27 de mar de 2006

Para fazer a dança da chuva



Quem não se lembra em filme de mocinho e bandido, que o índio era sempre amigo do vilão da história? Cena clássica de faroeste: um índio com penacho e roupa de franja, manga comprida, com rifle na mão, despencando de uma fachada de madeira, à frente da câmera. E dança da chuva, então? Diz que faziam chover? Hoje, ninguém mais acredita. Nem eles, indígenas. Mas, loucura ou não, pensar nisto pode levar a conclusões não tão absurdas para os dias absurdos que hoje vivemos. Porque o equilíbrio ambiental é tão frágil que uma simples movimentação e vibração a mais nos átomos em nosso entorno podem mudar a configuração de toda a camada cósmica. Com a industrialização, com o desprezo pela natureza, a indiferença em face à fome dos miseráveis, com a crescente poluição, corrupção, etc. isso parece improvável e até ridículo de ser pensado.
Principalmente no momento em que vivemos barbaridades como as que têm feito os Estados Unidos - nação hegemônica no cenário político e econômico mundial – que simplesmente boicotaram a Conferência de Kyoto, contrários a regulamentação da emissão de gases tóxicos no ar. Ou que não aceitaram a conferência de Durban, África, para não discutirem os termos da escravidão moderna como se isto não fosse de interesse mundial. Logo eles, os maiores poluidores! Que país é aquele para eleger um homem que teve sua campanha financiada por industrias bélicas, petrolíferas e farmacêuticas? “Just do it” é o slogan da Nike, uma dessas grandes empresas transnacionais que se instala em países onde os sindicatos são reprimidos e a mão de obra é remunerada abaixo de salário mínimo, trabalhando o tempo máximo. Aí é que a idéia da dança da chuva realmente dança. Vão ligar para coisa de índio ou de maluco-utopista-visionário que fica pensando coisas como essas?
Pensar em “dança da chuva”, aquela brincadeirinha que fazíamos quando criança, girando em torno do fogo, com as mãos na boca fazendo uh, uh, uh, em tempos de ALCA, Nafta, guerra imperialista, é usar toda a colonização cultural, toda a merda enlatada, toda a lavagem cerebral que nos impuseram, para reafirmar, mais uma vez que, enquanto houver resistência haverá quem ouse a fazer a Dança da Chuva. I singning and dancing to make rain. Viva a paródia e o plágio!
E a chuva e a dança lembram outro personagem, o xamã - aquele que transita entre o mundo dos mortos trazendo mensagens aos vivos – que é o feiticeiro, o pajé, o curandeiro, o “padre”, o “médico” da tribo. Com a intervenção da cultura do branco sobre a cultura do índio, este equilíbrio instável também não resistiu e mesmo os índios já preferem tomar um remédio para aliviar dor no estômago do que confiar na sabedoria do pajé. Enquanto isso, nos laboratórios multinacionais, os segredos das ervas e plantas são clonados e patenteados sem que seus verdadeiros descobridores tenham qualquer possibilidade de acesso aos dividendos dessas “pesquisas”.
Voltando, o que é uma mentira? Para quê ela serve? Serve para enganar os outros. Para levar vantagem sobre alguém. Para obter lucros e dividendos. Antes não havia mentira entre os índios porque não havia interesses comerciais entre eles. Ninguém precisava levar vantagem sobre ninguém porque não havia o conceito de propriedade. Lendas ancestrais não são mentiras, são partes dos mitos. É outra coisa. Então, quando um xamã promovia a dança da chuva, um ritual de cura, um pedido de ajuda aos deuses para encontrar alimentos, por exemplo, aquilo era uma verdade para toda a tribo, para toda a comunidade. Não existia a desconfiança, a mentira não fazia sentido. Mas à medida que os povos indígenas foram entrando em contato com os brancos e sendo enganados, e suas terras tomadas, então uma enorme dúvida se instalou no meio deles. E o que era pureza se transformou em ingenuidade e ingenuidade em um mal a ser evitado. É engraçado, nas tribos, ser um “padre” é sinal de poder e qualquer um pode ser, desde que conte uma história mirabolante de como lhe aconteceu de se tornar um “vidente”. Com sua fértil imaginação e com a possibilidade de se tornar importante, rapidamente os mais espertos se colocam à disposição para curar os membros da tribo. E até em brancos eles fazem as rezas. Ganham sempre um presente por isso.
Espelho, espelhinho meu, não me tire a ingenuidade que pensar o mundo do lado avesso me deu. Guarde sempre esse índio idealizado dentro de mim. O doce guerreiro puro de maldade em combate incessante contra todo o mal da mentira imposta! Faça-se a chuva sobre a horta de quem planta dúvidas no solo onde a certeza absoluta é a verdade imposta! A cópia do mundo é nossa! O poder, dos espíritos. Um viva aos conceitos originais!

Terça, 16/07/2002

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