7 de mar de 2006

PROCURA(VA)-SE EMPREGO













Dedico este texto a Franselmo, o Francisco Ancelmo, ambientalista matogrossense q suicidou-se em protesto à construção de uma usina de álcool no Pantanal.

A agropecuária, vcs sabem, é o futuro do país. Lula comemora resultado de pesquisa na praia, agradecendo aos céus, dando as costas ao Brasil. A revista exame mostra um novo-rico dono de estaleiro no amazonas, anunciando que a região é a que MAIS cresce no país. A revista Veja sataniza tudo o que ela é contra. Intolerante, suas opiniões são vendidas como verdades. Em nome da liberdade de imprensa, claro!

Estou procurando emprego. Quer dizer, estou precisando de grana para pagar as contas, de novo na lona. (e eu que quis ser, a vida toda, artista – só eu!). Lembro quando fui morar em São Paulo: sem saber fazer nada, sem diploma, um garoto inexperiente. Lembro q andava a esmo. E, se no trajeto tivesse uma livraria, eu parava e lia um pedaço de um livro do moacyr scliar, “a orelha de van Gogh”, eu acho. Em uma entrevista no RH de uma empresa perguntaram minha religião. Saí indignado de lá. Eu era rebelde, além de duro. E perdido, sem saber o q fazer na vida.
Agora estou aqui em londrina. Mandei um projeto para a secretaria de cultura, mas não foi aprovado. Exu veio no meu ouvido e falou: não foi aprovado pq vc fica pelado na rua, colocando máscara na cabeça de santa de bronze, na praça, questionando a construção de um teatro municipal para a cidade. Eis a questão! Meu currículo não serve de exemplo nesse mundo. Vou dizer o q? Q aumentei a venda de não sei q empresa? Q estou up to date com as estratégias do mercado? Q os efeitos da tecnologia são saudáveis? Q o extrativismo é o cara? Q sou a favor do progressismo? Não sou.

Andando na rua à toa, conversando com colegas, um, na roda, disse q o atual prefeito não fez nada pela cidade e reclamou da parte q é ofertada à cultura e disse q, se ao menos tivessem feitos obras na cidade, mas nem isso. E eu disse q eu preferia um governo corrupto a um governo obreiro. Sabe como é, né? Tenho alergia a pó! Não me sinto bem pisando em areia. Odeio o barulho de construção. E demais a mais, chega de arrancar da natureza o material para construir cidades. Pior. Para angariar votos. Para a manutenção de poder. Será q isso n muda? É assim desde os faraós, no Egípcio. Uma piramidezinha aqui, outra acolá e o povo suportando a escravidão!

Mas eu comecei falando de agropecuária e desenvolvimento da Amazônia e acabei indo para outro assunto. Ainda q uma coisa deságüe na outra: é a lógica do capitalismo aplicada a diferentes situações.
Por falar nisso, ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar, mas essa história não é minha, agora é a história do chico com a dupla zezé de camargo e luciano. Alguém me disse, e daí? E daí q o chico buarque abriu as pernas? Q o caetano morreu e n foi enterrado? Q o gil isso e aquilo? Q o lula, meu deus! O lula, vejam só, quem diria. O cara ateou fogo no próprio corpo e o Lula comemorando o resultado das pesquisas na praia, fazendo pose de feliz para os fotógrafos. Isso é q é vida! E daí? Sou retrucado de novo. E daí q todo mundo tem direito de fazer o q quiser nesta vida, mas sair da resistência à ditadura e cair nos braços do neoliberalismo me parece ser um péssimo exemplo. Se eu me faço entender!

Outro dia vi uma entrevista do Frei Betto dizendo q é um absurdo quem faz campanha pelo voto nulo, pq aí sim é q os picaretas vão tomar conta do poder, mas puta q pariu! a gente vota, vota e só dá picareta nessas plagas!

Esses discursos de progresso, desenvolvimento, produtividade são um cacete. Claro q na Amazônia dá para ganhar mais grana. Tem mais coisa para arrebentar lá, por enquanto. Daqui 10 anos, no máximo, acabou-se tudo. Mania q os economistas tem de quantificar a riqueza. Falar em nível de exportações. Posição econômica do país no ranking mundial não diz nada, quando toda a grana está concentrada na mão de pouquíssimos. Quando o peido do gado que entra no lugar onde antes era mata coloca mais poluente no ar, ainda.

