16 de ago. de 2012

O pac 'tucano' do pt


Ontem foi anunciado com estardalhaço plano de concessões para a construção e manutenção de rodovias e estradas de ferro no país, com direito à aclamação por Arnaldo Jabor, no Jornal da Noite, na Globo, e protestos enciumados de tucanos dizendo que eles já tinham isso definido desde o governo Fernando Henrique, mas que, para não dar o braço a torcer, o PT chama de concessões o que era denunciado como privatização. (Sh)Eike Batista chegou a dizer que o plano da presidência era o “kit felicidade”. Concordo plenamente. Com 80% do investimento financiado pelo BNDES fica fácil ser capitalista.
O que o governo pede, no entanto, para que uma empresa vença a concorrência, é que os preços das tarifas cobradas ao consumidor dos serviços prestados sejam os menores. Não li a fundo as notícias, nem li o plano que a golpista VEJA já anunciava, desde a última edição, em sua capa, como “o choque de capitalismo de Dilma”, mas não posso deixar de pensar que, se essa é a contrapartida exigida, realmente, o modelo neoliberal é que está em vigor.
Voltando à notícia veiculada pela TV, o que o JN se esforçava em mostrar era a presidenta Dilma anunciando, para um seleto grupo de empresários, o novo “PAC da infra-estrutura”. Todavia, como a TV Globo não podia borrar com efeito eletrônico a propaganda governamental ao fundo da presidenta, lá estava escrito: “país rico é país sem pobreza”. Então, por mais neoliberal que seja o tal pacote da infra-estrutura, alguma coisa trai essa atitude “tucana” do governo federal, pelo menos no slogan. E confiando que esse slogan ainda quer dizer alguma coisa para este governo, podemos refletir se o desejo (no slogan, ao menos) de justiça social vai contra ou a favor do progressista e desenvolvimentista pacote anunciado ontem. E em que medida ele torna a população brasileira menos pobre.
Seria de se perguntar, então, se o tal PAC da infra-estrutura prevê, como contrapartida, que se invista em projetos de impactos ambientais. Mas esse projeto de impacto ambiental não deve ser apenas aquele da “energia limpa”, mas o de sustentabilidade energética. Porque não adianta nada fazer uma obra ecologicamente correta – localmente – e devastadora, no que tange ao uso de energia não sustentável, por exemplo. Indo diretamente ao assunto: de que adianta uma “obra limpa” se, para que ela se realize é preciso criar usinas como a de Belo Monte? O que governos e empresários têm a dizer sobre isso? Aqui surge uma outra pergunta? Ao passar – contaminar, seja por proximidade, seja por uso do terreno – como isso será resolvido? Deslocando as comunidades sem consultá-las?
Do ponto de vista social, digamos que o empreendimento gere 100 mil novos empregos? O que representa isso em termos de população nacional? Um critério, além do preço que o consumidor irá pagar ao serviços prestados não deveria ser o salário que o empregador vai garantir aos seus empregados? Mais que isso, não era hora de garantir uma porcentagem do lucro para cooperativas de trabalhadores, com direito a voz e voto no empreendimento? Além disso, não se faz um país sem pobreza com gente mal instruída. Assim, seria de se perguntar se o governo tem um plano para o ensino e educação com o dinheiro dessas concessões. Quanto pretende investir em esporte, cultura, arte e saúde com essa verba e como vai fazer para que essa verba seja bem distribuída? Senão, fica o progressismo pelo progressismo, e isso será mais uma medida que, além de pífia e neoliberal, será mais um ataque ao meio ambiente e uma traição ao slogan do governo Dilma.

26 de jul. de 2011

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23 de jul. de 2011

O Infinito Labirinto ou a Balada Alienada


Carlos Zago 
            
Um ex-agente no Cáucaso me contou
um estória sobre umas flores que
ele roubou de um traficante de ópio
na Birmânia e me deu quatro pétalas pra
mascar dizendo que eu nunca mais
ia voltar do país dos sonhos

pensei que ele estava tristonho
quando disse-me sorrindo
que sua hora estava chegando
e que por isso ele iria partindo
em dois as mentes que pelo
caminho fosse encontrando

agradeci sem mais delongas
e ascendo para algum canto
que não sei bem se era um quarto
ou um antro
masquei três pétalas estranhas
daquela flor das montanhas que
supus ser papoula da Birmânia
apesar de nunca ter visto antes
as pétalas de papoula

agora já faz tempo eu sei que
descobri que não se tratava
do rubi oriental era uma outra
flor instrumental
que só conhecem alguns monges
do Nepal que a bebem em
um magnífico ritual onde os
iniciados buscam
entrar em um transe
transcendental
do qual nunca mais voltam
ao normal

nada disso eu sabia naquele
instante em que comia
que muitas eras depois eu
descobriria de onde foi que
minha alma descendia e por
quais caminhos meu carma
me levaria para alcançar
essa estranha sobrenatural
sabedoria

tirei os sapatos fumei um
cigarro e apaguei a luz
e mal deitei na cama,
desapareceu o quarto
e me vi deitado sobre o cume
de uma montanha
mil vezes mais alta que a
mais alta das montanhas do
Himalaia cercada por um
oceano mais vasto que qualquer
um já visto ou imaginado pela
mente humana
quis levantar e dar um grito
mas só consegui dar um
suspiro estava eu deitado
sobre o infinito? não sei

alguns segundos se passaram
ou foram os milênios que cantaram
enquanto abri e fechei os olhos
de uma lágrima que chorei
vi surgir um ser que jamais imaginei
em minha vida até então ser capaz
de conceber não há palavras para
dizer não há como descrever
era um Avatar a plena Luz do Ser
e tive medo e alegria sobre aquilo
que eu poderia chamar de sua cabeça
milhares de estrelas dançavam
em um céu que ao mesmo tempo
que se criava se desfazia

fechei de novo os olhos e
me tornei um com aquele ser
e ouvi então ressoar pot todo ar
e além do vácuo uma canção
muito muito delicada
como fosse cantada por todas
as vozes das crianças
de todas as épocas e lugares
da eternidade, era um canção
reveladora só uma sílaba
motriz e geradora
multiplicando-se livre
em infinitos tons e vibrações
nela pude ouvir a síntese viva
de cada um dos sons da criação
OM
em um mesmo instante que também
já era outro me vi deixando a idéia
de que eu tinha ainda corpo ou que fosse
sequer uma pessoa foi quando como
um sino que soa atravessei todos
os templos erigidos por todos os seres
que os erigiram e percebi que cada um desses
seres era um próprio templo em si
e perguntei ao tempo ao espaço e a matéria:
---- O que é o tempo o espaço e a matéria?


