12 de abr de 2008

Servidores servem a quem?

Progresso e natureza

Em dúvida se disponho de um vídeo que acabei de fazer no youtube por causa de questões comerciais que envolvem a questão, ou se deveria procurar um outro servidor, comprometido com a liberdade na internet, lembrei-me de que, só recentemente, com a ampliação de mercado pela China, é que me dei conta de que não adianta ter produtos como celulares a 1,99 no mercado, de acesso fácil a todo mundo, se isso não diminui a relação que o ser humano mantém com a natureza.

Na China, por exemplo, em 10 anos, várias aldeodas de caiçaras e camponeses deram lugar a megalópoles de 10 milhões de pessoas! O que isso representa? Necessidade de água, por exemplo. Cada prédio de 20 andares custa uma montanha. Um leito de rio a menos. Uma reserva florestal a menos. Menos vida, enfim. E dá-lhe esgoto, merda, doença que tem de ser tratada. Epidemias. Jogos de poder econômico de todas as ordens.

Em uma situação dessas, é preciso planejar, pelo menos para os próximos 10 anos, que não haverá a possibilidade de nenhum apagão. Afinal são hospitais, usinas, siderúrgicas e, obviamente, servidores e banco de dados.

Ser a favor sendo do contra

De que vale um rio Madeira, por exemplo, prestes a ser inundado e com ele parte da Floresta Amazônica, diante do progresso que as usinas hidrelétricas que serão construídas em Rondônia trarão? Como ser contra os garimpeiros que arrebentaram todo o fundo do Rio com suas dragas, atrás do vil metal, jogando outro, mais pesado ainda, dentro do rio, que é o mercúrio? Como ser contra os “toreiros” que dilapidam a floresta, se tudo aquilo vai submergir? Como ser contra o garimpo “Progresso”, em Ariquemes, RO, que transformou a floresta em um lugar parecido com a paisagem do planeta Marte, para a extração de bauxita, se precisamos de torneiras galvanizadas?

Voltando à China: Todos sabem que a água da China nasce no Tibet? E também que nosso presidente, ao lado do governo chinês, mandou um recado para os países ricos dizendo que eles não podem impedir, agora, o crescimento dos países em desenvolvimento?

Bem, primeiro tinha que se pensar, mais uma vez, no que é ser rico ou em vias de, se o planeta é o mesmo para todos. Mas deixa isso pra lá, por enquanto. Outra coisa é que, dentro dessa idéia de crescimento, o Brasil tem entrado – na maioria dos casos – com o material bruto e eles com os produtos.

Volta, volta, volta!

Cuba libre!

Mais uma coisa antes de voltar: diante de tudo isso não parece extremamente ingênua a resistência de Fidel Castro, em Cuba, durante esses quase 50 anos? Why not to do business? Quando vi pela primeira vez o Che Guevara numa camisa da Zoomp fiquei sem entender nada. E isso já faz anos.

Conseqüências e causas

Sim, comecei falando de postar um vídeo no youtube e estava refletindo sobre desenvolvimentismo, comunismo ou o capitalismo, consumismo e o que advém dessa mentalidade progressista – belicosa e autodestrutiva – como um todo.

Quando se posta um vídeo, seja no youtube, seja no servidor mais livre possível, consome-se energia. Gera-se calor. Cada vez mais. Tanto que os provedores de acesso estão construindo seus edifícios perto de Usinas Hidrelétricas para retirarem de lá, diretamente, a energia que precisam para acumular zilhões de dados de seus clientes. Há canos dentro desses edifícios da grossura de uma grande árvore, para passar calor.

Li um texto esses dias, no site da UOL sobre “servidores verdes”, na Alemanha, que acendeu o sinal vermelho em mim, sobre a significação e o controle de informações no espaço virtual (não encontro o link agora). Eis a questão, se é que estou me fazendo entender.

Claro que estou sendo entendido. E a primeira medida que será tomada qual é? Tentar diminuir o impacto causado pelo problema ambiental. Daí serem chamados de “ecológicos”. Lucrar com os termos não é novidade nenhuma. E o termo ecológico é moda, hoje. Vide cotas de carbono, etc.

Claro que entre um servidor livre que propõe trocas e um comercial, que vai lucrar sobre sua criação, não tem nem que se discutir. Mas não podemos ficar no raciocínio científico que ataca as conseqüências e nunca a causa. O cientista nunca vai problematizar a questão. Ele tem de dar soluções. A questão dele é lógica. Como é lógico todo o sistema que se usa de seu conhecimento: como diminuir o impacto ambiental causado pelos serviços prestados?


