parede quanto uma escultura de objetos reciclados ou um sopro. Não há fronteiras.
O que se coloca, assim, é que a realização dessa arte de atitudes, de ativismo ou do nome que se queira dar a ela – relacional, colaborativa, vivencial, crítica, de ação, etc. – convoca cada pessoa para subverter o cotidiano, a preencher o que é do comum com outra relação que não esteja somente vinculada à aridez racional dos lugares. Ao invés da construção de monumentos, o bater em retirada, o golpe enviesado, a busca pela diagonalidade, pelo atravessamento. Um agir e se esconder, deixando apenas resíduos como vestígios do acontecimento. Onde foi? Quem foi? Agora, já passou!
Pensar a experiência da arte como uma brincadeira espontânea de criança. Ao mesmo tempo, como um guerrilheiro que se move ladino no terreno a ser conquistado. Ser afirmativo e não negar o real. Fazer da falha, do erro e da precariedade, motor propulsor de linguagem poética[24]. Devemos ser éticos, a lei que nos siga. Legítimos, não legais, exatamente[25].
Canibalismo
Quando Ronald Duarte instalou o “Funk Proibidão da Coroa” (ou, “Proibidão da Coroa”) no Museu Imperial, fazendo uma analogia entre palavras e imagens com contextos conflitantes, como o Morro da Coroa – favela conhecida pelo tráfico, no Rio de Janeiro – e o quarto da princesa, filha do Imperador, o dispositivo que foi acionado não era mais o do antropófago que devora simbolicamente a força do inimigo[26]. Nem ao menos cabe o estruturalismo do pensamento selvagem[27] para que o guerreiro adversário ganhasse tal apego à vida, que tivesse medo de morrer. Nada disso, trata-se agora de ataque explícito contra o colonizador. De devoração pela fome, sem rituais. Comer a galinha dos ovos de ouro no almoço sem saber se vai ter ou não a janta. Não somos dignos de esperanças futuras, não fomos merecedores das glórias conquistadas no passado, só temos nossos dentes afiados para arrancar os pedaços da carne saborosa e macia da contemporaneidade.
O trabalho do Ronald, desse modo, é um respeitável exemplar de ato canibal puro e simples (se é que podemos falar em pureza e simplicidade) que responde aos discursos da multiculturalidade[28] abocanhando o turista etnográfico desavisado[29], perdido na floresta de signos com sua lente de aumento para a leitura do exotismo tropical tupiniquim[30]. O que o “Proibidão da Coroa” faz é devolver, em um golpe seco e direto, a violência da exclusão construída secularmente neste país.

“Funk da Coroa”, de 2007. Trabalho em que Ronald Duarte cobre as janelas da residência do Imperador com imagens da favela da Coroa, colocando, também, uma música para compor o ambiente. (Foto: Ana Miranda)
Vivemos na era dos rizomas[31], das redes, do fim das noções de fronteiras culturais e da crise da idéia de centro e periferia, mas, por outro lado, somos obrigados a conviver, ao mesmo tempo, com a estratificação da produção e a posse da mercadoria nos moldes impostos pelo império[32]; obrigados a conviver com a manutenção dos monopólios, com os latifúndios monoculturistas, os lobbies dos bancos e montadoras de veículos que estão, como nunca, mantendo de forma cada vez mais explícita seus privilégios diante da chamada crise financeira, usando, para isso, o dinheiro do Estado[33].
Bolsões de miséria se multiplicam e, ainda, justificado por discursos onde se usa esta mesma miséria para a manutenção dos mesmos poderes que se querem perpetuados, seja pelo paternalismo estatal, seja pela possibilidade de se tornar um consumidor de eletrônicos “made in China” do mercado globalizado.
Nossa única resposta vem da reação do corpo. E um corpo violentado só pode responder com violência e urgência. Matando por um par de tênis. Insistentemente pedindo qualquer coisa nas ruas. Entupindo os bons modos burgueses. Metendo medo na classe media. O canibal tem fome. Come o S de Deus, mata o homem, destrói a natureza na linguagem[34].