 imediatamente a resposta se formou
você, a montanha e o oceano
cada um dos grãos de areia da montanha
é outra montanha e cada uma das gotículas
do oceano é um outro oceano a montanha
e o oceano bailam, nesse bailado o oceano
em seu movimento vai decompondo a montanha
que é imóvel e que vai aderindo
ao oceano, chegará um momento em que toda
a montanha irá se dissolver acabando assim
com o movimento do oceano e com sua
própria imobilidade

nesse exato momento
começará
O Tempo
a partir daí o que haverá entre cada grão de
areia da montanha dissolvida a cada gotícula
do oceano será chamado de Espaço e Matéria
será todo o possível movimento realizado no
tempo por esse espaço imóvel

gargalhei imediatamente e de dentro de minha
boca surgiram duas flores uma azul mas de um
azul que era também tátil, gustativo e olfativo e
outra branca de um branco com todas as propriedades
da azul, a Flor branca disse para a azul por uma
boca que parecia a minha " Oceano " enquanto a
Flor azul dizia para a branca " Montanha" depois
disso a luz do quarto se acendeu e eu estava
novamente sobre a cama
Olhei entorno preocupado eu havia dormido
eu havia sonhado? Quem havia acendido
a luz do quarto? Na parede um grande quadro nele
pintado um quarto onde no lugar onde estaria
a minha cama
havia um vaso com duas flores não vou lhes
dizer as cores, mas para o horror dos horrores
na parede do quarto do quadro haviam outro
quadro de um quarto onde no lugar onde
estaria a minha cama havia um vaso
com duas flores não vou lhes dizer as cores,
mas para o horror dos horrores descobri
que não era um quadro era um espelho
que refletia as flores que eu havia me tornado
OM


Carlos Zago  (1976-2003)


e aqui o texto que escrevi sobre o Carlão, em 2003
http://www.canalcontemporaneo.art.br/arteemcirculacao/archives/000094.html

16 de jul. de 2011

papo com Jacq siano no facebook - sucesso e grana e crítica de arte


oi rubens, tudo bem?
Denunciar · 11:52
oi, querida, tudo certo. e vc?
Denunciar · 11:53
pois é, no dia de seu finissage, tive uma distensão de ligamentos numa dessas calçadas da vida e fiquei de molho com bota ortopédica
como moro num prédio sem elevador, saio pouquíssimo
Denunciar · 11:53
caramba... está melhor agora?
recebi seu convite. é na semana que vem, né?
Denunciar · 11:54
ainda de bota, mas bem melhor. o troço pesa pra caramba!
sim. quero saber como foi sua expo.
Denunciar · 11:55
ainda não postei as falas nem as fotos da finissage, mas as outras coisas estão no blog http://figurinhasnowhereman.blogspot.com
Denunciar · 11:56
vou espiar
Denunciar · 11:56
e mais uma página inteira no jornal BRASIL DE FATO, que é de pouca circulação, mas é nacional
Denunciar · 11:57
do extra acho que vi, mas vou olhar novamente - fiquei feliz por vc
Denunciar · 11:58
vc ficou savbendo do trabalho que realizei em um apartamento no evento CONTRABANDO, no Flamengo?
Denunciar · 11:58
não me lembro
Denunciar · 12:01
então, nessa linha de exclusão e mobilidade social... chama-se X. Levei um morador de rua para ser acolhido lá no apartamento durante os dias do evento. ele poderia ficar quando e quanto quisesse. Fiz uma cama de papelão e cobertor para ele ter como lugar seu (embora a casa toda lhe devesse estar livre) e essa cama ficava bem debaixo da janela que tinha a melhor vista da paisagem (dava para o pão de açucar). Foi impactante!
Denunciar · 12:02
imagino que sim.
Denunciar · 12:04
Vi suas serigrafias lá em Santa, durante o ortas abertas.
portas
Denunciar · 12:04
a sim, fiz algumas sobre papel jornal pra expo do dia 22
Denunciar · 12:05
uau, ia destacar que as tinha achado muito limpas...
Denunciar · 12:07
pois é, ali era outra situação, outro ambiente, talvez rolasse uma vendinha, hehe
Denunciar · 12:07
vender arte é tudo de bom
Denunciar · 12:08
só não pode é trabalhar pra isso.
vc sabe, eu nunca vendi trabalho algum
nem sei como isso funciona
Denunciar · 12:09
acho que com arte, até traballhar para isso pode, veja o caso da pop...
Denunciar · 12:09
hummm
Denunciar · 12:09
recebi muita crítica de meu trabalho
fiquei até assustado
Denunciar · 12:10
tipo
Denunciar · 12:10
gente dizendo que estava me promovendo com a imagem dos miseráveis
ou que era literal demais
Denunciar · 12:10
sabia... neginho é que é mto literal
Denunciar · 12:10
até da baixa qualidade das imagens vieram reclamar
o cara veio me ddizer que o professor de pintura dele tinha ensinado que não se pode pintar um porco porcamente
é como vc disse, o neoliberalismo está no gene das pessoas. Para eles só tem o sistema e tudo deve estar sujeito ao Capital.
Enfim, papo longo hehehe
Foi disso que se tratou a conversa na sexta
no encerramento da exposiçao lá no }}
e, só para voltar ao papo do $$$$$
Denunciar · 12:13
to cansada desses discursinhos
Denunciar · 12:13
e da FFFFFAMA
coloquei conceitualmente minha questão (depois vou fazer algumas reflexões por escrito) e disse que achava legítimo querer me promover
ter suce$$o, por que não?
vou te ccontar uma ccoisa
quando eu sai na primeira vez da universidade, saí porque não queria conviver com aquela mediocridade
quando voltei para escola eu pensei: não saio daqui para deixar os meddíocres ficarem no meu lugar, nunca mais
e é assim que eu penso sobre arte, também. Por um lado tem a arte e os artistas, e os artistas não têm, com sua arte, que consertar o mundo
Denunciar · 12:17
é isso, não pode dar espaço para esse pessoal, eles proliferam invadem e tomam conta
Denunciar · 12:18
do outro lado a gente tem de lutar, civilmente, pela organização da sociedade civil e pelo fortalecimento das instituições
li uma frase ddo Lobão agora que achei muito certa
Denunciar · 12:19
vou te mandar um link de um doc. feito sobre os "piratas" da somália.
Denunciar · 12:20
depois que ele saiu da cadeia, em 89, disse que os verdadeiros criminosos não eram os ladrões, traficantes e assassinos que estavam lá, com ele
que ccriminosos eram aqueles que permitiam que a sociedade se tornasse um organismo doente
Denunciar · 12:21
é disso que o doc fala. vc vai gostar.
Denunciar · 12:22
pensei que a frase do Lobão, atualizava a frase Beuys, que disse que a arte deveria curar a sociedade, que estava doente
Denunciar · 12:23
pois vc acredita que tem gente que fica ironizando o beyus, dizendo que ele era um aproveitador?
enviei o link, vê se chegou
Denunciar · 12:28
chegou sim. grato, vou ler.
Denunciar · 12:28
ok. bj. te espero nasexta
Denunciar · 12:29
beijão , boa recuperação, Jacq. Grato pela oportunidade do papo
Denunciar · 12:29
sim, tb gostei mto.
suce$$o pq viver é preciso e tem seus custo tb.
custos,:)

27 de fev. de 2011

QUAL É A SUA PRAIA?


