27 de jul de 2006

DASPU III - problematizando + a questão

rubens,

o que posso fazer é problematizar mais a questão do que dar uma opinião exata sobre o que penso.
mas o que acho é que tudo o que você fala é de onde gabriela parte e não o que ela nega.

Não há negação de que a pobreza obriga muitas pessoas à prostituição, que há crianças se prostituindo, que muitas não escolhem essa profissão, etc.

mas ela tenta partir não da negação da coisa toda, mas da afirmação da sua própria profissão, pois foi prostituta quase 30 anos.

- primeiro, a daspu é o estopim de uma luta que acontece desde os anos 80 e hoje gabriela é considerada uma das maiores líderes dos movimentos de prostitutas do mundo.

- segundo elas lutam sim para o reconhecimento da profissão, por isso apoiam o gabeira, que desde os anos 80 investe no reconhecimento da classe junto as instâncias federais. até estão fazendo uma campanha pra ele em formas de camisetas que diz: Gabeira! Puta deputado. Isso quer dizer que a puta poderá ser reconhecida como uma profissional das fantasias sexuais, como pede o projeto de lei.

- terceiro ela defende o não trabalho infantil e para ela vender bala no semáforo ou se prostituir aos 13 anos ofende diretamente um direito da criança e adolescente que em qualquer dos dois casos não está sendo respeitado.

- quarto, gabriela está investindo em uma quebra de paradigmas, o que ela chama de visão preconceituosa sobre o papel da sexualidade no mundo, ou seja, ela denuncia um tipo de recriminação contra a prostituição que é também a recriminação contra a sexualidade feminina. apostando nessa mudança de paradigma ela aposta também numa mudança de comportamento que na melhor das hipóteses seria a de que não só a sexualidade se tornaria menos problemática para a raça humana, como no cotidiano da puta isso resultará numa maior auto-estima, onde poderá com mais facilidade escolher os parceiros (as) com quem irá se relacionar e evitará de sofrer violências e explorações exatamente porque aumenta o respeito da puta por ela mesma e do usuário pela puta (por isso é guerrilha semiótica e de valores).

quinto, vejo esse movimento não de dentro pra fora, mas de fora pra fora e de fora pra dentro... introduzindo novas questões no fora cultural, a mudança começa ocorrer no fora mas também na postura das putas para dentro da prostituição. é complicado porque é complexo mesmo....

não sei se estas questões mais atrapalham do que ajudam, mas poderíamos discorrer mais e mais terços abstratos, como por exemplo:

se pensarmos o capitalismo como inimigo, negamos o próprio sistema humano, demasiado humano que o criou... quando o negamos, promovemos um discurso meio esquizofrênico, como se o capitalismo existisse fora de nós e como se nós não o sustentássemos cotidianamente seja em forma de pagamento, uso de serviços, fazendo faculddes, indo ao mercado, tendo computador e por aí vai...

o que ela propõe é um paradoxo e não uma solução:

ela enquanto líder do movimento e enquanto puta, se ofende com esses discursos anti-capitalistas que usam a imagem da prostituta para demonstrar a perversão do sistema (não vamos nos entregar, não vamos nos prostituir ao sistema, etc), ela então faz ao contrário, expande o conceito de prostituição e nos coloca a todos no mesmo barco, só que uns vendendo cérebro outros olho, outros buceta, etc... ou seja.... ou paremos com esse discurso preconceituoso contra a prostituta que como todo mundo vende parte do seu corpo, ou assumamos de uma vez que a raça humana nessas épocas de biopoder mudou o nome de homo sappiens para homo prostitutens....

o fato de promover essas discussões nas várias escalas (ainda não o suficiente) faz com que outras coisas venham à tona na discussão; por exemplo, o absurdo pensar que puta ou michê são escravos só do homem.... um moralismo pungente faz com que grande parte das putas inclusive, não se permitam fazer sexo com mulher, reduzindo o seu mercado só a homens, ou que as mulheres solitárias naõ disponham de serviços sexuais femininos e masculinos por também sofrerem desse preconceito contra a sexualidadade... no caso de uma mulher pedir serviços sexuais, ela fica ainda no papel da puta e a mercê de alguma violência. O não reconhecimento da profissão faz com que as mulheres tenham pouquíssimos acessos a saunas, massagens, casas de prostituição masculina etc.... primeiro por que são poucos os serviços que oferecem a garantia de um trampo bem feito, com contrato e sem violência e roubo,... saca?

exagerando o fato, penso que gabriela imagina um mundo em que a sexualidade seja livre e que não exista concentração de renda e poder, mas enquanto isso naõ acontece, ela imagina que os serviços sexuais devem expandir suas possibilidadades e que os profissionais do sexo se tornem profissionais do sexo por pura aptidão, cada vez mais, e que seus serviços sejam aplicados a toda a população, independente de ser homem ou mulher. por profissionais da fantasia sexual e da sedução.

bom, falei tudo muito rápido, tu me faz ter vontade de escrever um texto, talvez eu o faça....

continuamos....

beijo

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