Coeficiente de arte e negociação
Quando Duchamp fala do “coeficiente de arte”[35] para medir se uma arte tem qualidades que lhe valham permanecer ou não na história, por que é que devemos crer que uma arte de coeficiente mais “alto” que outra deva ser mais importante que esta? Lembremos: o fator qualidade também é um critério de exclusão[36].

“Estratégias Para Responder à Situações Urbanas Complexas”, realizado no centro da cidade do Rio de Janeiro, em 2005, por Giordani Maia.
Foto: acervo do artista
Giordani Maia, com trabalhos que envolvem jogos e trocas com o público é um dos que apostam no abaixamento desse coeficiente. Assim, pode estar mais próximo aos comuns dos mortais, falando de igual para igual e, ao mesmo tempo, negociando relações de identidade e circuitos, onde o que é colocado em relevo sempre passa pela ordem do distanciamento crítico. Para Giordani, a definição, a priori, entre o que sou eu e o que é o outro, ou melhor, o que é do outro, é sempre uma relação construída culturalmente e é preciso compreender de onde vem a fala que nomeia o que é o que nesse tipo de relação[37]. Um de seus trabalhos transforma as esculturas do escultor modernista e formalista Franz Weismann em cartões postais da cidade do Rio de Janeiro. Com pessoas que o artista aborda na rua e depois lhes manda a foto tirada diante da escultura, com perguntas do tipo “o que é arte para você”, recria aquela situação de uma arte realizada para ser vista no “cubo branco”, mas que se torna “pública” porque “instalada” nas ruas da cidade.
Tirar da arte, a arte
Tirar a arte da arte para torná-la domínio do comum, abrindo-a para linhas de fuga onde o corpo da ação funde-se com o corpo do texto, não rouba a mágica do entretenimento e nem a razão da representação. Em última instância, tudo é e representa, ao mesmo tempo. Se inventamos o fim do trágico como tragédia, humanizando não o mito, mas enfocando as paixões humanas, o drama, é porque assumimos o exótico, o folclórico e o alegórico, uma vez que é sempre melhor representar – mesmo que seja mostrando aquilo que esperam de nós – do que não ter corpo para ser representado. É preciso o corpo morto para se fazer necropsias, nem que for o nosso próprio, o do homem cordial[38]. A farsa é sincera, nesses casos. E o comum se torna diferente, voltado para a leitura que desmancha a lógica[39], adicionando significados que estavam fora da percepção.
Os palíndromos de Luís Andrade são exemplos dessa ambigüidade assumida como ferramenta criativa. Levam ao limite do anagrama o sentido do destino, fazendo do nome de sua própria filha um jogo com a linguagem, relacionando arte e vida de maneira mais do que reflexiva, intransitiva, em direção À[40]. Sim, há! À tornado letra que se contraí e se desdobra nela mesmo. Sim, há! E há de haver porque a máquina de produzir sentido passa por marcas, sinalizações, indicações, avisos e apelos comerciais já com o olhar subvertido, de olho nas armadilhas que o próprio texto e o contexto tinham assumido como destino. Como grafou o próprio artista – em consonância ao título deste presente texto – junto à obra que o artista Jarbas Lopes realizou no Arizona Art Museum, em 2007: “O ASMODEU É DEUS, UÉ? DEU É DOM SÃO”.

AVA, de Luis Andrade & Nicole Ann Ryan, 2008
O outro como o mesmo. Você é exótico, você é daqui. O plágio como brincadeira, como jogo. O rotulado não entendido. Tirar da arte, a arte e suspender o cotidiano dentro do cotidiano. Criar o jogo. Inventar o eu no meio de Deus. Nós no meio de Deus. Cotidianamente. Ser, com a criação, um. Fundar o NÓS[41] como um presente que Deus me deu. O anjo caido da palavra. Deu, é amor[42]. Amor é humor[43].