      Talvez você já tenha recebido, via email, aquele pps (power point) sobre o despejo de dejetos na praia de Ipanema e Copacabana – e, por extensão, de todo o litoral nacional – que vem circulando na internet, pelo menos, há uns 3 ou 4 meses. Bem, ele fala dos emissários submarinos que levam todo o esgoto sem tratamento para meio do mar e sobre o fato de estarmos nadando no meio, literalmente, da merda. Recebo esses emails e fico me perguntando como eu, nos limites da minha condição pessoal e cidadão com deveres e direitos, posso fazer para mudar essa situação.
       Venho pensando em uma forma de criar uma pressão para que se faça uma ou mais usinas de tratamento de esgoto em Copacabana e Ipanema, filtrando o composto orgânico, para transformá-lo em adubo, em esterco. E, além disso, na possibilidade de separar o lixo, reciclando-o, devolvendo-o à produção, mas nem coleta seletiva de lixo tem nesses dois bairros. Lá, hein?, onde o metro quadrado é dos mais caros não só do Brasil, mas do mundo. Um local com um monte de restaurante, lanchonete, prédio, carro, gente... e a praia, bem, depois das 6 horas da tarde fica simplesmente nojenta. Esse pps que falei no começo faz a denúncia disso, mas eu não sei, se o Sheik Batista não tiver uma solução onde ele possa ver ali um real ganho de grana, não sei se a gente tem força para pressionar o poder público para que se abra uma campanha pela limpeza de nossas praias.
       Eu venho pensando que o Brasil precisa de se espelhar no que vem acontecendo agora nos países árabes, para derrubar nossas pequenas ditaduras, quero dizer, aquele poder que está cronicamente encastelado em algumas instituições e que precisa ser removido de lá, pelo bem da justiça, pelo bem do ambiente, pelo bem psicológico da nação. Dias atrás, vi duas matérias que me estarreceram. A primeira foi com um casal que quebrou uma agência do INSS, no sul. Eles não suportaram mais esperar para serem atendidos e criaram a confusão. Entrevistando o diretor do INSS local, a TV o mostrou dizendo que há muitos casos iguais ao do casal, mas, se todos fossem agir da maneira como agiram, o que iria acontecer? Para mim é líquido e certo. Tem é que tirar esse cara do comando do INSS. Ele é um incompetente. E ponto. Como é que ele justifica assim as lesões ao direito do contribuinte?
       Outra matéria foi que o juiz do STJ, Marco Aurélio, não levou adiante a punição a um outro juiz de MG que declarou, em uma sentença de briga de casal, que a lei Maria da Penha era "diabólica" e "que o mundo é masculino e assim deve permanecer". A alegação de Marco Aurélio é de que o juiz, hoje em dia, não é considerado alguém mais neutro diante dos debates sociais e que pode, sim, expressar suas opiniões. Meu deus! A expressão da diferença deve ser conservada dentro do estabelecimento de normas que se ajustem ao comum. É só ler Rancière com um mínimo de cuidado. Esse comum não quer dizer que se o sujeito quiser matar o outro em nome do livre arbítrio, isso ele pode fazê-lo. Ainda mais se tratando de um juiz diante de uma lei estabelecida. E a lei Maria da Penha condena a violência contra as mulheres. E, principalmente um juiz que estiver contra isso e dando sentenças que são frontalmente contra essa lei, está, sim, cometendo um crime e deve ser punido. Ora, ele não está em um boteco, em situação privada, falando aos amigos que pensam como ele! O problema não é o juiz ter opinião própria, o problema é não levar em consideração a idéia do comum.
       Normalmente eu sou um cara estourado, mas eu venho comendo sapo e mais sapo de motoristas que ultrapassam o sinal vermelho, de gente que joga o lixo na rua, de pessoas grossas e estúpidas sem a menor educação e consideração pelo outro, vizinhos adestrando cães aos berros na frente de minha janela, do mau atendimento crônico por parte de cobradores, taxístas, policiais, servidores públicos e privados e garçons da cidade que, ou eu viro Zen de vez ou eu vou ficar estúpido como eles. À massa lhes é dada música repetitiva e barulhenta, TV de canal aberto de baixíssimo repertório e um jornal de direita, positivista, progressista e moralista. É essa a paisagem que a gente tem de enfrentar.
       Não é que o casal que quebrou a agência do INSS esteja certo. E eu nem sei quem foi e por que veio à tona a lei Maria da Penha no processo da mulher com seu (ex?) companheiro. Mas eu acredito que é preciso ter sensibilidade o suficiente para garantir o direito do fraco sobre o forte, inclusive, nos moldes colocados pelo novo juiz do STJ, Luiz Fux, durante a sabatina de sua posse, no Senado, que eu assisti pela TV Senado. A instituição deve acolher, e não isolar ainda mais o fraco que se volta contra a força opressora da lei.
       Quanto a mim, só posso agir assim, também, pelo menos enquanto me sinto lúcido e parte de um sistema institucional. Mesmo que a sociedade seja, aos olhos dela mesma, apenas uma massa de manobra de Sheiks e políticos progressistas (no sentido positivista de ordem e progresso) de todos os matizes. Agir contra a paisagem, mas contra, colocando-a de fundo para as minhas figurações, não a negando, porque assim seria anular minha condição institucional. Minha identidade de cidadão, tornando-me "o garçom de costeleta do sistema da babilônia", como já disse o Oswald de Andrade sobre a sociedade de sua época.
       Odeio nadar sabendo que tem merda na praia que eu frequento, mas, por sorte do destino, aprendi a ser menos duro e rígido também, comigo. E para não ser o chato ecológico que fuma escondido, o religioso perverso, o buda alienado, o comunista autoritário e nem o ativista impotente que se deixa capturar por mecanismos de poder, sem se aperceber dessa ocorrência, eu tenho sido, assim, uma espécie de ermitão, de eremita, mantendo ao máximo possível a austeridade. Até porque sempre fui pobre. Até porque sempre quis que a arte se fundisse à minha vida e, de alguma forma amalgamada, esse estado pudesse me completar em todos os sentidos: físicos, materiais e espirituais.
       Acho que é uma questão de educação, acho que é uma questão de política pública, acho que é uma questão pessoal, mas acho, também, que devemos nos organizar coletivamente para questões pontuais, fazer nossas ações se voltarem para a paisagem real, a que se esfrega em nossa carne, em nossos ossos, em nosso olhos. Pelo direito à cidadania e contra os poderes de exceção, porque esses, com a força dos aparatos de poder, apenas cultivam o desenvolvimento das exclusões. Contra naquele sentido descrito acima, porque, assim, não é na sucessão dos acontecimentos que desenvolvemos nossas estratégias - que podem ser, inclusive, a de permanecer inativo - mas na própria simultaneidade entre o que sou eu e o que me representa. Isso, finalmente, não tira a merda da praia, mas evita que eu me confunda com ela.

