23 de fev de 2010

Machismo se traveste de diversão e pula o carnaval

Dourado bombando no BBB. Uma mãe reclama que pode ir com a filha no bloco de carnaval, mas não com o filho, um moço. O filho do meu amigo, adolescente, é amigo da namorada do pai, mas sua mãe não pode ter namorado, porque, segundo ele, não vai deixar. Para muitos homens, mulher é para comer, menos a mãe, a filha e a própria mulher. Se mexer com elas, dá briga. Um cara quis me matar porque me acusava de ter 'roubado' a namorada dele. Uma vez, na rua, com uma faca à mão, me ameaçou. Outra vez, disse que ela era uma Deusa. Uma Deusa, ele disse. Ou seja, algo a ser idolatrado, passivo de ser colocado em um altar. Não gente de carne e osso com tesão e dúvidas e desejo e sujeita a tomar decisões por si. Na verdade ele se achava ddono dela, mesmo que ela já tivesse se separado dele fazia um ano. Na TV é propaganda de mulher gostosa bebendo cerveja gelada e insinuações de pegação. No carnaval de rua, no meio dos blocos, aqui no Rio de Janeiro, os caras chegam, sem mais nem menos, querendo beijar as garotas. E elas se deixam, na 'Boa' (sacou o trocadilho?). A diversão e a alegria é contabilizada pelos porres e pelos beijos: quanto mais latinhas de cerveja jogada nas ruas e mais parceiros, mais diversão e alegria. Há uma euforia no ar que naturalizou a pegação e ninguém se sente mais invadido ou invadindo, por causa disso.

Fui com minha namorada pular em um bloco desses e, no meio da multidão, um cara tenta dar um beijo nela, sem mais nem menos, mesmo com ela de mãos dadas comigo. Isso, depois que vários caras tentaram apalpar ela, quando a gente se soltava. Ela desviou o rosto e quando ele passou por mim, tentei parecer bem humorado e levei meus lábios para beijar os dele, que se afastou. E, subitamente, me peguei 'naturalizando', também, a invasão do sujeito, porque não era uma resposta de bom humor que eu tinha que ter dado, mas uma bronca no cara que o desmoralizasse, afinal que tipo de intimidade ele achava que podia usufruir de estranhos? E outra, se ele estava arriscando um beijo, podia levar um tapa, também, não?

Eu não quero passar por moralista, mas eu sempre tive uma regra de conduta que, no mínimo, dependia de um cortejo, de um jogo de sedução, um flerte, de um aceite da garota para eu chegar mais perto e trocar um beijo, mesmo que eu estivesse bêbado e fosse carnaval. Creio que essa regra da contabilidade e essa naturalização da pegação não é legal nem para o homem nem para a mulher. No fundo, porque é uma instauração do machismo pelo acúmulo, pela ordem numérica e pelo fato de que, se todas as mulheres são putas, com que mulher será possivel ter uma relação de confiança? Na 'Boa', se a mãe não quer ir com o filho brincar no bloco de carnaval, porque é que eu iria ficar à vontade, com minha mulher, lá? Para o filho dela tentar agarrar minha namorada? Isso não é diversão e alegria, isso é um porre!

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