3 de mar de 2007

Rio/Jerusalém

A classe média está apavorada e indignada com a morte dos três franceses da Ong, mortos pelas mãos do próprio beneficiário do trabalho deles.
Para mim é um caso de Bispo Sardinha às avessas. Agora canibalisticamente. Não antropofagicamente. O que não muda nada pelo ponto de vista do morto, certo? Como é que deixam o cara dever 80 mil pratas primeiro, antes de dar uma prensa nele? Bom, não é isso que eu quero discutir.
Mataram o menino arrastado, também, esses dias. A direita quer instituir a pena de morte. E justificam a prisão de menores dizendo que não se trata mais de uma questão de idade, mas de tipo de crime.
Para dar ainda mais "peso" aos argumentos fascistas, apontam que, nos dois casos, não eram miseráveis roubando e matando, mas gente que tinha certa condição financeira. Que não precisavam fazer o que fizeram. Querem fazer crer, no fundo, que o mal está no ser humano. E não se trata de um problema de justiça social. Enfim, vivemos em uma sociedade que perdeu seus valores éticos e essas pessoas ainda pensam que o sucesso de um governo depende da quantidade de cadeia e do grau de punição que se aplica aos delinquentes. Até o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da USP, andou escrevendo que os assassinos dos franceses serão justiciados quando forem para a cadeia, pelos próprios presos, desconsiderando a justiça legal. Ou seja, Janine também é daqueles que acham que violência se combate com mais violência. Mas também não é esse o papo..
O servente de pedreiro que está quebrando um galho aqui na casa onde estou hospedado, no Rio de Janeiro, que mora no morro do Falete (n sei se escreve assim), perto do morro da Coroa, perto de Santa Tereza, disse que os trafica tão comprando pneu velho. Eles usam para queimar arquivos. Destruir a prova do crime. Carbonizar o cadáver de rapazes e moças e mais quem for - crianças e velhos - de seus inimigos na favela. Às vezes os tiroteios duram uma tarde inteira. Santa Tereza inteira ouve. Você sai para a rua depois e as pessoas dizem que o tiroteio da semana passada foi pior. E fica tudo por isso mesmo. Já seacostumaram. Afinal, quem morre é o pobre. Pobre matando pobre. Miserável matando miserável. A classe média não está nem aí. Para a maioria das pessoas pode até parecer um ato que faz diminuir o crime, ou o número de criminosos.
A morte dos franceses, assim como a do menino arrastado, deve ser lamentada. E seus autores, devem pagar por isso, sem dúvida. Mas é muita hipocrisia quando vemos que o lamento das pessoas está direcionado para a economia dos números e do dinheiro que se deixa de ganhar com o turismo, por exemplo. O que deve ser debatido é o lucro nas mãos dos mesmo mercadores de sempre - esses sim, criminosos maiorais - e a falta de ética que impera em uma cidade que beira ao colapso. Que tem no fundo de sua alma o lado contrário da alegria com que faz questão de se mostrar. Onde Opus Dei e grupos paramilitares estão de prontidão para defender a Tradição, A Família e a (principalmente) Propriedade.
Um amigo me pergunta porque escolhi o Rio e não Jerusalém. E acho que ele me pergunta seriamente sobre isso. Começo a desconfiar de minha escolha...

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