22 de fev. de 2011

Rodoviária


Na praça de alimentação, só tem vaca no cardápio
Vegetariano passa fome
O caixa eletrônio é do outro lado da estação
No corredor de embarque
um homem estica o pescoço para ver
o horário das partidas
De que lado fica a plataforma 13?
É preciso mostrar as passagens
Um casal se beija diante da catraca
e se separam com lágrimas nos olhos.
Ela foi viajar
E nunca mais voltou.

Antes eu não sabia de nada
E me perdi
Agora eu sei uma coisa
Mas isso, ainda
não me leva a lugar algum.
Outro ônibus vai embora
Melhor esquecer.

Dura é a experiência da memória.

26 de jan. de 2011

COISAS DE BELA VISTA

DESENCAPETAMENTO

Coisas do Rio de Janeiro

Na rua

- Moço, o senhor pode me ajudar? Eu era traficante lá da comunidade do morro do Cruzeiro, minha mãe está internada no hospital público aqui do seu bairro, eu vim ver como ela está, eu estava preso e preciso de R$ 7,50 para voltar para a prisão...

27 de nov. de 2010

Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

Repúdio ao revide violento das forças de segurança pública no Rio de Janeiro, e às violações aos direitos humanos que vêm sendo cometidas

Desde o dia 23 de novembro a rotina de algumas regiões do Rio de Janeiro foi alterada. Após algumas semanas em que ocorreram supostos "arrastões" (na verdade, roubos de carros descontinuados no tempo e no espaço), veículos seriam incediados. Imediatamente, as autoridades públicas vieram aos meios de comunicação anunciar de que se tratava de um ataque orquestrado e planejado do tráfico de drogas local à política de segurança pública, expressa principalmente nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tal interpretação nos parece questionável, em primeiro lugar porque não foi utilizado o poderio em armas de fogo das facções do tráfico, e sim um expediente (incêndio de veículos) que, embora tenha grande visibilidade, não exige nenhuma logística militar. Em segundo porque, se o objetivo fosse um dano político calculado ao governo estadual, as ações teriam sido realizados cerca de dois meses atrás, antes das eleições, e não agora. As ações, que precisam ser melhor investigadas e corretamente dimensionadas, parecem mais típicas atitudes desorganizadas e visando impacto imediato, que o tráfico varejista por vezes executa.
Seja como for, desde então, criou-se e se generalizou um sentimento de medo e insegurança. Esta imagem foi provocada pela circulação da narrativa do medo, do terror e do caos produzida por alguns meios de comunicação. Isto gerou o ambiente de legitimação de uma resposta muito comum do poder público em situações como esta: repressão, violência e mortes. Principalmente nas favelas da cidade. Além disso, mobilizou-se rapidamente a idéia de que a situação é de uma "guerra". Esta foi a senha para que o campo da arbitraridade se alargasse e a força fosse utilizada como primeiro e único recurso.
Repudiamos a compreensão de que a situação na cidade seja de uma "guerra". Pensar nestes termos, implica não apenas uma visão limitada e reducionista de um problema muito complexo, que apenas serve para satisfazer algumas demandas políticas-eleitoreiras, mas provoca um aumento de violência estatal descomunal contra os moradores de favelas da cidade. Não concordamos com a idéia da existência de guerra, muitos menos com seus desdobramentos ("terrorismo", "guerrilha", "crime organizado") justamente pelo fato de que as ações do tráficos de drogas, embora se impondo pelo medo e através da força, são desorganizadas, não orgânicas e obviamente sem interesses políticos de médio e longo prazo. Parece que, ao mencionarem que se trata de uma "guerra" ao "crime organizado", as autoridades públicas querem legitimar uma política de segurança que, no limite, caracteriza-se apenas por uma ação reativa, extremamente repressiva (que trazem conseqüências perversas ao conjunto dos moradores de favelas) e que, no fundo, visa exclusivamente e por via da força impor uma forma de controle social. As ações feitas pelos criminosos e a resposta do poder público que ocorreram nesta semana, somente reproduz um quadro que se repete há mais de 30 anos. Contudo, as "políticas de segurança pública" se produzem, sempre, a partir destes eventos espetaculares, portanto com um horizonte nada democrático. É importante não esquecer que, muito recentemente, as favelas que agora viraram símbolo do enfrentamento da "política de segurança pública" já tenham sido invadidas e cercadas em outros momentos. Em 2008, a Vila Cruzeiro foi ocupada pela polícia. Em 2007, o Complexo do Alemão também foi cercado e invadido. O resultado, todos sabem: naquele momento, morreram 19 pessoas, todas executadas pelas forças de segurança.
As conseqüências práticas da idéia falsa da existência de guerra é o que estamos vendo agora: toda a ação de reação das forças de segurança, que atuam com um certa autorização tácita de parte da população (desejosa de uma vingança, mas que não quer fazer o "trabalho sujo"), têm atuado ao "arrepio da lei", inclusive acionando as Forças Armadas (que constitucionalmente não podem ser utilizadas em situações como estas, que envolvem muitos civis, e em áreas urbanas densamente povoadas). Não aceitamos os chamados "danos colaterais" destas investidas recorrentes que o poder público realiza contra os bandos de traficantes. Discordamos e repudiamos a concepção de que "para fazer uma omelete, é preciso quebrar alguns ovos", como já disseram as mesmas autoridades em questão em outras ocasiões.
Desde o começo do revide violento e arbitrário das polícias e das forças armadas, há apenas uma semana, o que se produziu foi uma imensa coleção de violações de direitos humanos em favelas da cidade: foram mortas, até o momento, 45 pessoas. Quase todas elas foram classificadas como "mortes em confronto" ou "vítimas de balas perdidas". Temos todas as razões para duvidar da veracidade desse fato. Em primeiro lugar, devido ao histórico imenso de execuções sumárias da polícia do Rio de Janeiro, cuja utilização indiscriminada dos "autos de resistência" para encobrir tais crimes de Estado tem sido objeto de repetidas condenações, inclusive internacionais. Em segundo lugar, pelo que mostram as próprias informações disponíveis, o perfil das vítimas das chamadas "balas perdidas" não é de homens ou jovens que poderiam estar participando de ações do tráfico, e sim idosos, estudantes uniformizados, mulheres, etc. Na operação da quarta-feira (24/11) na Vila Cruzeiro, por exemplo, esse foi o perfil das vítimas, segundo o detalhado registro do jornalista do Estado de São Paulo: mortes - uma adolescente de 14 anos, atingida com uniforme escolar quando voltava para casa; um senhor de 60 anos, uma mulher de 43 anos e um homem de 29 anos que chegou morto ao hospital com claros sinais de execução. Feridos - 11 pessoas, entre elas outra estudante uniformizada, dois idosos de 68 e 81 anos, três mulheres entre 22 e 28 anos, dois homens de 40 anos, um cabo da PM e apenas dois homens entre 26 e 32 anos.
Além disso, a "política de guerra" produziu, segundo muitas denúncias feitas, diversos refugiados. Tivemos informações de que moradores de diversas comunidades do Complexo da Penha e de outras localidades não puderam retornar às suas casas e muitas outras ficaram reféns em suas próprias moradias. Crianças e professores ficaram sitiados em escolas e creches na Vila Cruzeiro, apesar do sindicato dos professores ter solicitado a suspensão temporária da operação policial para a evacuação das unidades escolares. As operações e "megaoperações" em curso durante a semana serviram de pretexto para invasões de domicílios seguida de roubos efetuadas por policiais contra famílias. Nos chegaram, neste sábado 27/11, depoimentos de moradores da Vila Cruzeiro que informavam que, após a fuga dos traficantes, muitos policiais estão aproveitando para realizar invasões indiscriminadas de domicílios e saquear objetos de valor.
Não bastasse tudo isso, um repertório de outras violações vêm ocorrendo: nestas localidades conflagradas, os moradores se encontram sem luz, água, não podem circular tranquilamente, o transporte público simplesmente deixou de funcionar, as pessoas não podem ir para o trabalho, escolas foram fechadas e quase 50 mil alunos deixaram de ter aulas neste período, e até toque de recolher foi imposto em algumas localidades de UPP, segundo denúncias. As ações geraram um estado de tensão e pânico nos moradores destas localidades jamais vistos. As favelas do Rio, que são verdadeiros "territórios de exceção" onde as leis e as garantias constitucionais são permanentemente desrespeitadas, em primeiro lugar pelo próprio Poder Público, vivem hoje um Estado de Exceção ainda mais agravado, que pode ser prenúncio do que pretende se estabelecer em toda a cidade durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Repudiamos, por fim, a idéia de que há um apoio irrestrito do conjunto da população às ações das forças de segurança. De que "nós" é esse que as autoridades e parte dos meios de comunicação estão falando? Considerando o fato de que a cidade do Rio de Janeiro não é homogênea e que existem diversas versões (obviamente, muitas delas não são considerados por uma questão política) sobre o que está acontecendo, como é possível dizer que TODA a população apóia a repressão violenta em curso? Certamente, esse "nós", esse "todos" não incluem os moradores de favelas da cidade. E isso pode ser verificado a partir das inúmeras denúncias que recebemos de arbitrariedades cometidas por policiais.
Diante de tudo isso, e para evitar que mais um banho de sangue seja feito, e para que as violações e arbitrariedades cessem imediatamente:
* Exigimos que seja feita uma divulgação dos nomes e laudos cadavéricos de todas as vítimas fatais, bem como dos nomes das vítimas não-fatais e suas respectivas condições neste momento;
* Exigimos também que seja dada toda publicidade às ações das forças de segurança, permitindo que estas sejam acompanhadas pela imprensa e órgãos internacionais;
* Exigimos que sejam dadas amplas garantias para efetivação, acompanhamento e investigação das denúncias de arbitrariedades e violações cometidas por agentes do Estado nas operações em curso;
* Exigimos que estas ações sejam acompanhadas de perto por órgãos públicos como o Ministério Público, Defensoria Pública, Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e do Congresso Federal, Secretaria Especial de Direitos Humanos - SEDH, Subsecretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, além de outras instituições independentes como a OAB (Federal e do Rio), que possam fiscalizar a atuação das polícias e das Forças Armadas.
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.
Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 2010.

