18 de out de 2007

corpo erótico


O corpo erótico contemporâneo

Rubens Pileggi Sá

O termo erótico, ou, as manifestações do desejo do corpo, ou descoberta do prazer através das percepções sensoriais, que um dia teve enorme potência transformadora de costumes, nada mais celebra, agora, do que a consagração vitoriosa da mídia e do comércio de corpos prontos para o abate, como se tratasse de um corredor de matadouro, onde somos obrigados a ter prazer.

Esse “erotismo” se manifesta, por um lado, na venda de corpos prontos para o sexo. E passa por crianças dançando “na boquinha da garrafa” em programas infantilóides, dando uma sensualidade e potência ao corpo quando ele ainda não está pronto para isso. Passa, também, pela insistência de associar mulher “sarada” com cerveja gelada e, em outdoor, nas ruas, escancarando a miséria do fetiche: por exemplo, quando uma revista masculina anuncia uma mulher de “18, mas com corpinho de 15”.

Os homens não podem reclamar. Cada vez mais se tornam corpos-objetos. Cada vez mais são vendidos como produto para consumo, ainda que isso não signifique a mínima mudança nos padrões machistas e patriarcais de nossa sociedade. Capitaliza-se em cima dos gays, capitaliza-se em cima das minorias, enfim, o importante é criar nichos de mercado para se fazer negócios. O corpo erótico se tornou um negócio.

Estamos tão inseridos nas formas de exercício de poder, quanto no nosso próprio corpo enquanto lugar de luta, que precisa ser reinventado o tempo todo para existir além da ostentação da eterna jovialidade viril congelada na foto da parede.

Se há uma potencialidade que possa colocar em movimento o desenvolvimento de uma política do corpo, ainda hoje, essa política deve mirar, em primeiro lugar, a idéia de um corpo coletivo, de um lugar de trocas, de confianças mútuas, de compartilhamentos identitários, de criação participativa.

Mas para o corpo erótico, para a saciedade do prazer, não interessa a solidariedade, o coletivo, o outro, porque “as possibilidades de felicidades são egoístas”, como já definiu Cazuza, tempos atrás. E mais, violência e agressividade não são descartadas desse corpo-fissura, onde Eros e Tanathos se olham com desejo.

De todo modo, tal força vem da consciência de se saber que a idéia de corpo e, sobretudo, transformadora, portanto, subversiva. E, neste ponto, voltamos à questão das lutas sociais, culturais e econômicas. Subversão é a palavra chave diante da transformação do corpo em produto comercial, em carne para o abate. Não é nenhuma recusa, exatamente, à venda do corpo. Precisamos pagar nossas despesas diárias e dependemos de uma rede de produtos e serviços que, inclusive, possibilitam tal subversão. A questão é, então, como usar dessa força de subversão?

No caso do erotismo e do intrincado jogo onde o corpo é máquina criada que cria, a subversão está em, ao mesmo tempo, colocar e retirar da condição desejante o foco único que o capital tenta impor à sua manifestação. Ou seja, erótico pelo erótico, apenas. A autonomia do erótico. A compartimentalização das pulsões desejantes. Retirando delas sua potencialidade transbordante.

A matéria nos ensina a aceitar tal imposição, as de sujeito-carne, além e aquém da situação carne-objeto, seja homem, mulher, criança, velho, boi, eletricidade, o que for. Mas nem por isso precisamos nos colocar como representantes de papéis sociais definidos previamente segundo um padrão dominante de gosto. Podemos afirmar estados de diferenciações que levem, além da catarse e do choque, a formas de mobilização onde consciência e desejo, tesão e atenção, escolha e acaso possam pertencer ao nosso estado de realidade e presença. Sem esquecer da virtualidade, que é, também, parte da realidade. Os fótons da tela do computador, onde escrevo isso, queimam na minha retina. Erótico, presencial, ânima, animal.

A única maneira de enfrentar a concretude do indisível é deslocar para a criatividade nosso exercício do sensível. Nossa mais profunda forma de expressão. Nossa mais potente arma subversiva. Porque as trocas, aqui, não são feitas levando em consideração a mais-valia, mas sim em como mantermos as relações de troca, mais e mais. O gozo é o gozo. É a possibilidade de rir de si diante do espetáculo da banalização do erótico. Mas ele só pode ser gozado se for levado à sério: com a alegria de ser e estar no espaço-tempo do aqui-agora. Exige esse tipo de concentração. Mas é uma tática infalível. Infalível? Hahahaha... Infalível é a potência de um corpo aberto enquanto ele permanece intacto... ou enquanto fetiche, como quer a publicidade.

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