Bibliografia:
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WATTS, Alan W. O Espírito do Zen. São Paulo: Editora Cultrix, 1999.
Periódicos:
Revista Concinnitas, N. 09, UERJ, Rio de Janeiro, julho de 2007
________________ N. 12, UERJ, RJ, julho de 2008
________________ N.13, UERJ, RJ, dezembro 2008
Dissertações:
MESQUITA, André Insurgências poéticas: arte ativista e ação coletiva (1990-2000). Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História. São Paulo, 2008.
Artigos:
MAIA, Giordani. Identidade, Circuito e Distância Crítica (inédito) 2007.
Discografia:
Barão Vermelho Maior Abandonado. Rio de Janeiro: Gravadora Som Livre, 1984.
Tom Zé Com defeito de fabricação. Rio de Janeiro. Trama, 1998
Citações na Internet (por ordem de entrada no texto):
Koan: http://pt.wikipedia.org/wiki/Koan
Dubuffet: http://www.galeriavirgilio.com.br/exposicoes/0503.html
Duchamp: http://n0panic.blogspot.com/2004/11/f1-16-o-acto-criativo-marcel-duchamp.html
Basbaum: http://www.nbp.pro.br/
CC – Creative Commons:
Livre para reprodução, uso, transformação integral ou parcial, desde que o autor seja notificado do caminho seguido pelo texto ou parte dele.
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[1] Tal qual o paradoxo da linguagem no Koan que, para o Zen Budismo é: …é uma narrativa, diálogo, questão ou afirmação que contém aspectos que são inacessíves à razão. (Consultado em http://pt.wikipedia.org/wiki/Koan – 05/02/200 – 15h) Dois autores que ajudaram a difundir a doutrina Zen no Ocidente foram Alan Watts (1999) e John Cage (1985): “Antes de se iniciar no Budismo, o discípulo vê o céu e a montanha como céu e montanha. Quando inicia a prática budista, nem o céu nem a montanha são mais as mesmos. E, finalmente, o céu volta a ser céu e a montanha, montanha, depois de se ter tornado um budista”.
[2] Seria uma espécie de anjo caído dos céus (Ezequiel, cap. 28), tornando humana as paixões divinas.
[3] Deleuze: pensamento como matéria; Beuys: “pensar é esculpir”; Fótons que se movem enquanto pensamos. E, John Cage, em sua famosa “Conferência Sobre o Nada”, de 1949:
“…Eu não tenho nada a dizer/ e estou dizendo/ e isto é poesia como eu quero”. Tradução de Augusto de Campos, in O Anticrítico. SP, Companhia das Letras, 1986)
[4] Cazuza já cantava, em1984: “Todos choram/ Mas só há alegria/ Me perguntam/ O que é que eu faço?/ E eu respondo:/ ‘Milagres, milagres’”.
[5] Como coloca Mario Perniola, à respeito do Situacionismo: “El concepto de vida cotidiana nace del contexto sociológico como contrapuesto a la actividad especializada, como aquello que queda cuando se prescinde desta última” (Perniola, 2007: 58).
Um exemplo prático ocorreu no ano de 1992, quando realizei um trabalho com funcionários de uma empresa, em São Paulo – BANESER – cujo título “O cotidiano como obra de arte”, remetia às possibilidades de alterar a relação com o ambiente de trabalho através da percepção do contexto onde estes funcionários estavam inseridos. Partindo de uma idéia comum com os participantes do workshop, colocamos caixas para cada andar do prédio, que funcionavam como “filtros da realidade”, ou como “amplificadores de situações dadas”.
[6] Particularmente depois dos anos 60, quando a idéia de fluxo e processos (work in progress) incorporam-se à idéia de “obra”. Podemos citar como exemplo as heranças advindas das ações do grupo Fluxus e dos Situacionistas. E, também, a partir das experiências de artistas visuais com o meio cinema e vídeo, vinda de técnicas de montagem e colagem dos anos 20.
