
http://nothingday.blogspot.com
Progresso e natureza
Em dúvida se disponho de um vídeo que acabei de fazer no youtube por causa de questões comerciais que envolvem a questão, ou se deveria procurar um outro servidor, comprometido com a liberdade na internet, lembrei-me de que, só recentemente, com a ampliação de mercado pela China, é que me dei conta de que não adianta ter produtos como celulares a 1,99 no mercado, de acesso fácil a todo mundo, se isso não diminui a relação que o ser humano mantém com a natureza.
Na China, por exemplo, em 10 anos, várias aldeodas de caiçaras e camponeses deram lugar a megalópoles de 10 milhões de pessoas! O que isso representa? Necessidade de água, por exemplo. Cada prédio de 20 andares custa uma montanha. Um leito de rio a menos. Uma reserva florestal a menos. Menos vida, enfim. E dá-lhe esgoto, merda, doença que tem de ser tratada. Epidemias. Jogos de poder econômico de todas as ordens.
Em uma situação dessas, é preciso planejar, pelo menos para os próximos 10 anos, que não haverá a possibilidade de nenhum apagão. Afinal são hospitais, usinas, siderúrgicas e, obviamente, servidores e banco de dados.
Ser a favor sendo do contra
De que vale um rio Madeira, por exemplo, prestes a ser inundado e com ele parte da Floresta Amazônica, diante do progresso que as usinas hidrelétricas que serão construídas em Rondônia trarão? Como ser contra os garimpeiros que arrebentaram todo o fundo do Rio com suas dragas, atrás do vil metal, jogando outro, mais pesado ainda, dentro do rio, que é o mercúrio? Como ser contra os “toreiros” que dilapidam a floresta, se tudo aquilo vai submergir? Como ser contra o garimpo “Progresso”, em Ariquemes, RO, que transformou a floresta em um lugar parecido com a paisagem do planeta Marte, para a extração de bauxita, se precisamos de torneiras galvanizadas?
Voltando à China: Todos sabem que a água da China nasce no Tibet? E também que nosso presidente, ao lado do governo chinês, mandou um recado para os países ricos dizendo que eles não podem impedir, agora, o crescimento dos países em desenvolvimento?
Bem, primeiro tinha que se pensar, mais uma vez, no que é ser rico ou em vias de, se o planeta é o mesmo para todos. Mas deixa isso pra lá, por enquanto. Outra coisa é que, dentro dessa idéia de crescimento, o Brasil tem entrado – na maioria dos casos – com o material bruto e eles com os produtos.
Volta, volta, volta!
Cuba libre!
Mais uma coisa antes de voltar: diante de tudo isso não parece extremamente ingênua a resistência de Fidel Castro, em Cuba, durante esses quase 50 anos? Why not to do business? Quando vi pela primeira vez o Che Guevara numa camisa da Zoomp fiquei sem entender nada. E isso já faz anos.
Conseqüências e causas
Sim, comecei falando de postar um vídeo no youtube e estava refletindo sobre desenvolvimentismo, comunismo ou o capitalismo, consumismo e o que advém dessa mentalidade progressista – belicosa e autodestrutiva – como um todo.
Quando se posta um vídeo, seja no youtube, seja no servidor mais livre possível, consome-se energia. Gera-se calor. Cada vez mais. Tanto que os provedores de acesso estão construindo seus edifícios perto de Usinas Hidrelétricas para retirarem de lá, diretamente, a energia que precisam para acumular zilhões de dados de seus clientes. Há canos dentro desses edifícios da grossura de uma grande árvore, para passar calor.
Li um texto esses dias, no site da UOL sobre “servidores verdes”, na Alemanha, que acendeu o sinal vermelho em mim, sobre a significação e o controle de informações no espaço virtual (não encontro o link agora). Eis a questão, se é que estou me fazendo entender.
Claro que estou sendo entendido. E a primeira medida que será tomada qual é? Tentar diminuir o impacto causado pelo problema ambiental. Daí serem chamados de “ecológicos”. Lucrar com os termos não é novidade nenhuma. E o termo ecológico é moda, hoje. Vide cotas de carbono, etc.
Claro que entre um servidor livre que propõe trocas e um comercial, que vai lucrar sobre sua criação, não tem nem que se discutir. Mas não podemos ficar no raciocínio científico que ataca as conseqüências e nunca a causa. O cientista nunca vai problematizar a questão. Ele tem de dar soluções. A questão dele é lógica. Como é lógico todo o sistema que se usa de seu conhecimento: como diminuir o impacto ambiental causado pelos serviços prestados?
Uma entrevista padrão
Em um vilarejo, no rio Negro, Amazonas, na direção da Colômbia, lugar de pessoas muito simples, feições indígenas, ouvia-se, ao longe, um rádio, onde a repórter, com ar grave e com firme autoridade, perguntava à mãe de uma garota que tinha morrido na comunidade, se acaso sua filha tivesse sido atendida na hora, isso (a morte de sua filha) teria acontecido? A mãe respondeu, “não”. A repórter continuou: “se tivesse estrada até Manaus, isso não mudaria a sua vida?” A senhora respondeu: “sim”. “Se – continuou a entrevistadora – ao invés de gerador, tivesse luz elétrica, a vida de vocês não melhoraria?” Já empolgada, a entrevistada disse: “é verdade”. “E até um posto de saúde poderia ser instalado aqui, na é mesmo?”. “É”.
É verdade. Mas é verdade que pessoas morrem desde que o mundo é mundo. E é mais verdade ainda que há um desprezo absoluto por conhecimentos ancestrais que se perdem da noite para o dia, apenas com o acender de uma lâmpada. Essa construção de necessidades parece ser o que há de mais fabuloso em nossa sociedade!