Acho q eu deva estar querendo falar sobre sensibilidade e n estou conseguindo me expressar direito. Talvez seja isso. Mas o q isso tem a ver com neoliberalismo, lula, ambientalismo, boi, prédio, emprego? Logo eu q penso q, no Brasil, nem emprego precisava. Tanta terra e tão produtiva, digo, do que já foi desmatado. Tanta água. Tanto sol. Tantas belezas naturais.
Na cidade de onde eu vim, Bela Vista, um agricultor encontrou objetos estranhos enterrados no chão, enquanto arava a terra com seu trator. Seu filho, meu camarada, trouxe alguns desses objetos para eu ver: pedras polidas. Talvez ali debaixo daquela terra escondesse milênios de civilização. É só uma suposição. O q é certo é q o pai dele jamais iria parar seu serviço por causa daquelas coisas, lá. Imagina, então, parar o plantio do soja por causa de coisas primitivas! Jamais. Lembro de um grande empreiteiro dizendo q se achava mais importante do q os faraós egípcios porque as pirâmides não servem pra nada e as usinas hidroelétricas q ele construiu levava energia elétrica para milhões de pessoas. Lembro-me bem, também, de um mega empresário do cimento, querendo acabar com uma grande reserva ambiental, no estado de São Paulo, para construir uma usina para ele. Lembro q, quando eu saí de Bela Vista, quase um moleque, o clima era outro, melhor definido por estações. Não fazia tanto calor. Nem havia tanta miséria na região. Sei lá o q miséria e sensibilidade tem a ver?

Um amigo meu q se matou, o Carlão, um poeta, uma vez pediu para um carregador de papelão colocar no seu carrinho um cartaz q eu tinha feito, com o rosto do Oswald de Andrade, escrito embaixo AMOR/HUMOR, e o catador de papelão perguntou se aquele cara estava vivo ou morto, pq n queria carregar ninguém morto no seu carrinho, ao q meu amigo respondeu: poeta não morre. E o cara, então, deixou o Carlão colocar o cartaz no carrinho. E saiu com ele pelas ruas da cidade, fazendo propaganda de poesia. Poeta não morre. E ambientalista? Político eu sei q morre. Getúlio se matou, outros o tempo levou, embora recebam gordas aposentarias ainda hoje, ou seus descendentes.
Pensar no presente sem levar em consideração o futuro, a reputação, achando q o importante é se dar bem à custa alheia, ou da natureza, ou da história, pois assim o lucro é certo, me parece um ato de traição contra a espécie, com salvo conduto da mídia, q explora a miséria alheia, como na capa da revista em q aparece lá o novo rico, chamando todo mundo para plantar sua indústria na amazônia, com incentivo fiscal e tudo.

Mas acho q sensibilidade a gente pode medir em nível pessoal, mas não social. O q se pode medir em nível social é o grau de civilidade de um povo e do quanto são capazes, ou o quanto são corajosos para defenderem a própria sobrevivência. O resto é ignorância. E ignorância se combate com sabedoria. Pq só um idiota para ver q a competividade, a geração de lucros, etc. só deixa os outros e o mundo mais miserável. E, por outro lado, olha eu aí, ajeitando meu currículo, tirando meus atos rebeldes, aqueles os quais, justamente me orgulhava por mostrarem q eu não fazia parte desse sistema capitalista neoliberal podre. Mas não vai adiantar, eu sei. A idade não ajuda. A experiência em coisas práticas é nula. Depois q, de fato, sem se deixar prender por cabrestos, freios e rédeas, a gente acaba se tornando maldito, dizendo o q pensa, pior, pensando. E pensar faz a gente se sentir livre. E liberdade, uma vez q se acostuma, não tem volta atrás.

Li uma matéria (acho q no caderno MAIS da F.S.P. - 05/03) q fala do comunismo capitalista da china. Regido à mão de ferro para controlar os direitos trabalhistas e oferecendo subsídios, isenção de impostos e mão-de-obra barata para as multis se instalarem lá. Transformando uma cidadezinha portuária de 12 mil habitantes em uma megalópole de 10 milhões de pessoas, em menos de 15 anos. O resultado, além da geração de empregos e o progresso econômico imediato é a estafa ambiental, o descontrole sobre a violência, como pobreza, latrocínio e assassinato e a prostituição. Como sou contra o progresso (digo, progressismo), vou deixar esse negócio de montar currículo para arrumar emprego pra lá, até pq não vou contribuir uma palha para o desenvolvimento do nosso país, como o modelo q lula pretende implantar.

Ainda bem q nós levamos a sorte da incompetência. E quando penso nisso até agradeço aos céus por termos sido colonizados por portugueses e não ingleses, senão nem floresta amazônica tinha mais. E, também, pq assim eu me sinto mais brasileiro. Ou, como diria Oswald de Andrade: “somos a somatória de todos os erros”. É isso!

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