Uma entrevista padrão

Em um vilarejo, no rio Negro, Amazonas, na direção da Colômbia, lugar de pessoas muito simples, feições indígenas, ouvia-se, ao longe, um rádio, onde a repórter, com ar grave e com firme autoridade, perguntava à mãe de uma garota que tinha morrido na comunidade, se acaso sua filha tivesse sido atendida na hora, isso (a morte de sua filha) teria acontecido? A mãe respondeu, “não”. A repórter continuou: “se tivesse estrada até Manaus, isso não mudaria a sua vida?” A senhora respondeu: “sim”. “Se – continuou a entrevistadora – ao invés de gerador, tivesse luz elétrica, a vida de vocês não melhoraria?” Já empolgada, a entrevistada disse: “é verdade”. “E até um posto de saúde poderia ser instalado aqui, na é mesmo?”. “É”.

É verdade. Mas é verdade que pessoas morrem desde que o mundo é mundo. E é mais verdade ainda que há um desprezo absoluto por conhecimentos ancestrais que se perdem da noite para o dia, apenas com o acender de uma lâmpada. Essa construção de necessidades parece ser o que há de mais fabuloso em nossa sociedade!

Além disso, por que não potencializar o contexto local na busca de soluções energéticas próprias, que não destruam toda uma floresta, por exemplo? Que não transforme a paisagem em um deserto de água? Você já viu como é monótona a paisagem de uma barragem?

Produção e consumo

Não penso que se deva acabar com o que já temos. Mas tanto faz consumir serviços e produtos de países comunistas ou capitalistas, ou se ambos são imperialistas ou democráticos. Ou se é de uma empresa pública ou privada. No site de “Furnas”, por exemplo, eles chegam a comover, mostrando como estão empenhados em prestar um serviço que leve em consideração a proteção da natureza e das comunidades ribeirinhas. Enfim, conseguiram forjar o casamento perfeito entre o “social” e o “ambiental”.

Obviamente, é preferível estabelecer relações de troca com um servidor tipo “creative commons” do que com um de cartel, um truste. E antes que alguém aponte o dedo em riste, devo dizer que até o ar que se respira sai mais quente do corpo do que quando entra. A produção de calor e o gasto de energia são contínuos. Mas é preciso entender essa questão desde suas causas primordiais e suas implicações vitais.

Vou tentar dar um “upload” no material que estou louco para mostrar no youtube, mesmo. Mas fica em aberto a possibilidade de ser convencido a tirar de lá o que eu fiz e colocar em outro provedor.

Deu certo! Espero que curtam: http://youtube.com/watch?v=pR_z-H0b4UI

3 comentários:

célia musilli disse...

Oi Rubens, vejo que vc, esteja onde estiver, continua interferindo no que pode.. Vc faz falta aqui na Pequena Londres, aliás gente como vc faz falta no planeta...um beijo.

glerm disse...

Subir ou não no youtube pode não fazer diferença no momento pra você comunicar sua idéia. Mas ter consciência de que a internet não é uma "nuvem virtual no éter" como parece ser ainda pra maioria dos usuários dela é que já é um primeiro passo pra potencializar o acesso a uma comunicação mais soberana, pela qual devemos zelar. Se ainda existem frestas por onde subverter o uso destes recursos de potência de uma comunicação mais inteligente, elas devem ser pensadas e potencializadas.

Interagir com pessoas que estão tentando ao menos pensar a tecnologia de uma forma menos utilitarista e progressista é um dos caminhos da consciência ecológica que você propõe. Não acho que exista culpa em postar o video no youtube como você fez (e eu também já fiz isso), - fazê-lo com a consciência que você propôs no texto é o que ja é um primeiro passo para toda diferença. Existe mais passos a serem dados agora. Em que direção?

Considere que de certa forma pessoas que tem maior acesso a tecnocracia que estão propondo conscientização do problema possuem algumas algumas "chaves" para viabilizar as discussões menos alienadas. E por outro lado, como você bem colocou, o que está para ser comunicado com estas "chaves" pode estar totalmente lá na outra ponta, na relação básica humano-natureza e na reconstrução numa base científica que realmente use toda inteligência humana pra algo que construa um planeta melhor. Algo que inclusive questionam a própria implicação da existência dessas "chaves", e não tenha dúvida que esse é o papel do cyberativismo.

Recentemente refleti sobre isso também, depois de ajudar o pessoal da Jardinagem Libertária. O texto esta aqui -
http://organismo.art.br/blog/?p=2476

Espero que ainda dê pra gente ir mais além nisso.


abração


glerm

Vera Caetano disse...

Oi Rubens é isso aí,parece que a "febre desevolvimentista" não permite as pessoas pensarem direito, embaça e turva o raciocínio, entope as "véias" do cérebro e, a economia que deveria ser qualitativa passa a ser um amontoado de bagulhos,e dá-lhes geladeiras, celulares,mais prédios com 4/5 garagens por "apertamento". E vamo que vamo..agora, pra onde caminha a humanidade isso é um mistério...