22 de ago de 2006

hip hop e eu (final)

Mais frases extraídas do livro “Hip Hop e Eu”, de Sérgio Ezequiel de Souza. Agora do Quarto Capítulo em diante:

“Minha irmã começou a namorar um cara com o nome de Sidnei. (...) Ele começou a ir em casa direto e num desses dias...
...
Fumávamos um baseado e trocávamos idéias sobre o crime, quando ele falou... (...) E eu chamei-o para fazer outros comigo no Centro.”

“... e tirei toda a gaveta do caixa para fora.
...
Fui catando e colocando no bolso e o Sidnei já foi indo para a porta da perfumaria, que tinha vários espelhos. Peguei todo o dinheiro e saímos.”

“Quando você é um ladrão que não dá vacilo com ninguém você é considerado em qualquer quebrada.”

“Fomos atrás do Marquinhos Gambá onde ele trabalhava de mecânico, e trocamos umas idéias sobre armas para o assalto.
...
E começamos a discutir como iríamos enquadrar (assaltar) o mercado.
...
Chegamos ao local do assalto. O mercado ficava numa avenida bem movimentada...
...
Quando o Sidnei fingiu passar pelo caixa, eu dei voz de assalto, já com o revólver na mão. O Gustavo já arrancou a 12 e ficou na porta para ninguém sair. O Sidnei abriu a maleta e foi pegando o dinheiro que estava nos caixas.
...
Corremos para o carro. O Marquinhos já foi ligando rapidamente o carro e saiu cantando pneu.”

“Começamos a repartir as notas maiores quando o Marquinhos percebeu vários carros parando em frente à casa e pediu para o Gustavo ir ver o que estava acontecendo. Quando o Gustavo estava se aproximando, os policiais arrombaram o portão e foram entrando. (...) Eu corri até um quarto quando dei de cara com um policial encapuzado dizendo para que eu soltasse a arma. Eu soltei. Ele mandou que eu deitasse no chão. Deitei. Um outro policial já veio me algemando.”

“Chegamos na Décima. Tinha muitos policiais e a imprensa e a televisão já estavam lá.”

“Sidnei, Marquinhos e o Gustavo, que eram maiores de idade, foram para o Terceiro Distrito e eu fui para o Segundo Distrito que chamavam de CETREM (Centro de Triagem e Recepção de Menores).”

“Chegou minha vez de entrar. Pedi licença. A promotora olhou na minha cara e disse: ‘Sérgio Ezequiel de Souza, você pediu licença quando entrou para assaltar o supermercado?’ Respondi que não. Ela falou ‘157, né?’ Balancei a cabeça afirmativamente. Então ela falou ‘tira esse moleque da minha frente!’ Minha mãe começou a chorar.”

Bom, daí em diante nosso personagem passa 44 dia no X, começa estudar, fazer terapia, mas ao mesmo tempo, a traficar. E a coisa realmente vai ficando pesada – mais pesada ainda. E foi em uma dessas que, tendo de pagar pela maconha que lhe foi roubada, voltou a assaltar. A polícia o prendeu novamente, só que desta fez ele já tinha completado 18 anos e foi parar no presídio comum. E passar pelo sistema prisional no país é traumático. E de lá não se sai incólume.
Sérgio teve a sorte de ter sido assistido pelo marido da psicóloga que o acompanhava na escola. E prometeu não mais voltar à prisão.
Já fazia algumas apresentações de Hip Hop no colégio em que estudava, começou a ensaiar, se apresentar e isso coincidiu com a campanha e a vitória do PT na cidade, que começou a dar ênfase na inclusão social e na cultura Hip Hop, apoiando shows, encontros e gravação de cds.
Sérgio montou seu grupo, teve projetos aprovados. Foi convidado a ser professor do mesmo lugar onde já estivera uma vez, como menor infrator. Viajou bastante por conta do Hip Hop, etc.
Dessa autobiografia, sem dúvida, as páginas mais tocantes são aquelas que expõem a situação dos meninos de periferia, de forma geral. E, por mais que se condene a violência e o uso de drogas, não há como condenar essas crianças, que são frutos da desigualdade social. Em um país em que – infelizmente – a miséria é tratada como produto de manipulação de políticos e mercadores que se servem dela para se manterem no poder.
Por fim, sem ter outro modelo para se espelhar, ou porque, ao se afastar da miséria, do crime e das drogas, o novo status social lhe foi suficiente para satisfação de seus anseios, Sérgio, ao final do texto, mostra sua ideologia:

“..., pois depois que deixei as drogas e comecei a cantar e fazer esses trabalhos sociais comecei a ver o mundo com outros olhos sem muito preconceito contra a elite.”

“Não só através do Rap mas também com as oficinas de Break eu consigo alcançar meu objetivo que é fazer com que essas pessoas procurem pensar mais na vida, procurarem uma escola para estudarem, largarem o mundo do crime e começarem uma nova vida como eu comecei...”

Nessas alturas, o leitor que conseguiu chegar até aqui já estará curioso por ler o livro, mesmo sabendo que há erros crassos de gramática e que há, afinal, uma moral da história. Mas que nem uma coisa nem outra impedem a fruição de sua leitura, que é uma história comum entre a massa de excluídos, hoje em dia. E que nós, que nos sentimos tão ameaçados, não temos a mínima idéia como é que ela se desenrola.

2 comentários:

célia musilli disse...

Oi, Rubens, seus comentários sobre o livro do Sergin me instigam a lê-lo. E obrigada por me postar no blog do Dia do Nada. Mas, por favor, me envie o endereço dele. Parece que não está linkado aqui e procurei no Google e no blog do Marião, onde eu o vi linkado, mas não encontrei. Ou eu que estou ficando cega, sei lá..Enfim, me envie o link.. Um beijo e obrigada pela força.

célia musilli disse...

Rubens, reconfigura o blog do Dia do Nada. Do jeito que está não dá pra postar comentários, a não ser queo visitante tenha blogger..Ou não é pra comentar NADA???? rsss Um beijão.

P.S. E linkei o dito cujo no Sensível Desafio..