Além disso, por que não potencializar o contexto local na busca de soluções energéticas próprias, que não destruam toda uma floresta, por exemplo? Que não transforme a paisagem em um deserto de água? Você já viu como é monótona a paisagem de uma barragem?
Produção e consumo
Não penso que se deva acabar com o que já temos. Mas tanto faz consumir serviços e produtos de países comunistas ou capitalistas, ou se ambos são imperialistas ou democráticos. Ou se é de uma empresa pública ou privada. No site de “Furnas”, por exemplo, eles chegam a comover, mostrando como estão empenhados em prestar um serviço que leve em consideração a proteção da natureza e das comunidades ribeirinhas. Enfim, conseguiram forjar o casamento perfeito entre o “social” e o “ambiental”.
Obviamente, é preferível estabelecer relações de troca com um servidor tipo “creative commons” do que com um de cartel, um truste. E antes que alguém aponte o dedo em riste, devo dizer que até o ar que se respira sai mais quente do corpo do que quando entra. A produção de calor e o gasto de energia são contínuos. Mas é preciso entender essa questão desde suas causas primordiais e suas implicações vitais.
Vou tentar dar um “upload” no material que estou louco para mostrar no youtube, mesmo. Mas fica em aberto a possibilidade de ser convencido a tirar de lá o que eu fiz e colocar em outro provedor.
Deu certo! Espero que curtam: http://youtube.com/watch?v=pR_z-H0b4UI
Depois de tanto debater a questão, ficamos sabendo que, na origem, o termo herói se prestava a homenagear os mortos, mas que passou a designar os atletas, ainda que a homenagem tivesse um caráter efêmero (via rirobas@visualnet.com).
E o marginal, quando é que se começou a cultuar o marginal? Será que foi na década de 60? Será que foram os trovadores medievais os primeiros a curtirem a boa brisa do slogan “caia no mundo e perigas ver”, ou foram aqueles monges que viviam apartados da sociedade e que acabaram se tornando da “ordem dos templários”, que acabou virando o que hoje é a maçonaria? Precisaria fazer uma pesquisa, mas ficam aí as dúvidas para serem resolvidas em algum outro momento, ou por quem puder responder.
De todo modo, os papéis me parecem que, instantaneamente, podem ser trocados entre o “marginal” e o “herói”, em algum ou vários momentos. O herói passa a ser marginal e o marginal, herói. Ah, sim, as definições que eu atribuo a um e a outro: acho que o herói é aquele a quem se reconhece um valor cujas preocupações perpassam a idéia de coletividade – por exemplo, o herói que salva o gatinho – e o marginal segue sua vida, por conta e risco, sem se preocupar em agregar um valor “social” a seus atos.
Bem, teria que falar aqui do marginal e do herói positivo e ativo, positivo e passivo, negativo e ativo, negativo e passivo, mas aí entraríamos em uma discussão sobre niilismo e nuances mil que não cabem neste texto.
Terminei de ler um livro chamado “A terra sem mal”, de Helene Clastres, sobre o mito Tupi-guarani de um lugar paradisíaco que os índios procuravam, bem antes da chegada do homem branco, mas que poderia ser encontrado durante a própria vida. Um lugar “onde as flechas sozinhas caçam os animais, onde o inimigo tem a carne saborosa e todas as mulheres são para todos os homens”.
Quem conduzia os índios para essa Terra sem Mal eram os Caraís. Os Caraís eram os únicos por quem os xamãs temiam e respeitavam. E que eram odiados pelos caciques. Viviam na solidão das matas e de vez em quando chegavam na aldeia para convencer as pessoas a irem com ele, errantes, pela floresta adentro. Eram os únicos que podiam entrar em tribos inimigas uma das outras sem serem devorados. Eram vegetarianos. Relata-se que um Caraí chegava ter 40(!) esposas. Não aceitavam presentes. Diziam-se deuses. Que não tinham pai. Espalharam-se pelo Brasil. Relata-se que houve expedições com mais de 14 mil pessoas que, para se tornarem leves e voar, dançavam dia e noite, à exaustão, ou mesmo até a morte. O que, para eles, era parte do rito.
Tamanha coincidência acabou facilitando a vida dos padres e a catequização das almas dos índios, que não precisavam mais o sacrifício de se perderem pelas florestas para encontrar Deus, que lhes daria um lugar no céu depois da morte. Padres que passaram a ser chamados de Caraí, também, pelos índios, devido à atividade espiritual que exerciam. O Caraí passou a ser chamado de Caraíba e depois todo branco se transformou em caraíba, tamanha a corrupção que a palavra obteve. Penso que a figura do Caraí encarna esses outros dois personagens, ao mesmo tempo: o do herói e o do marginal.
Gostaria de colocar a questão sobreposta entre o marginal e o herói com essa figura do Caraí e pensar que são figuras messiânicas, portadoras de alguma “mensagem” – mesmo quando negam – ao corpo social. Figuras que, por não temerem a morte, são transformadas
Gostaria de pensá-las como figuras arquétipicas, como o Rei, na carta de tarot. Figuras que merecem nossa atenção, não porque encarnadas de sentido no corpo da realidade física, mas em nosso próprio inconsciente, lá onde os signos fazem sentido.
Assumir-se marginal e herói, ou marginal ou herói, ou artista ou Caraí, em si, não quer dizer nada, mas pensar a evolução dessas figuras enquanto propulsoras de situações em que podemos nos colocar, me parece ser a poesia em estado de latência. E que vem lá de onde pulsa nossos dizeres.
Não sei se é isso, mas gosto de pensar que esse assunto me coloca questões que borbulham dentro de mim e que pedem passagem, seja em texto, seja em fala, seja em corpo, seja em alma.