15 de nov. de 2010

Sessão na Câmara Municipal do Rio - 12/11/2010

Cenas da Sessão na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para busca de soluções para o problema dos moradores em situação de rua, com a presença do Mininstro da Secretaria dos Direitos Humanos Paulo de Tarso Vanuchi, presidida pelo vereador Reimont e com muita participação do público, sedento por mudanças que atendam urgentemente essa população.

















 Sobre a reunião:
Paulo de Tarso Vanuchi é um poeta dos direitos humanos. Quando ele fala até as pinturas e estátuas prestam atenção.
Em compensação deu vontade de vaiar o representante da prefeitura, que chegou atrasado, não tinha poder de resolução e a prefeitura deixou de agir prontamente, cuprindo sua parte na defesa dos direitos da população carente da cidade do Rio de Janeiro. Para realizar choque de ordem, dando porrada em pobre são rápidos...
Abaixo, uma carta aberta elaborada por várias entidades, que teve partes lida pela Kátia, do Movimento de População de Rua: 


Carta Aberta à População Brasileira
Formulada a partir do Seminário Estadual sobre políticas públicas para pessoas em situação de rua.
Tema: “O Impacto dos Megaeventos no Rio de Janeiro”
POPULAÇÃO DE RUA: Conceituação
    3- Para fins da Política Nacional para População em Situação de Rua adotar a seguinte noção de população em situação de rua por ser uma noção, ainda em construção, mas que procura contemplar os diferentes recortes conceituais já adotados em pesquisas censitárias e na elaboração de políticas públicas conforme reconhece a pesquisadora que a adota: considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo, que tem em comum a pobreza absoluta, os vínculos familiares fragilizados ou interrompidos, a inexistência de moradia e sustento por contingência temporária ou de forma permanente, podendo utilizar albergues para pernoitar e abrigos, repúblicas, casa de acolhida temporária ou moradias provisórias, no processo de construção de saída das ruas.
(Maria Lúcia Lopes da Silva, 2006) – Da Carta de Brasília
    Sendo formada por maioria adulta, com problemas de saúde mental, fragilizada pelo rompimento de laços afetivos ou por trauma causado por situações de sinistro, dependência de drogas, problemas graves de depressão, evasão de terra natal em busca de oportunidades entre tantas outras condições que levam um cidadão passar a morar na rua, essa parcela da população quer fazer valer seus direitos garantindo que se cumpra o proposto na Constituição Federal do Brasil.
    O Movimento Nacional da População de Rua, que surgiu em São Paulo e hoje já en
contra-se organizado em diversos estados brasileiros, vêm reunindo, em encontros periódicos, a população que se encontra em situação de rua para discutir e vislumbrar caminhos da política social que venham de encontro aos anseios e necessidades dos mesmos.

