13 de ago de 2006

trecho do livro "o hip-hop e eu

Eu tive um professor de história no cursinho, em 1999, que dizia, sobre a violência que chegou à cidade de Londrina depois, principalmente, de 1975, quando a mono-cultura de café foi substituida pela mono-cultura de soja, devido ao inchaço promovido pelo desemprego no campo, que "a primeira geração de miseráveis pede, a segunda geração rouba e a terceira geração mata".
Lendo o livro "O hip-hop e eu - uma biografia", de Ségio Ezequiel de Souza, "Sergin", patrocinado pelo PROMIC-Secretaria de Cultura de Londrina e editado pela Artito Art, a frase do professor acabou sendo recheada com as cenas narradas pelo personagem/autor, nascido em 1980, que viveu essa realidade na carne, na periferia de Londrina, tendo que mudar, constantemente, de um lugar a outro, com a mãe e irmãos, indo morar em lugares cada vez mais desumanos.
Ainda não terminei de ler o livro, mas vão aí algumas frases, tiradas aleatoriamente de dentro dele:

"...na falta de um pai ou de um padrasto e, na ausência de minha mãe, o 'homem' de casa era eu, que tinha apenas 6 anos."

"...chegávamos nas barracas da feira e espiantávamos os caixas dos comerciantes e até as carteiras das pessoas que estavam comprando...
furtávamos tudo o que podíamos levar. Tudo isso era para curtir o Flash Dance aos domingos à tarde."

"comecei a ficar desesperado vendo minha irmazinha mais nova - Andressa - chorando de fome, querendo leite."

"O policial encapuzado deu várias borrachadas nas minhas costas, enquanto dois me seguravam e o sargento Félix fazia uma pressão psicológica com a pistola."

"O pai do Paçoca via tudo aquilo e nem ligava. Tudo alí parecia normal: fumar um baseado na rua, a molecada cheirando cola, as meninas fazendo sexo com uma 'pá de caras' (sexo grupal). E eu e o Marciano alí no meio daquele furacão."

"Ele disse 'Eu vou chegar, abro o carro e você cai pra dentro. Você olha debaixo dos bancos enquanto eu arranco o toca-fita'. (...) O Piá arrancou o toca-fita e eu só achei uma faca."

"Quando o carro era mamão, era eu que cantava a micha (a micha 'canta' qundo faz um barulhinho característico, como um metal raspando em outro, ao abrir a porta)."

"E fomos então para o União da Vitória (morar com a família), o bairro tão falado na mídia pelo alto índice de criminalidade".

"O moleque então armou uma casinha (ou seja, uma emboscada) para que um outro cara, chamado Deílton, me catasse e me desse umas facadas."

"Com uma ano e meio, eu e minha família morando naquele cômodo... perdi todas as esperanças de alcançar algum objetivo na vida."

"Com toda a confusão, não se podia confiar em ninguém. Esta foi a primeira coisa que eu aprendi no união da Vitória. A segunda é que eu tinha que andar armado, ou com os caras que faziam as fitas erradas (as fitas são os roubos e furtos) para ser respeitado. E, terceiro, não se fica devendo droga para ninguém, especialmente aos traficantes. Ainda há uma quarta regra: não se deve envolver com qualquer mina, pois havia muitas mulheres de ladrão; ese envolver com qualquer uma delas era morte na certa. e assim ditavam as regras paraser um malandro esperto!"

"Então arranquei da cinta o que eu tinha achado na mansão.. Os caras cresceram os olhos e começou a discussão para saber quem ia ficar com a arma. Eu propus então que não queria nada dos objetos roubados. Só o 38."

"Nós roubávams todos os boyzinhos que encontrávamos pela frente. Ás vezes não precisava nem scar o revólver. Bastava mostrar o cabo erguendo a camiseta. Eles tremiam na base! E já tiravam o boné, o tênis e até trocavam de roupas com a gente, dependendo do local."

"Então dei a primeira bola e notei imediatamente que minha boca e minha garganta adormeceram. O coração disparou. Minhas mãos ficaqram tremendo. (...) Eu tinha a impressão de escutar tudo muito longe."

"E passei a furtar para manter o vício."

"Com alguns meses andando direto com os caras que fumavam mesclado, em vendi minha arma em troca de uma quantidade de pedra (nóia); e tive meu primeiro contato com a nóia pura, queimado no cachimbo ou em latas de refrigerante."

"Eu já estava tão acostumado a ver corpo caído no chão que, quando via um, era como se fosse um bicho. Aliás, para mim, não fazia a menor diferença entre matar uma pessoa ou um animal. só sentia quando era um colega; ou de fumo, ou de curtição nas noites."

"Só sei que no União, e em qualquer periferia, ninguém morre de graça. O preço varia: de um real até o respeito conquistado na marra."

"E por causa de brigas assim aconteciam outras brigas, geralmente mais violentas. Pois os caras matavam o irmão de um outro que não era florde ser cheirada; e que, por sua vez, matavam aqueles que matavam seu irmão ou seu amigo. (...) Todo final de semana tinha um ou dois - ou até mais! - mortos na região da Zona Sul."

"Eu precisavva de dinheiro para pagar um cara que passava maconha. (...)
O assalto foi numa farmácia. (...)
Na minha cintura tinha um 38 e na do parceiro uma garrucha 38. (...)
Eu ficava o tempo todo pensando "Vai chover polícia!"

"Aí o noiado começou a me contar que o traficante do Santa Joana, que se chamava Baco, estava invocado comigo. Perguntei o motivo. Ele respondeu que a polícia estava atrás de mim na vila, e que estava queimando o ponto de tráfico do Baco no Santa Joana, ..."

"Aconteceu algumas vezes eu trocar meu tênis, minhas bermudas e camiseta por nóia. (...)
Eu mesmo já vi pai de família fumar o dinheiro do leite das crianças e até o enxoval do neném; do bebê dormir em carrinho, em vez de ter um berço. Já vi meninas grávidas trocando roupas de neném por nóia. ..."

Bom, parei aí no terceiro capítulo. depois tem mais.

2 comentários:

célia musilli disse...

Tô sabendo deste livro do Sergin,preciso ler.....um beijo

Anônimo disse...

é num tapa a leitura desse livro.