[7] Negando a sucessividade analítica, declara o escritor argentino JorgeLuis Borges no prólogo de seu livro “Histórias da eternidade” que: “Hume negou a existência de um espaço absoluto, em que cada coisa tem seu lugar; eu, a de um único tempo, em que todos os fatos se encadeiam. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão.” (BORGES, 1999: 155)
[8] Comentando sobre significado e significante em Saussure, Hakin Bey escreve no pequeno livro TAZ (Zonas Autônomas Temporárias) que, no “Caos Linguístico”, “a linguagem pode criar liberdade a partir da confusão e da decadência da tirania semântica” (2001: 77).
[9] Revista Concinnitas, nº 10, UERJ, Rio de Janeiro, julho de 2007.
[10] No evento “Arte em Circulação”, em Curitiba, Paraná, realizado entre maio e junho de 2008, na Caixa Cultural, Alexandre Vogler assim comenta sobre seu próprio trabalho: “Inserir um dado virótico nos meios de comunicação e detonar algumas associações que agem criticamente com a própria paisagem e com a forma com que essa paisagem é cooptada pelo mercado e pelo poder público também”. (Ver o catálogo do evento)
[11] LEMINSKI, 1999: 48.
[12] PERNIOLA, opus cit.: o próprio subtítulo do livro já trata de forma direta sobre tal tema: Historia Crítica de la Última Vanguardia del Siglo XX.
[13] Sobre a distinção entre estratégia e tática em Michel de Certau (1996), o sítio da wikipédia, na Internet, traz a seguinte informação: “O tático se manifesta não em seus produtos, mas na sua metodologia. Ele pode ser executado por um indivíduo ou um grupo temporário que não dura o suficiente para precisar de um nome”.
http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Inven%C3%A7%C3%A3o_do_Cotidiano. Ver, também, o texto “De las Prácticas Cotidianas de Oposición” (2001: 398, pp 02).
[14] Mesmo que seja para defender a superfície, a não-representação, a coisa em si. Tudo isso é parte de discursos.
[15] “Um poema épico, ou Epopéia é um poema heróico narrativo extenso, uma coleção de feitos, de fatos históricos, de um ou de vários indivíduos, reais, lendários ou mitológicos”. Consultado em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Poesia_%C3%A9pica (15/01/2009)
[16] “A verdadeira arte está sempre onde não a esperamos”, segundo disse Jean Dubuffet, nos anos de 1950. http://www.galeriavirgilio.com.br/exposicoes/0503.html
[17] MACIUNAS, George: Neodadá em música, teatro e belas-artes (1962), in Escritos de Artistas. Anos 60/70 (2006: 81); “a anti-arte é a vida, a natureza, a realidade verdadeira – ela é um e tudo. A chuva que cai é anti-arte, o rumor da multidão é anti-arte, um espirro é anti-arte, um vôo de borboleta, os movimentos dos micróbios são anti-arte”.
[18] Expressão retirada do poeta modernista Oswald de Andrade: a alegria é a prova dos nove.
[19] LEMINSKI (1997: 78): “A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio”.
[20] Claire Bishop, no artigo “A virada social: colaboração e seus desgostos” (2008), aponta para as possibilidades, ou não, da coadunação entre o “estético” e “ativista”. Comentando o trabalho de alguns artistas como Phil Collins, Aleksandra Mir e Francis Alÿs, coloca que: “em vez de se posicionarem em linhagem ativista, na qual a arte é guiada para efetuar transformações sociais, esses artistas têm estreita relação com o teatro de vanguarda, performance, e teoria arquitetônica”.
[21] Discorrendo sobre “apropriações ambientais” a partir de uma idéia de obra-obra, Hélio Oiticica diz que: “…, e já que não posso transportá-las, aproprio-me delas ao menos durante algumas horas para que me pertençam e dêem aos presentes a desejada manifestação ambiental” (OITICICA, 1986: 80).