    Esta carta foi elaborada pelos participantes do Seminário Estadual do Rio de Janeiro, promovido pelo Movimento Nacional da População de Rua com apoio da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Instituto Pólis, Governo Federal, Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, FRENTE MOSAICO DAS RUAS (Associação dos Catadores da População em Situação de Rua do Estado do Rio de Janeiro - ACPRURJ, Movimento Mosaico das Ruas Movimento pela Vida – Mosaico e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST/RJ, como documentado no NUDEDH-RJ) e versou sobre “ Os Impactos dos Megaeventos no Rio de Janeiro”, sendo realizado nos dias 9 e 10 de Junho de 2010 no Bairro da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
    Durante o Seminário foram realizadas exposições por meio de painéis com a participação de representantes do Ministério Público de Belo Horizonte, Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública (NUDEDH-RJ) e Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da OAB, representantes do legislativo municipal e estadual, assim como representantes do Governo do Estado nas áreas de Saúde e Assistência Social, bem como por representantes de organizações não governamentais que atuam diretamente na abordagem, acolhimento e amparo à população em situação de rua.
    Após discussão em grupos, debates e estudo da Carta de Brasília e do Decreto nº 7.053 de 23 de Dezembro de 2009, instituindo a Política Nacional para População em Situação de Rua e a criação do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento, os participantes chegaram às seguintes considerações:
    - Fica evidenciada a situação de profundo desrespeito, violências e violações dos direitos humanos nas principais cidades do estado do Rio de Janeiro, tendo em vista experiência comuns de maus-tratos, truculência policial, agressões, violência, desrespeito, rejeição, discriminação, extravio e roubo de pertences pessoais por parte da polícia, desumanidade, julgamento preconceituoso, uso de denominações acusativas e preconceituosas.
    - Foi detectada também grande preocupação com relação às ações promovidas pela Guarda Municipal – SEOP e do processo de higienização que, mascaradamente, se inicia visando preparar “limpar” o Rio para os Megaeventos que estão por iniciar nos próximos anos.
    Essas considerações são resultado de discussões em grupo feitas por todos os participantes do Seminário (pessoas em situação de rua e representantes de Ongs e entidades acima citadas), onde a proposta foi responder à duas principais questões:
  1. O que está acontecendo na Cidade do Rio de Janeiro e quais os direitos civis que estão sendo violados em relação à população em situação de rua e a assistência social?
  2. O que fazer?
Os resultados, apresentamos abaixo, em síntese:
  1. Os direitos violados são:
Direitos básicos: trabalho, educação, moradia digna, educação, saúde (incluindo direito à tratamento da Adicção, considerada pela OMS como doença incurável e passível de monitoramento), cidadania (direito a ter documentação legalizada e isenção nas taxas municipais, estaduais e federal).
    Direito de ir, vir e permanecer em qualquer espaço do Território Nacional, conforme consta na Constituição Brasileira.
    Direito de se manifestar abertamente, com respeito as diferenças culturais, de gênero e raça sobre as necessidades prementes.
    Direito de igualdade e de ser ouvido.
    Direito a Integridade física e psicológica.
    Direito ao respeito.
    Direito ao sono.
    Direito a dignidade humana.
    Direito a autonomia (cidadão detentor de sua própria vida) em relação as escolhas do modo de vida.
    1. Sobre a situação atual:
Despreparo total dos agentes públicos no trato com moradores em situação de rua, somados às condições insalubres dos abrigos que não oferecem condições mínimas de albergagem e de reinserção.
Ausência de Políticas Públicas e programação ineficaz da Secretaria de Assistência Social.

    O que fazer a respeito?
  1. Articular com os poderes públicos nas instâncias tanto Municipais como Estadual.
  2. Denunciar os desmandos dos guardas municipais e aplicar improbidade administrativa e crime de responsabilidade aos secretários responsáveis pela SMAS e/ou CEOP.
  3. Encaminhar uma ação civil pública na corte interamericana, enquadrando estado e município como criminalizadores da população em situação de rua.
  4. Reforma total no sistema de abordagem social, com ampliação (quanta e qualitativamente) de cursos de formação, com inserção de noção de direitos humanos e sensibilidade social com adoção do teste de drogas e álcool para esses agentes.
Elaboração e aplicação de cursos também para os envolvidos de forma direta e indiretamente no trato com população em situação de rua.
5.                   Melhorias no sistema de atendimento ao migrante com criação de fundo para retorno do migrante à Terra Natal quando esse, e só quando esse, manifestar interesse em voltar ao seu estado, com garantia para alimentação durante a viagem de retorno.
6.                   Denunciar calúnias e falta de parcialidade nas mídias que criminalizam a população em situação de rua, utilizando-se do Poder Público e/ou Privado alternativo unindo-os aos Movimentos Sociais para difusão da realidade da população em situação de rua. Criando-se um 0800 (ouvidoria) Coordenado pela “FRENTE MOSAICO DAS RUAS.
7.                   Trazer os Centros de Triagem para zona central das cidades (conforme Decreto 7.053), possibilitando, pela proximidade comercial, a continuidade de trabalhos formais e informais que geram renda e permitem que a população em situação de rua se organize e crie perspectivas de futuro fora das ruas, assim como, cria uma maior visibilidade de todos os setores em relação à situação real em que vive a sociedade brasileira.
8.                   Criação de Centro de Reabilitação e Reinclusão Social da População em Situação de Rua, que fomente criação de cooperativas e iniciativas empreendedoras para geração de renda, com apoio ao protagonismo e à organização autônoma.
9.                   Fazer valer a Constituição Federal, Estadual e Lei Orgânica, otimizando Estado e Municípios à adesão ao Decreto 7.053 de 23 de Dezembro de 2009.

No Estado do Rio de Janeiro, a população em Situação de Rua tem organizadas suas representação e representatividade através da “FRENTE MOSAICO DAS RUAS”, como documentado junto ao NUDEDH – RJ, composta pela parceria dos segmentos: Movimento Mosaico das Ruas Movimento pela Vida (Mosaico), Associação dos Catadores da População em Situação de Rua do Estado do Rio de Janeiro (ACPRURJ) e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST-RJ).
Contando com apoio e parceria da Pastoral de Rua e do PSF/ Consultório de Rua da População em Situação de rua, a vinculação da Política Pública Estratégia de Saúde da Família a do Consultório de Rua foi a forma como o Município do Rio de Janeiro elegeu para construir um campo de atuação específico e inédito: um projeto de atenção básica vinculada ao território da rua destinado a garantir o acesso à saúde pública à população cuja as vidas se situam no mesmo.
Duas equipes foram montadas e sediadas dentro de Centros Municipais de Saúde visando integrar as ações na rua aos atendimentos que demandam espaço físicos e equipamentos específicos, além de favorecer o acesso da população em situação de rua ao próprio Centro de Saúde e a outros serviços do SUS.
            Rio de Janeiro, 11 de Novembro de 2010.

