21 de jan de 2008

Cruzeiro do Sul



Cruzeiro do Sul

Sobre desaparecimentos e coisas que se perdem. Era disso que eu queria falar para eles. Uma agulha no palheiro. Uma amizade que se perde por causa de uma palavra fora do lugar, tornada ofensa. Mitos que somem no calor de um incêndio devastador na mata. Uma espécie rara de orquídea, que só existiu em um lugar que o gado pisoteou. Fragilidades de relações, enfim.

Talvez um pouco mais, do silêncio necessário para que o pequeno se torne presente. Ou do espaço requisitado por um símbolo para que ele signifique. Nada mais que um objeto que caiba na ponta do dedo. Um pequeno cubo de madeira, talvez, com um centímetro de cada lado, dividido em duas partes: de um lado uma madeira macia, de outro, uma madeira dura. Só isso.

Relações entre tamanhos e espaços ocupados. Relativização entre o que é grande e o que é pequeno. Formas culturais onde o que importa é a necessidade de uso que cada sociedade faz daquilo que inventa. E tudo ganhar uma importância para certo contexto onde turistas ouvem com aparente atenção e civilidade uma história de atrito e fogo, que logo irão esquecer, ou rotular como coisa de índio, louco, exóticos. Como alegoria, simplesmente.

Também não é só isso. Minha dificuldade em expressar em outra língua. O fato de que a curiosidade e a ansiedade são parceiras de longa data, impedindo um olhar mais aprofundado nas questões expostas, bem, era uma noite de “caipirinhas”, e eu contando sobre coisas frágeis que se perdem, não tinha, de fato, muito a ver. Histórias de bandidous chamam mais atenção.

O vazio foi ficando tão grande que se tornou insuportável. Lembro de Cildo Meireles, o autor de Cruzeiro do Sul, ter me dito que, em um museu da Espanha, os guardas velavam pela obra que havia sido roubada, no momento em que ele tinha ido visitar o museu e conferir a montagem de seus trabalhos. E somente o spot de luz brilhava no centro de nada.

Não tive mais vontade de ver os gringos depois disso. E nem eles a mim. E nem pelo Cildo Meireles, que eles não conheciam, se interessaram. Mas sei que a história desse Cruzeiro do Sul faz referência a extermínio de indígenas por fazendeiros, por posse de terras, ou seja, por ocupação de espaço. E aprendi, também, que muitas vezes é melhor se calar e se retirar, mesmo estando em seu próprio tempo e lugar, do que forçar uma amizade que não acontecerá, de toda forma. Sabendo que o silêncio é sempre suspeito. E frágil.

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