[22] “Denken ist Plastik!” (pensar é esculpir), dizia o artista alemãoJoseph Beuys (Alemanha, 1921-1986).
[23] “… a forma toma consistência e adquire uma existência real só quando põe em jogo as interações humanas; a forma de uma obra de arte nasce de uma negociação com o inteligível”. Bourriaud, in Estética Relacional (2006: 22 e 23)
[24] Ver exemplos como “a estética da pobreza”, em Brecht ou, para citar um exemplo mais próximo, “Com defeito de fabricação”, disco de Tom Zé, de 1998.
[25] Ações de Mídia Tática, como as promovidas pelo coletivo encabeçado pelo artista dos E.U.A., Igor Vamos, “Barbie Liberation Organization”, de 1993, assim como da dupla de ativistas do Yes Men, que se infiltram no contexto das mídias de massas ridicularizando grandes corporações, dão bem idéia dessa situação. (MESQUITA: 2008)
[26] Ver Manifesto Antropófago, de 1928, de Oswald de Andrade, que assim começa: “Só a antropofagia nos une”.
[27] LEVY-STRAUSS: 1983
[28] Pensando no conhecimento do selvagem enquanto ser nomeado pelo homem civilizado, BEY (opus cit.) é contundente: “É claro que os nativos possuem um certo conhecimento oculto. Mas em resposta a esta percepção imperial de sua cultura como uma espécie de ‘espiritismo selvagem’, os nativos começam a se enxergar neste papel de forma cada vez mais consciente”.
[29] Em BHABHA: 2002, p 24: “Os próprios conceitos de culturas nacionais homogêneas, a transmissão consensual ou contígua de tradições históricas, ou comunidades étnicas ‘orgânicas’ – enquanto base do comparativismo cultural – estão em profundo processo de definição”.
[30] Montados nos bancos de trás do jeeps que os levam para “conhecer” as favelas, gringos ganham uma opção a mais de turismo e adventures na Cidade Maravilhosa.
[31] Segundo o sítio wikipédia, na internet (opus cit.) o rizoma, na filosofia, é um conceito emprestado da botânica, assim: “… a estrutura do conhecimento não deriva, por meios lógicos, de um conjunto de princípios primeiros, mas sim elabora-se simultaneamente a partir de todos os pontos sob a influência de diferentes observações e conceitualizações”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Rizoma_(filosofia) – Consultado em 15/01/2009.
[32] NEGRI, 2001
[33] A referência está ligada ao que vem sendo chamado de “crise internacional do sistema financeiro” que explodiu depois do segundo semestre de 2008.
[34] “É nesta zona de tensão que novos problemas são colocados, e no que tange à identidade, esta implica em uma rearticulação de territórios e fronteiras econômicas e políticas”. MAIA, 2008
[35] DUCHAMP, Marcel, O Acto Criativo – (1957), trad. Rui Cascais Parada. Portugal: Água Forte, 1997.Consultado em http://n0panic.blogspot.com/2004/11/f1-16-o-acto-criativo-marcel-duchamp.html – às 10/01/2009 – 18hs
[36] No ensaio intitulado Gilles Deleuze: Platão, os gregos, assim coloca PELBART (1997): “O platonismo aparece como doutrina seletiva, seleção dos pretendentes, dos rivais. (…) A Idéia é posta por Platão como o que possui uma qualidade primeiro (necessária e universalmente); ela deverá permitir, graça à provas, a determinar o que possui uma qualidade em segundo, terceiro, segundo a natureza da participação. Tal é a doutrina do julgamento”.
[37] No artigo inédito Identidade, Circuito e Distância Crítica, Giordani (opus cit.) desenvolve um raciocínio crítico que vai de encontro à idéia de um outro cultural, baseado nos textos do crítico Hal Foster e levando em consideração a relação entre arte e negociação.