29 de out. de 2010

Problemas de passagem: quando a exceção se torna regra

Problemas de passagem: quando a exceção se torna regra

Em primeiro lugar, deixo claro que o presente texto é movido pela proximidade do segundo turno das eleições presidenciais e sua importância na história do país. Diria, tão importante que parte da grande mídia assumiu-se, definitivamente, como “partido político” a serviço de uma candidatura cujos compromissos com os setores mais retrógrados da sociedade são evidentes. Pois bem, o que eleição e arte podem ter em comum? Mais amplamente: o que, ou onde se tocam o campo da arte e da política?  E, de forma mais incisiva: quando arte e política não estiveram juntas? Além de tudo, será que a subjetividade da arte pode ser uma condutora na percepção da própria realidade prática que a política se propõe a objetivar?
No último sábado, dia 23 de outubro, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, assistimos a um debate sobre ‘Arte e política’ com três importantes atores do cenário artístico das artes visuais nacional: o artista Carlos Vergara, o artista Cildo Meireles e o curador e crítico de arte Moacyr dos Anjos. Para quem não sabe, Moacyr é o curador da Bienal Internacional de Arte de São Paulo deste ano, cujo tema é, de novo, sobre arte e política. Digo de novo porque a maioria das bienais, depois de 1998, usaram esse tema – ou essa relação – como mote para a realização de suas curadorias. Se aquela do Alfons Hug pode ser considerada uma exceção, justiça seja feita com o trabalho Vazadores, do Rubens Mano, uma obra sublimemente política.
Voltando ao debate no Moreira Salles, dos Anjos colocou, em sua fala, um trecho do filme Je vous salue, Marie, de Jean Luc Godard, onde é enfatizada a frase: “cultura é a regra, arte, a exceção”. Ou seja, a propaganda, a mídia, a comunicação de massa, tudo isso leva a uma padronização manipulada pelos poderes, enquanto a arte nos leva à diferenciação. Citando Rancière, do Anjos nos lembra que, antes de ser consensual, a política é a arte de criar dissensos. É oferecendo oportunidades para que as diferenças venham à tona que a política se estabelece enquanto prática. O contrário seria o totalitarismo. O curador mostrou, também, algumas imagens de sua curadoria na bienal, como as notas de zero cruzeiro, do Cildo e o bólide Homenagem a Cara-de-Cavalo, de Hélio Oiticica. Mostrar a exceção pela arte levando em consideração o dissenso na política pareceu ser uma questão em que dos Anjos fez questão de conduzir seu trabalho.
Também falaram Cildo e Vergara. O primeiro, ao contrário do que se possa imaginar, busca se livrar do rótulo de artista-político. Para ele, mesmo o Totem monumento ao preso político, de 1970, onde são queimadas 12 galinhas vivas, pode ser interpretado como um trabalho de arte cujas simbologias estão fora do contexto político, ainda que, ressalva o artista, é preciso lembrar à época em que o trabalho foi feito. Já nas respostas às perguntas do público, Vergara lucidamente disse que um trabalho político pode ser Lighting Field, de Walter de Maria, por concentrar uma tempestade dentro de si. Citou também um ou outro trabalho de Richard Serra e tantos outros, mostrando que não é a filiação à corrente política que faz um trabalho se tornar político. Contudo, o que vale no trabalho de arte é sua poética. Essa a sua arte. Trazendo Rancière novamente ao debate, lembro, para reafirmar Vergara, que no texto Política da arte, o filósofo defende que é no regime da estética que a arte realiza sua política. Todavia, Vergara e Cildo deixaram claro que, para eles, a relação entre arte e política não era aquela de fazer trabalhos “panfletários”, ainda que, em Vergara, isso se tenha tornado impossível nos idos da época da ditadura militar, como o próprio chegou a testemunhar.
Sobre o fato de Cildo ser ou não um artista que envolve suas questões com política, dos Anjos até brincou, se perguntando se a obra que Cildo expõe na Bienal 2010 não é política, então o que seria uma obra política? Dínamo é o nome da peça, como explica o próprio autor. Não a vi, mas pela descrição, trata-se de uma imagem pela qual o espectador é seduzido até ela através de uma porta no topo de uma escada –um mar com caravelas – e, ao aproximar-se, vê, abaixo do seu corpo (o espectador fica em uma espécie de píer) que ela é movida por 4 homens que empurram um engenho girando em torno de um eixo. Cildo explica, ainda, que são 4 homens divididos em 2 turnos. Visitantes interessados em entender as motivações de fato políticas da obra de Cildo conversaram com os homens, que são ATORES, e perguntaram sobre como eles se sentiam trabalhando ali. Eles disseram que 3 já haviam desistido. A desistência aconteceu dois dias após a abertura oficial da Bienal. Os homens recebem 1.050 reais por mês e podem parar para comer 3 hambúrgueres ou quando estiverem cansados.
Falando em Bienal, um outro trabalho lá exposto não pode deixar de ser comentado, mesmo que, aparentemente, não tenha relações explícitas com a questão política. Trata-se de Bandeira Branca, de Nuno Ramos. Um trabalho composto por três urubus vivos (ou que deveria estar composto por, já que a exibição dos urubus acabou sendo vetada pelo IBAMA[1]). Se a obra não tinha intenção de se tornar política, a polêmica gerada em torno dela não permitiu que assim permanecesse. O que era para se tornar exceção, como gostaria dos Anjos em relação à Godard, acabou gerando dissenso, o dissenso, uma entropia, e a entropia, um excesso de interioridade, como diria Foucault. O que eu gostaria de fazer perceber, no entanto, é que ambos os trabalhos, Bandeira Branca e Dínamo, parecem redundar na prática da exceção em um lugar onde se espera ver a exceção e, assim, menos do que serem vistos como políticos, podem ser interpretados como perversos, também. E aqui, por mais que tentem me convencer que os urubus nasceram em cativeiro, que todas as condições de conforto, alimentação e saúde lhes foram asseguradas para a exibição dos bichos, não há como negar seu funcionamento como peças qualquer no aparato cognitivo que o artista inventou para colocá-los presos na instituição arte. Como um exemplo dessa perversidade, cito as sucessivas remontagens do ambiente Tropicália, de Hélio Oiticica, de 1967, onde há várias araras e papagaios presos. Lembro que o próprio Oiticica diz que suas obras são importantes para determinado contexto e, fora dali, pouco valem. Lembro, também, da venda da “obra original” à Tate Modern, feita pela família Oiticica, com direito à quatro (?) reproduções da “obra original” do artista, fato assinalado, mais de uma vez, pela crítica e curadora Lisette Lagnado[2]. E, lembro que Bandeira Branca já foi exposta em Brasília, antes de ser exposta na Bienal.
