12 de dez de 2008

Ouvi Contar Que Outrora

Ouvi contar que Outrora - Ode Ricardo Reis/Fernando pessoa


Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranqüilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.


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Renzo Martens



A prática de Renzo Martens busca investigar e provocar a imagem doutrinada das paródias apresentadas pela mídia ocidental.

Como um tipo de trovador, Martens se aventura em paisagens caóticas que nós, como consumidores da tragédia, parecemos estar familiarizados. Em verdade é nesta familiaridade que interessa a Martens. Metaforicamente ele se identifica como um exemplo da mentalidade ocidental doentia ao explicitamente colocar-se dentro das condições diretas transmitidas pela televisão. Episode 1, seu filme de estréia, é uma viagem através da paisagem de uma Chechênia oprimida e devastada. Percorrendo campos de refugiados, Martens reverte o papel do entrevistador, aquele que normalmente documenta os refugiados e funcionários da ONU em sua situação atual, em uma patética história de amor de um jovem, com o coração partido e desesperadamente necessitando de atenção.

Desta forma, é o próprio Martens que se torna objetificado ao invés das imagens tão familiares ao redor dele.

Estas entrevistas extremamente inapropriadas geram um forte sentimento de desconforto e exasperação. No entanto, é precisamente esta estranheza que torna seu comportamento irreverente e egocêntrico sincero. Martens simboliza a economia do consumo midiático ao mesmo tempo em que se torna uma entidade eclética e terapêutica.

Prosseguindo em sua jornada no mundo como um espectador do paraíso, Martens tem investigado a África, particularmente o Congo, em seu produto de exportação potencialmente mais lucrativo: imagens de pobreza. Episode 3 revela de uma forma direta e confrontante, mas ao mesmo tempo ingênua, as possibilidades do Congo explorar sua própria pobreza além de seus produtos conhecidos, como a borracha e o cacau. As chocantes imagens da tragédia local tipicamente são utilizadas pelo Ocidente como lucros beneficentes enquanto que no local nada de positivo acontece.

Martens tenta liberar os congoleses deste círculo vicioso apresentando-se como um “salvador” que educa os habitantes a se beneficiarem de sua própria pobreza. Este gesto utópico leva a uma expedição épica de verdadeira revelação, na qual Martens, como sempre, aparece como o núcleo de seu assunto.

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