[38] O presente ensaio, particularmente nestas alturas do texto, toma como matéria de debate, ou melhor, de embate, o capítulo “O político e o psicológico: estágios da cultura”, do livro de Roberto Corrêa dos Santos, Modos de fazer/ Modos de adoecer, que traz a idéia de identidade nacional através da antropofagia de Oswald de Andrade, alinhavando a questão do trágico, a partir de Nietzche, em oposição a Eurípedes, que é acusado de “aproximar público e cena”.
[39] “Passar do outro lado do espelho é passar da relação de designação à relação de expressão – sem se deter nos intermediários, manifestação, significação. É chegar a uma dimensão em que a linguagem não tem mais relação com designados, mas somente com expressos, isto é, com o sentido”.( DELEUZE, 1998: 27)
[40] Ver, de Ana Paula de Miranda, “Poesia com dromos: ‘À’ de Luis Andrade: O encontro-reflexo dos dois lados do espelho” (Revista Concinnitas, ano 9, volume 2, número 13, dezembro 2008).
[41] Sigla que representa Nova Ordem Sensorial, assim como NBP, de Ricardo Basbaum, quer dizer Novas Bases da Personalidade (ver em http://www.nbp.pro.br/)
[42] Citando um ativista do Movimento Neoista – um dos muitos movimentos históricos de subversão e utopia analisados no livro “Assalto à Cultura” – Stewart Home (1999: 173) assim coloca: “… Se Deus está em toda parte, todos são Deus; e porque Deus não peca, o pecado não existe. O inferno é simplesmente deixar de fazer as coisas que desejamos – enquanto a blasfêmia, bebidas e fornicação são atos sagrados”.
[43] Amor/humor é um poema pré concreto de Oswald de Andrade, de 1927 (in: poesias reunidas, 1971). E, a IGREJA DA SALVAÇÃO PELA GRAÇA, DEUS É UMOR! do multi artista curitibano Hélio Leites, desde, pelo menos, 1991.
30/10/2009
cutrale e o mst
Empresa representa o processo de concentração de terras, produção e capital ensejado pelo modelo de subordinação da agricultura brasileira
23/10/2009
Ariovaldo Umbelino
O episodio da ocupação pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de uma das fazendas “invadidas” pela empresa Cutrale, de terras públicas da União na região de Iaras (SP), suscitou todo tipo de especulações na imprensa e, sobretudo, motivou os parlamentares ruralistas a pedirem uma nova CPI do MST e da reforma agrária.
Sobre o caso, ficou evidente a manipulação da mídia ao veicular a cena da derrubada de pés de laranja pelas famílias. Reprisado insistentemente em todos os programas, por todos os canais de televisão, foi o suficiente para demonizar todas aquelas pobres famílias que estão há mais de cinco anos debaixo de lonas pretas esperando o direito de trabalhar na terra.
Vandalismo!
A chamada “grande” imprensa não quis continuar pesquisando as outras denúncias de depredação de máquinas e “roubos” de casas de empregados, pois ficou evidente o circo armado pelo serviço de inteligência da Polícia Militar (PM), em conluio com a empresa, para criar um clima desfavorável às famílias. Logo, todas as autoridades, colunistas, políticos e assemelhados foram para a mídia esbravejar: vandalismo, vandalismo! Sem pensar e se perguntar quem teria feito de fato aquilo.
As famílias negam que tenham furtado qualquer objeto e destruído tratores. Aliás, para destruir tratores, precisariam, convenhamos, de uma certa dose de força bruta. E mais. Por que não se fez uma investigação? Uma simples perícia iria identificar que aqueles tratores estavam desmontados há muito tempo pela oficina de reparos da empresa, existente na fazenda.