Do mesmo modo Dínamo. Ainda que os trabalhadores estejam executando aquele serviço contratados em regime legal de trabalho, não deixa de ser humilhante o serviço subalterno de carregar a obra de arte nas costas, durante x horas, todos os dias, enquanto durar a Bienal 2010. Lembro aqui que esse tipo de estratégia se repete com outros artistas, como as diversas formas de humilhação que o artista Santiago Sierra impõe às pessoas em seus trabalhos, e gostaria de contrapor a esse fato ações como as do coletivo Yes Men. Em uma delas, o coletivo chegou a clonar a página da OMC na internet e conseguido, com isso, receber o convite da federação do comércio da Finlândia para ministrar uma palestra a empresários locais[3] sobre negócios e empreendimentos financeiros. Na sede da tal instituição nossos artistas demonstraram como seria a roupa do empresário do futuro: um colant dourado com uma protuberância enorme simulando um pênis que, ao ser inflado transformava-se em uma espécie de escrivaninha com um computador que servia para controlar escravos. Tudo na mais alta boa fé por parte tanto dos ouvintes, quanto da imprensa. Ou seja, foram procurar fazer a exceção lá onde a regra predomina. Há outros exemplos, como o de Yuri firmeza que inventou um artista que viria do Japão para fazer uma retrospectiva em Recife, enganando toda a imprensa, que não se deu trabalho de checar a informação, previamente. Voltando à nossa realidade, creio que a firme crença de se construir exceções como regra, na curadoria da bienal, induziu ao erro nossos curadores, mais uma vez. Quero dizer, a relação entre arte e política foi tomada sob o ponto de vista histórico, museológico, onde o eco que repete “lá nos anos 60 é que era bom” parece retumbar até hoje nos nossos ouvidos. Não foi à toa que Cildo reclamou que em nossa política atual sobrava mais do mesmo, entre ter de eleger Dilma ou Serra. Eu diria – posso estar retumbantemente errado – que essa visão é fruto de uma crença quase cega na criação artística como criadora, por si mesma, de exceção. E é engraçado pensar assim depois de terem sido descobertos os mecanismos da “aura do objeto artístico na era da reprodutibilidade”. Depois da colagem cubista. Depois do Hip Hop. E depois da profusão de imagens disseminadas aos quinquilhões pela internet, todos os dias. Fica parecendo que o regime da arte não só ficou preso a uma idéia de criação, originalidade e defesa da propriedade intelectual, como ainda não chegou à era da plágio-combinação, do copy left, wu ming, software livre. Parece querer negar o dispositivo do circuito como se esse não estivesse comprometido até a medula com o mercado que gera sua circulação. Ou seja, a exceção na exceção artística, nesse caso, só faz contribuir para o acúmulo da regra, na cultura.
Mas seria uma falta de generosidade de minha parte não me permitir aprofundar a critica no sentido de compreender que, também e, mesmo, o que é político, público e cultural só possa se manifestar fora do museu. O museu também é público, lugar de se fazer política, local onde, no mais das vezes, a regra, sim, se confirma. E, por isso, devemos assumi-lo como local de experimentação da exceção. Mas, seguindo o raciocínio até agora desenvolvido, diria que o bólide “Homenagem ao Cara-de-Cavalo”, exposta na Bienal atual é menos político do que a passagem dos ‘metaesquemas’ para os ‘penetráveis’ e, destes, para os parangolés, pois isso não aponta uma questão política, não faz uma denúncia, diria, mesmo, nem de um simbolismo ou metáfora se trata. Onde está a política dessa passagem, então? Basta dizer que é a afirmação de uma arte latino americana em contraste com o minimal e o pop, ampliando a noção de arte a partir do que era, até então, considerado a periferia, o não-ocidente. Oiticica e, talvez, até mais, Lygia Clark, conseguem colocar em ação um dispositivo de passagem, de fluxo, de temporalidade na verticalidade reflexiva da arte que é, sim, uma tomada de posição das mais radicais realizadas na arte, até agora. Reporto, aqui, o texto de Mari Carmem Ramirez, “conceitualismos na América Latina”, mas lembro do próprio texto do Oiticica sobre os princípios da Nova Objetividade, como tomada de posição política para uma definição de arte no contexto dos países pobres. Nesse sentido, a invenção de Oiticica e Clark corresponde ao descobrimento da perspectiva na Renascença, ou do fenômeno da luz, no Impressionismo, nada mais, nada menos. O que eles fazem é desobstruir os canais de percepção, ampliar nossa sensibilidade, injetar subjetividade na regra, tornar-se exceção mesmo com o passar dos séculos. Assim arte política é aquela que não se engessa no tempo, mas propõe, instiga, provoca, enfim, subverte da maneira mais generosa, porque não quer levar o espectador a uma interpretação, somente, mas a libertá-lo dos grilhões da temporalidade do consumo imediato imposta pela regra. Não se trata, talvez, como defende dos Anjos, de que arte é memória, ou de que a arte seja a preservação da memória (se não estou enganado a forma como o curador colocou sobre a ‘função’ da arte, na palestra), mas de reatualizar o próprio tempo, a cada vez que nos defrontamos com ela, a arte. Como exemplo dessa poética política traduzida em obras, creio que o melhor da arte é quando ela consegue transformar o banal cotidiano em evento extraordinário, como é o caso de Muro mole, de Vergara, uma verdadeira máquina de flexibilizar fronteiras, onde o uso de meios, por mais simples que tenham sido, é de densidade poética das mais significativas. Ou Cruzeiro do sul, de Cildo, em que um pequeno cubo de madeira de 1 cm de cada lado pede a maior distância possível de qualquer outra interferência no espaço, para sua exibição, só para ficar em dois exemplos e atestar minha incondicional admiração por esses dois artistas presentes ao evento do Moreira Salles.
No entanto, não posso deixar de colocar que, à medida em que a exceção transforma a regra no sentido de alterar sua própria condição, como coloca o filósofo Michel de Certau em um texto onde analisa as práticas de oposição entre a tática e a estratégia, temos que notar que a noção de cultura também se modifica. No caso da Bienal, os curadores parecem ter optado por criar muros com a diversidade, apaziguando conflitos e passando por cima da crítica institucional. Hoje, a sociedade aprendeu a enxergar a diferença e, por conseqüência, compreender como se dá o processo de seleção, e a repudiá-lo. A liberdade de expressão requer responsabilidade dos atos que se executa e das palavras que são dirigidas ao público. Queiram ou não – e ainda que as potencialidades não estejam sendo utilizadas como desejamos – as políticas públicas do governo federal fazem parte dos fatores da descentralização dos saberes, no país. Assim, por que não dizer que a própria maneira como o artista e o circuito se vêem em relação ao contexto onde o trabalho de arte circula também podem ser modificadas? Não só a crítica ou a curadoria, mas a própria noção de sacralidade da liberdade de expressão do artista acaba por reforçar as regras, quando imagina estar fecundando a exceção. O sentido só pode aparecer na experiência subjetiva dos acontecimentos. Quando, ao invés de ser dirigido ou antecipado pela instituição, é aceito como cruzamento de fronteira, tratado por ela como virtualidade potencial manifesta. Bandeira Branca não quis se misturar ao “libertem os urubu” e foi esvaziada de seu sentido. Não se trata de um cerceamento às poéticas, ou a exigência de um postulado partidário, mas um compromisso e um posicionamento que a arte deve se impor, no mundo, para que seus agenciamentos se tornem, de fato, subversivos. E isso me parece um tanto quanto político e poético, ao mesmo tempo.


[1] Ver o texto Bandeira branca, amor, de Nuno Ramos, originalmente publicado na Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 17 de outubro de 2010. Disponível em: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/003468.html
[2] A esse respeito gostaria de reportar a Carta Aberta contra a prisão das araras na exposição em homenagem aos 40 anos da Tropicália, no MAM/RJ, em 2007, disponível em: http://www.canalcontemporaneo.art.br/arteemcirculacao/archives/001385.html
Além do texto A remontagem como documento, também de 2007. Disponível em http://www.canalcontemporaneo.art.br/arteemcirculacao/archives/001447.html