Mas tudo isso é manobra dispersiva. Primeiro, para esconder que na região há 200 mil hectares de terras da União que vêm sendo sistematicamente griladas. E griladas por empresas cujos donos circulam por altas rodas da socialite paulistana. Mas mesmo assim o Incra já recuperou mais de 20 mil hectares que hoje assentam famílias de trabalhadores. Segundo, para esconder que a Cutrale “comprou” a área há apenas 5 anos, sabendo que não havia titulação, que havia um processo na Justiça por reintegração de posse pelo Incra. Por que então a Cutrale apostou em comprar terras baratas e griladas e enchê-las de laranja? Graças a seu poder de influência na sociedade brasileira e paulista.
A Cutrale é o símbolo do processo de concentração de terras, produção e capital ensejado por esse modelo de subordinação da agricultura brasileira aos interesses do capital internacional.
Omissão
Ninguém da “grande” imprensa noticiou que a Cutrale possui nada menos do que 30 fazendas em São Paulo e Minas Gerais, totalizando 53.207 hectares. E que, destes, seis fazendas com 8.011 hectares são classificadas pelo Incra, no recente cadastro de 2003, como improdutivas; portanto, passíveis de desapropriação. Entre as 30 fazendas não consta a área grilada de Iaras, pois não é de sua propriedade (veja tabela abaixo).
Uma colunista teve coragem de noticiar os vínculos partidários e as polpudas verbas gastas pela empresa nas campanhas eleitorais, em apoio a todos os partidos.
O fato é que a Cutrale é símbolo desse modelo de agronegócio subordinado ao capital internacional. Uma empresa de origem familiar do interior de São Paulo se vincula ao mercado externo, se associa com a Coca-Cola e passa a controlar, em poucos anos, a maior parte do mercado de laranja do Brasil e 30% de todo o mercado mundial de sucos. Hoje, cerca de 90% do suco produzido no Brasil é exportado.
Monopólio
Em poucos anos, o setor se transformou, de muitas e médias agroindústrias e de milhares de pequenos e médios produtores de laranja, num setor altamente oligopolizado. Hoje são apenas quatro grupos que controlam toda laranja: Cutrale (mais ou menos 60%); Citrosuco; Louis Dreifus Commodities – LDC (francesa); e Citrovita, da Votorantim.
A Cutrale tem esse poder todo porque possui uma empresa associada (joint venture) à Coca-Cola mundial nos EUA, de quem é fornecedora exclusiva em escala mundial. Por isso sua condição de empresa “Ltda.”, pois já é parte (menor) do monopólio mundial da Coca-Cola.
Numa reportagem de 2003, a insuspeita revista Veja denunciou a empresa Cutrale de ter subsidiária nas ilhas Cayman, como forma de aumentar seus lucros, ou quem sabe de evasão fiscal... e saiba Deus mais o quê.
Exploração
Essas empresas passaram a comprar terras e assim garantem uma base da produção de laranja suficiente para impor preços e condições draconianas aos pequenos e médios agricultores que antes produziam laranja para um mercado concorrencial. Os trabalhadores dos laranjais são superexplorados com salários ridículos, pagos por produção, sem nenhum direito trabalhista.
O resultado de todo esse processo foi que milhares de pequenos e médios agricultores tiveram que abandonar a produção de laranja. Entre 1996 e 2006, foram destruídos, segundo o Censo Agropecuário do IBGE, somente em São Paulo, nada menos do que 280 mil hectares de laranjais.
Mas a Globo não fez nenhuma reportagem. Nem o serviço de inteligência da PM de São Paulo se preocupou em filmar porque os pequenos e médios agricultores estavam destruindo seus laranjais!
Os parlamentares ruralistas realmente não têm consciência de sua classe – da burguesia rural. Em vez de defendê-la, ficam sempre puxando o saco da burguesia internacional. Razão tinha mesmo o nosso saudoso Florestan Fernandes: faltou-nos uma revolução burguesa nesse país, que pelo menos lhe desse sentido de classe e consciência de nação.
Ariovaldo Umbelino de Oliveira é doutor em Geografia, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Departamento de Geografia Humana – da Universidade de São Paulo (USP). É estudioso dos movimentos sociais do campo e da agricultura brasileira e autor de vários livros.



